Cidades

O legado deixado pela Balsa da Barra

A balsa era a principal travessia há mais de 60 anos e, mesmo com a retirada em 2016, deixou uma forte influência nos movimentos culturais do bairro

Texto: Patrícia Barbosa e Samara Michele

A Balsa da Barra, que fazia a travessia de moradores e turistas pelo Rio Camboriú, custava aos cofres públicos cerca de R$ 800 a R$ 900 por dia, isto é, quase R$ 30 mil por mês. Já a Passarela Manoel Firmino Rocha, que teve o investimento de R$ 30 milhões, e substituiu a balsa em 2016, é considerada por muitos um objeto turístico para cidade. Porém, peca no quesito funcionalidade em comparação com a antiga travessia, que durante anos transportou com praticidade a população, além de ser um patrimônio histórico deixado ao bairro.

Poesia na Balsa

Com a iniciativa de moradores da região, foi criado o projeto Poesia na Balsa. Contemplado pela Lei de Incentivo à Cultura, a travessia contava com intervenções poéticas nos horários de pico. Poetas da região chegaram a se apresentar algumas vezes, mesmo com a premissa de que a balsa poderia ser retirada com o início da construção da passarela.

Com os rumores da retirada da balsa, foi criado o movimento #ficabalsa, pois muitos moradores não queriam que ela terminasse. Com a retirada definitiva da travessia, foi concedida então a autorização para realizar essas intervenções culturais em locais próximos de onde a balsa ficava, como pontos de ônibus ou nos locais em que o pessoal coloca os barcos de pesca de camarão.

Projetos futuros para o Bairro da Barra ainda são bem-vindos. Um deles é o circuito de uma galeria a céu aberto, com pinturas nos muros em homenagem à pesca e moradores que marcaram a história do bairro.

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Foto: Renata Rutes Henning

O legado da Balsa: Sarau da Tainha

Debora Garcia mora há 3 anos na praia de Taquaras, na Interpraias, e é uma das fundadoras do projeto Sarau da Tainha. Ela conta que a ideia do sarau teve início em 2014. Moradores da região fizeram uma pesquisa local e inscreveram um projeto para a Lei de Incentivo à Cultura (LIC) de Balneário Camboriú, que foi aprovado, dando início ao primeiro encontro em setembro de 2015 na Praça do Pescador, que hoje fica em frente à torre Sul da passarela. Desde então todo o primeiro sábado do mês é marcado pelo evento.

O espaço é aberto para qualquer pessoa que queira apresentar sua arte. No início existia uma dificuldade de interação com a plateia, até porque a ideia do sarau é contar com a participação do público. Como precaução, é feita uma programação com antecedência. “Antes a gente precisava ficar catando gente, porque não tinha verba. Hoje, temos uma verba bem pequena para as pessoas se apresentarem, mas no começo foi bem difícil. Prezamos pela arte autoral, então o pessoal canta suas músicas, declama poesias e apresenta seus quadros”, comenta Débora.

O sarau foi imaginado como uma forma lúdica e poética, trazendo o encontro de várias artes e linguagens. A ideia principal é a ocupação do espaço público de maneira pacífica e com várias ações culturais. Muita música, poesia, exposição de fotografias e quadros, tudo de origem autoral.

Debora afirma que quando o Sarau da Tainha foi criado, a praça estava abandonada. Antigamente o espaço era bem ocupado, mas devido a construção da passarela estar parada os moradores deixaram  de ver aquele espaço como lazer.

“Quando fizemos o projeto foi pensando em ocupar mesmo. Trazer a comunidade para a praça, fazendo ações culturais gratuitas para as pessoas estarem ali. Incentivar o uso daquele espaço, que é histórico na cidade. ” Débora Garcia.

Audiência pública

Na segunda-feira, 20, foi realizada na Câmara de Vereadores uma audiência pública  para discutir o retorno da travessia. A iniciativa partiu de moradores que realizaram um abaixo assinado com mais de 1200 assinaturas. Os vereadores Gelson Rodrigues (PSB), Aldemar Pereira (PMDB), Patrick Machado (PDT) e Leonardo Piruka (PP) se mobilizaram e junto com a comunidade discutiram o retorno. Porém, por divergências de ideias, pouco foi decidido. Ficou por responsabilidade das associações de moradores de cada bairro da região sul (Barra Sul, Barra, Vila Real, São Judas e Interpraias), entrarem num consenso e elaborar uma proposta para encaminhar ao legislativo.

Para o vereador Gelson Rodrigues, uma das ideias para a resolução do problema seria o término das obras na Marginal que está sendo construída na BR-101, sobre o Rio Camboriú. “Com as obras finalizadas pela Autopista Litoral, o acesso ao bairro da Barra irá melhorar consideravelmente, e os moradores não irão se manifestar pela volta da balsa”, completa o vereador.

As primeiras travessias no Rio Camboriú começaram a ser realizadas há mais de 60 anos. Até criarem a balsa motorizada os moradores atravessavam o rio de canoa.

Fonte: Gisele Schramm
Família de pescadores na balsa, travessia do Rio Camboriú, década de 1940.

 

“A balsa nunca deveria ter deixado de existir. As pessoas que participam do Sarau da Tainha são a favor da balsa. Queremos muito que voltasse. Até porque, tinham pessoas que ali trabalhavam, como o seu Santo, uma figura bem conhecida no bairro, que também fazia a travessia.” Débora Garcia.

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