Comportamento

Liberdade condicional: a persistência do racismo em pleno século XXI

Mesmo após quase 130 anos da abolição da escravatura no Brasil, movimentos supremacistas declaram guerra aos negros

Texto: Caroline de Borba e Paula Dagostin
Foto: ShutterStock

“Minha vida toda estudei em colégios, onde eu era o único negro da sala e sentia um tratamento diferente dos meus colegas”, assim explica Francisco Oliveira, estudante de Publicidade, sobre o que é ser negro no Brasil, mesmo após a abolição da escravatura em 1888. De lá até os dias atuais, quase 130 anos se passaram, mas os traços da discriminação racial perduram.

Recentemente noticiado no portal de notícias G1, foram encontrados cartazes que faziam apologia ao “orgulho branco” em Blumenau. Os cartazes continham ameaças contra negros, macumbeiros, antifascistas e comunistas. Movimentos como esse foram noticiados em outras partes do mundo, mas principalmente nos Estados Unidos.

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Cartazes afixados em postes no bairro Ponta Aguda, em Blumenau (Foto: Divulgação Polícia Civil)

O racismo provém de uma longa história e que, de forma sutil ou não, ainda se apresenta nos dias de hoje. Tudo começou há muitos anos, quando negros eram vendidos para serem escravos. Deveriam se submeter ao seu senhorio para não correr o risco de apanhar, ser chicoteado ou ir para o tronco. Não eram consideramos seres humanos, apenas mão de obra.

No entanto, de acordo com o historiador Francisco Braun, é possível localizar a acrescência do racismo com a emergência de uma pseudociência, o racismo científico. Uma das teses sugere que o cérebro dos brancos é maior do que o de negros. Essas teorias ganharam força no contexto do Iluminismo, no fim do século XVIII e início do século XIX. O racismo ganhou ainda mais força na segunda metade do século XIX, com a ascensão do discurso eugenista, que consiste na definição de quem possui uma genética superior.

Mesmo com o passar dos anos, o racismo tem sobrevivido, e se apresenta de diversas formas, por meio de palavras, discursos, publicidades e atitudes. Para o historiador, o principal alimento do racismo, e que o faz permanecer, é a intolerância. “A sobrevivência do racismo se faz, na maior parte das vezes, em decorrência de posturas intolerantes frente a condição religiosa, cultural e mesmo social de determinados grupos ou sociedades”, afirma Braun.

Para a psicóloga Jussara Eberhardt, o racismo está ligado ao modo com que pais criam os filhos. “O racismo é aceito de um modo ´natural` entre os diversos grupos. Uma criança, que cresce dentro de um núcleo com preconceitos e opiniões onipotentes, dificilmente poderá enxergar o mundo ou outra pessoa com igualdade”.  

Recentemente, marcas como Dove e Santher lançaram propagandas publicitárias com teor racista. Enquanto uma sugere que a mulher negra se torne branca, a outra faz a ligação do papel higiênico preto com o slogan de uma campanha contra o racismo, “Black is Beaultiful”. O historiador acredita que, por trabalharem com a persuasão, uma publicidade produzida com teor ainda que, sutilmente, racista pode propagar ou promover o discurso preconceituoso.

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As propagandas que foram retiradas após serem acusadas de racismo

Devido à naturalização do racismo, apenas após pressão popular é que as marcas perceberam o erro cometido. Para Francisco, estudante de Publicidade, o racismo está tão enraizado que se torna difícil perceber o que ofende uma pessoa negra. “Eu me senti ofendido, porque na propaganda da Dove usaram uma mulher negra como símbolo de sujeira, demonstrando que o produto poderia clarear a pele”.

Ainda que a escravidão tenha sido abolida, após episódios de racismo e de exclusão social, pessoas negras podem acabar desenvolvendo doenças e problemas psicológicos. Ao sofrer com o preconceito ainda na infância, as crianças podem ter suas bases psicológicas destruídas, desenvolvendo quadros de depressão, sensação de menos valia e quando agravado, até síndrome do pânico e outros distúrbios mentais.

O mesmo pode acontecer com adultos, pois, devido aos casos de racismo acontecerem de forma velada, as pessoas criam mágoas internas. Mas já existem processos psicoterapêuticos que contribuem para minimizar os danos sofridos. Segundo Jussara, após as sessões, as pessoas alcançam níveis de conhecimento interno que lhes permitem estruturar a vida e fortalecer o ego novamente, criando mecanismo de defesa apropriados.

Segundo pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), intitulada Vidas Perdidas e Racismo no Brasil, a cada 100 homicídios 71 são contra pessoas negras. “Estamos cansados de ver negros morrendo, não conseguindo empregos ou sendo comparados a marginais. Estamos no século XXI, e mais do que nunca precisamos ser tratados como pessoas, queremos respeito”, explica Francisco Oliveira.

Braun acredita que a melhor forma de combate ao racismo seja a educação. O ensino da pluralidade, do respeito às diferenças e à diversidade. “Uma educação voltada a uma perspectiva democrática, estudando as diferenças de crenças e valores na sociedade. Para não nos depararmos com o perigo de uma única história”.

 Assim como Braun, Jussara defende que a educação escolar seja um elemento fundamental para quebrar o mito da superioridade. Para ela, os estudantes precisam usar o conhecimento que têm em prol do engajamento contra o racismo. “Os estudantes devem ser agentes transformadores, pois o racismo é uma herança histórica e toda história pode ser reescrita”.

Dia da Consciência Negra

Celebrado em 20 de novembro, o Dia da Consciência Negra foi instituído pela Lei nº 12.519. A escolha da data foi em virtude da morte de Zumbi, líder do Quilombo de Palmares e símbolo da luta e resistência dos negros no Brasil. A criação dessa data comemorativa é uma forma de lembrar a todos sobre a importância e a contribuição cultural que os negros trouxeram para o Brasil. Mas mais do que isso, relembrar de toda a história, dizimar o preconceito e lutar por igualdade.

 

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Foto: Lais Cattassini/G1

A instituição da data é resultado de mais de 40 anos de batalha, o que contribuiu para a afirmação da história dos negros no Brasil. Outro feito importante da luta negra é a obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas. Porém, pela falta de representatividade no plenário, no cenário brasileiro e na TV, os negros, que somam mais de 54% da população brasileira, permanecem tendo a sua voz calada.

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