Comportamento

Defesa pessoal: mulheres buscam alternativa na luta contra a violência

“Em uma festa, que havia ido com amigos, estávamos caminhando, quando senti ser puxada pela cintura"

Texto: Bruna Gonçalves e Tatiane Decker

Carolina Costa se mudou para Itajaí em 2015, quando saiu da casa dos pais em São Paulo e veio morar sozinha na região por causa da graduação. Desde então, o pai achou essencial que ela soubesse o mínimo de auto defesa. Ele mesmo apresentou a filha à técnica de Krav Maga. Felizmente, a estudante não faz parte da estatística de assédio contra mulheres nas ruas. Até agora não vivenciou um ataque, mas, depois das aulas, se sente mais confiante.

Não é o mesmo caso de Alexya. A jovem estudante já passou por mais de uma situação constrangedora e invasiva. “Em uma festa, que havia ido com amigos, estávamos caminhando quando senti ser puxada pela cintura. O homem que me segurou não me soltava mais. Quando comecei a me debater, ele ainda me xingou de vários nomes ofensivos”.

Desde 2001, assédio sexual passou a ser considerado crime no Brasil. A lei número 10.224 define o crime pelo ato de “constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função”. A pena prevista é de um a dois anos de detenção. Infelizmente, na prática as mulheres convivem diariamente com situações humilhantes. “O que me fez procurar as aulas de autodefesa foi a necessidade que eu tinha de me sentir segura. Seja na rua, em festas e até em ambientes considerados mais seguros”, argumenta Alexya.

Existem várias técnicas e tipos de aulas que podem ajudar em situações extremas. O Krav Maga é uma delas e vem ficando mais conhecido nos últimos dos anos. Para o instrutor Adenilson de Souza, toda mulher deveria buscar essas aulas. “Quando você sabe Krav Maga, aproveita uma distração do oponente ou agressor com auto confiança e certamente se protegerá. Mas, para isso, tem que treinar. Em primeiro lugar, a vida”.

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Alunas da escola de Krav Maga Bukan School, na qual o instrutor Adenilson de Souza atua (Imagem cedida)

Segundo o 11º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, Santa Catarina não está bem quando o assunto é violência contra a mulher. É o quinto colocado em número de vítimas de abuso sexual e o primeiro em tentativas de estupro. O instrutor de karatê Mathias Varela conta que a maioria das alunas procura as aulas por precaução ou por ter presenciado uma agressão de qualquer tipo, mas esta alternativa ainda está longe de abarcar uma parcela importante das potenciais vítimas de violência. “Em nossa oficina, ensinamos a reação para casos em que o criminoso está desarmado. Instrutores precisam ser realistas e não indicar reação contra armas de fogo ou brancas. A chance de sucesso é muito escassa. Porém, em situações extremas, onde não há saída e vamos morrer mesmo não reagindo, então é melhor tentar se salvar”.

Para Monique Marin, a banalização de assédio e abuso é visível, quando se fala em ameaças. “Eu ia responder que não, que nunca sofri nenhum ataque físico direto, mas já me senti ameaçada muitas vezes. Já tive que fugir e me esconder porque estava sendo perseguida, por exemplo”. Ao longo da vida, a jovem já ouviu tantos relatos piores, que certas situações parecem pequenas. Mas não são. As aulas foram uma forma de unir alguma atividade física com algo que tivesse um objetivo maior. Feminista, Monique acha importante saber cuidar de si mesma e de outras. “Como mulher, aprendi que deveria ignorar o assédio, porque assim era mais seguro. Mas sempre tive a impressão de que quanto mais nos calamos, mais sustentamos este ciclo.” Isso não significa sair batendo em qualquer homem. Não é disso que se trata. Significa que quanto mais ela aprende, menos frágil se torna e mais chances tem de sobreviver. E talvez, com o tempo, o medo não a cale mais.

Nos últimos meses, o assunto assédio tem sido bastante falado por conta do relato de dezenas de atrizes de Hollywood. Talvez os movimentos feministas, coletivos de mulheres e os debates cada vez mais frequentes sejam responsáveis pelo empoderamento feminino em busca de aulas de autodefesa. Hoje, Carolina se sente mais segura de si. “Depois que tu já está há uns meses fazendo as aulas, começa a confiar mais em você mesma, no que é capaz de fazer, nos golpes. Mas a modalidade é muito mais do que a luta. Você aprende a viver o Krav Maga e saber pensar e agir de forma mais inteligente”.   

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