Comportamento

Nunca é tarde para sonhar: pessoas mais velhas voltam às salas de aula

Segundo dados, um a cada sete inscritos no Enem tem mais de 30 anos

Texto: Caroline de Borba e Paula Dagostin
Foto: Cole Keister


“Casei, tive três filhos, por isso resolvi esperar eles crescerem. Agora que minha filha mais nova está com 11 anos, achei que já era hora de voltar”, revela Rosangela Zerbien Betin Ferraz, de 35 anos. A motivação para voltar a estudar depois dos 30 anos, ou até mais, pode surgir do desejo de se adaptar às mudanças que ocorrem a sua volta, buscar mais capacitação para o mercado de trabalho. Por estarem com os filhos crescidos, essas pessoas decidem dedicar um tempo para si mesmas e para seus sonhos.

Rosangela sempre sonhou em fazer Medicina. Após terminar o Ensino Médio, acabou adiando esse sonho devido à condição financeira e por não acreditar que conseguiria entrar em uma universidade pública. Agora, com uma visão amadurecida, está estudando para prestar vestibular. “Pretendo cursar Medicina pois sempre foi a minha área de interesse. Agora, com a maturidade, pude enxergar que não devo me importar com a concorrência. O que preciso fazer é ter paciência, uma hora eu passo”.

A dona de casa Dulciléte dos Santos, de 52 anos, ingressou na graduação de Pedagogia da Univali em 2014. Assim como Rosângela, a dona de casa optou por retornar aos estudos tardiamente, na época com 49 anos, para realizar o sonho de cursar uma universidade. Sonho que deixado de lado por muitos anos devido a diversos empecilhos. Além disso, ressalta que a necessidade de formação para o mercado de trabalho lhe fez abraçar a oportunidade do curso superior assim que esta surgiu.

A psicóloga Suellen Mengatto, especialista em orientação vocacional, também aponta o desejo por mudar de ramo como um grande influenciador nesta escolha. Em alguns casos, isso ocorre por conta de trabalhar em algo que exija muito esforço físico e o corpo já não ter mais força. Em outros, por se estressar muito no trabalho atual e até mesmo por questões médicas. Optam então, por ingressar em uma outra área onde possam se realizar mais e receber menos cobranças.

Segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pela aplicação do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), a participação de alunos com idade superior a 30 anos corresponde a cerca de 14% do total de candidatos. Neste ano, mais de quatro milhões de estudantes fizeram as provas.

6263790736_48b70d1391_o
Foto: Carol Garcia

Algumas mudanças surgem após a escolha por cursar uma faculdade. A mudança de rotina é grande e a organização e gerenciamento do tempo se torna essencial. É necessário aprender a lidar com o estresse, cansaço físico e mental. No entanto, a pedagoga Marialva Spengler e a psicóloga Suellen apontam fatores positivos nesta mudança, como a autoestima elevada, autoconfiança, facilidade em se relacionar, aprimoramento da linguagem verbal e mudança de visão de mundo.

Para Rosangela, as transformações em sua vida, após conseguir realizar seu sonho, significam uma mudança radical em sua rotina. “Vou ter a profissão que sempre almejei, me sentir realizada. Sei que meus filhos terão a vida deles e eu terei um novo sentido para a minha”.

A psicóloga ainda aponta que quando se trata de uma idade avançada, esses pontos se tornam mais visíveis. “Quando a gente fala em mudança em uma idade mais avançada, a gente fala de mudanças também relacionadas à rotina, exigências. Mas tem um outro lado também, que é muito positivo. É uma felicidade muito grande, um orgulho pela escolha. Porque é alguém que já passou por tantas fases da vida e fazer esta escolha nessa idade, dá muito orgulho”.

Marialva ressalta que com o avanço da idade as dificuldades de aprendizagem se tornam maiores. Mas de acordo com a pedagoga, quanto mais estuda, mais capacidade a pessoa terá de aprender. Portanto, dizer que os mais velhos tenham mais dificuldades, é um mito. A psicóloga pondera que o que pode haver é uma maior dificuldade em lidar com as tecnologias, visto que as salas de aula mudaram muito ao longo dos anos. “É algo que pode estabelecer uma barreira, e aí é que vem o papel da família, dos colegas de turma e até dos professores em dar um apoio nesse sentido”, observa Suellen. 

Para a estudante de pedagogia e dona de casa, lidar com a tecnologia foi uma das maiores dificuldades ao ingressar na faculdade e acredita que esta seja uma grande barreira a ser superada para quem inicia os estudos mais tarde. Como a modalidade do seu curso é distância, essa dificuldade se acentuou. “Tinha muito receio de entrar no ambiente online e fazer as provas à distância”, relata Dulciléte. 

A pedagoga enfatiza que as pessoas que ficaram anos afastadas dos estudos podem ter maior dificuldade de adaptação. Neste sentido, é muito importante que colegas de turma e professores sejam tolerantes e pacientes. “Ajudar nesta fase de adaptação é muito importante para que a pessoa não desista e se sinta integrante do grupo”, explica Marialva.

Para a professora de cursinhos pré-vestibulares, Ana Lúcia Martins, a carga de estudos pode se tornar cansativa para alunos mais velhos. “É preciso de tempo para treinar exercícios das apostilas e ler os livros de literatura escolhidos como leitura obrigatória em cada vestibular, ou seja, é preciso tempo, motivação e capacidade organizacional”.  

Suellen aponta que a idade não é determinante para uma dificuldade de convivência, ou até mesmo preconceito em uma sala com estudantes mais jovens. Mas ressalta que quanto mais velha for a pessoa, mais dificuldade na flexibilidade de pensamento irá ter e, com isso, muitas vezes surge a dificuldade em se relacionar com os colegas de turma. “Podem ter mais problema com a paciência, bagunça em sala de aula. Agora quando são pessoas mais abertas, flexíveis, começam a ter mais histórias para contar, se tornam referências em sala de aula”.

Marialva, no entanto, pondera que depende da postura do próprio estudante, que pode acabar assumindo o papel de “mãezona” de turma. A pedagoga, observa, porém, que já presenciou casos de discriminação por conta da idade e que nesses casos a intervenção e trabalho do professor é fundamental. “O professor precisa agir junto ao grupo, propondo trabalhos de integração e valorizando as qualidades de cada um. Os jovens que saem do Ensino Médio são, por vezes, abusados e imaturos e nem sempre sabem valorizar a experiência dos mais velhos”.

Dulciléte sentiu certo preconceito por parte dos alunos mais novos no início da faculdade, mesmo que houvessem outras colegas com mais idade. Hoje, já no penúltimo período, foi a única estudante mais velha que permaneceu. No entanto, afirma que, atualmente, mesmo sendo a única com idade superior, possui um bom relacionamento com os colegas de classe mais jovens.

A professora Ana Lúcia relembra sobre um dos seus alunos mais velhos. Com 60 anos, o aluno do cursinho pretendia fazer faculdade de Psicologia. Ana recorda sobre a postura do estudante em sala. Ela conta que o idoso era muito ativo em sala de aula e gostava de interagir com os alunos mais novos. “Gosto de ter em sala de aula pessoas mais velhas e experientes, enriquece a dinâmica das relações”.

Preparação para o vestibular

A organização é fundamental para conseguir realizar as tarefas do dia a dia e conciliar com os períodos de estudos. Rosangela explica que a tarefa não é nada fácil, mas que o gosto pelo estudo contribui para a sua motivação. “Divido meu tempo entre trabalho, casa, filhos e estudo, mas como eu gosto de estudar, para mim serve de lazer”.

element5-digital-352046

Para auxiliar nos estudos e guiar os alunos sobre o conteúdo a ser estudado, existem os cursinhos pré-vestibulares. Para a professora Ana Lúcia, o cursinho pode ser mais proveitoso que estudar sozinho. Porém, o perfil do aluno deve ser levado em consideração. Pois, segundo ela, há pessoas que se dedicam a estudar em casa e mesmo assim, alcançam seus objetivos.

Nos cursinhos os professores trabalham em cima de provas realizadas anteriormente e em conteúdos programados. De acordo com Ana Lúcia, essa prática reforça o aprendizado e prepara o aluno para que não ocorram surpresas na hora da realização dos vestibulares escolhidos. No entanto, além da organização e da participação em cursinhos, a pessoa deve ter em mente qual curso superior deseja e para quais vestibulares irá prestar a prova. Seja com o intuito de mudar de ramo ou para realizar um sonho, a persistência e a dedicação são fundamentais para a obtenção do sucesso.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s