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A arte de representar em prol do desenvolvimento infantil

"O teatro é lugar de encontro com o outro, de discussão, de reflexão, de liberdade, de transformação"

Texto: Bruna Souza e Roberta Ribeiro

Poltronas todas ocupadas, assim como os corredores e o chão, próximo ao palco. Olhos atentos, os pequenos procuravam um lugarzinho para enxergar melhor. Alguns procuravam o colo de um adulto para ficar mais confortável. No início, estavam inquietos, mas, aos poucos, foram se adaptando ao local, à luz e à voz dos personagens. A apresentação causa risos e o publico interage, mesmo quando não deveria. Ao final, teve até quem se emocionou. E a mala amarela, que guardava todas as vontades, ficou vazia.

A peça “Mala Amarela” foi apresentada no teatro do SESC Itajaí, para o primeiro BONENCONTRO – Encontro Catarinense de Teatro de Bonecos, de forma gratuita ao público. O teatro de fantoches comandado pelas atrizes Carol Carvalho e Aline Barth prendeu a atenção de crianças, adolescentes e adultos presentes no espaço e, principalmente, emocionou.

Mônica Longo, integrante da Companhia Mútua, pedagoga e especialista em Gestão de Projetos Culturais, explica que este encontro foi idealizado com o objetivo de gerar diálogo e trazer para Itajaí “bonequeiros” com trabalhos semelhantes aos de sua companhia, que há mais de 15 anos trabalha com técnicas como o teatro de balcão. Mônica afirma que a satisfação foi maior do que as dificuldades e, assim que a equipe foi definida, as coisas começaram a funcionar. Além do teatro, as manifestações ocorreram em asilos, escolas e até nas ruas. Foram recebidas nove companhias de teatro, duas de Itajaí e nove da região. A organizadora do evento ressalta ainda que o evento teve respaldo na mídia e atingiu cerca de duas mil pessoas.

Bolsa amarela
Peça Bolsa Amarela, Teatro do SESC Itajaí.

Para a jornalista Pietra Paola Garcia, um dos problemas em Itajaí é a escassez de público nos espetáculos. “Atualmente não conseguimos nos manter em cartaz, contando apenas com a bilheteria”. Ressalta que a lei de incentivo à cultura gera um pensamento equivocado por parte do público de que esse edital “sustenta” os artistas. O que não acontece. Toda a verba recebida vai para a produção dos espetáculos e eventos culturais em si. Muitas vezes, nem a remuneração dos artistas é feita adequadamente. Além disso, a divulgação é fundamental para as apresentações por falta de jornalistas culturais que aprofundem o tema. “Sem contar a falta de espaço nos veículos de comunicação. Especialmente se tentamos divulgar trabalhos que têm pouco ou nenhum apelo comercial”, explica.

As manifestações teatrais começaram a surgir no Brasil, no século XVI, como forma de catequização utilizado pelos jesuítas. Inicialmente, os teatros tinham mais caráter religioso do que artístico e eram apresentadas em locais públicos como ruas praças, pois não existiam espaços como teatros para realizarem as apresentações.

Os gêneros teatrais são auto, comédia, drama, farsa, melodrama, melodrama no teatro, ópera, musical, revista, stand-up comedy, surrealismo, tragédia, tragicomédia, teatro na escola, teatro de feira, teatro de improvisação, teatro invisível, teatro de fantoches, teatro de sombras e teatro lambe-lambe. E os espetáculos podem apresentar mais de um gênero.

Em pesquisa nacional feita pela Federação do Comércio do Estado do Rio de Janeiro (Fecomércio-RJ), em parceria com o Instituto Ipsos, foi identificado o crescimento de hábitos culturais nos brasileiros nos últimos oito anos. Foram ouvidos 1.200 consumidores em 72 municípios de todo o país em 2015. Das pessoas ouvidas, 100% afirmaram ter ido ao teatro ou ao cinema, passando de 17%, em 2007, para 35%, em 2015, e de 6% para 12%, na mesma comparação. Mesmo que o aumento tenha sido significativo, a procura por teatro cresce lentamente. A pesquisa também considerou que as mídias sociais contribuíram, e muito, na disseminação dos conteúdos e visibilidade para os artistas.

Dos sete programas culturais pesquisados, somente a prática de visita à exposição de arte permaneceu estável, com 8%, desde 2007 até 2015. Já o percentual de leitura aumentou de 31%, em 2007, para 36%, em 2015. Este aumento do consumo de livros aconteceu devido ao avanço na escolaridade e ao grande número de lançamentos e feiras literárias que ocorreram nesse período.

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Peça o Auto da Compadecida  Foto: Roberta Ribeiro

Em oito anos, o percentual de brasileiros que afirmou ter feito pelo menos um programa cultural subiu 10 pontos percentuais, de 43% para 53%. Em contrapartida, 47% dos entrevistados relataram não fazer nenhum programa de lazer cultural, apenas assistem televisão e frequentam a igreja. Segundo a pesquisa, a falta de hábito foi a razão mais citada para o não consumo de bens culturais, porque muitas dessas atividades, como museu, show de música, ler um livro, não têm custo. O custo não é colocado como principal fator impeditivo.

Para a educadora infantil Andressa Theodoro, as crianças se encontram em um mundo mágico quando assistem peças ou quando a escola organiza para que eles atuem. “As crianças sentem medo, riem e ficam discutindo sobre os personagens. O teatro estimula a imaginação deles que de fato se emocionam”, relata. A educadora explica ainda que esta prática aguça o desejo por livros, que também permitem viajar na história, e ajuda na escrita, pois eles ficam mais criativos.

Assim como Andressa, Mônica Longo entende que o teatro na formação das crianças é um espaço de criatividade e expressividade. Ele contribui para que se tornem adultos que consumam cultura, além de transformar as pessoas deixando-as mais humanas, mais sensíveis.

A mestra em teatro, atriz e cantora Ana Paula Beling enfatiza que  a relevância do teatro na formação de crianças está na potência do trabalho com a imaginação. Também na força do lúdico, no desenvolvimento do sensível, da empatia, do trabalho em coletivo, da escuta a si próprio e ao outro. Ele ainda ajuda nas relações espaciais, na apropriação corporal, no que tange ao humano e sua relação com o mundo ao seu redor.

A cantora fala ainda sobre as dificuldades encontradas pelos artistas relativas, a especialmente, a um público interessado, ativo, disposto ao novo, a sair do seu lugar de conforto e de passividade, um público sedento por cultura e novas experiências. Também à desvalorização e ao não-reconhecimento, no caso dos artistas, taxados de “não trabalhadores”, “vagabundos”, “mantidos pelo governo”, “preguiçosos” e “inferiores” a qualquer outro tipo de trabalhador. A falta de incentivo vem tanto do poder público quanto do privado. É preciso entender que a arte é mais que necessária, é essencial para a formação do ser. “Fazer arte é um ato político e, portanto, imprescindível. O teatro é mais que apenas entretenimento, é lugar de encontro com o outro, de discussão, de reflexão, de transformação”, explica.

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Apresentação dos alunos do Projeto Oficinas, Teatro Bruno Nitz. Foto: Roberta Ribeiro

Bruna Antunes, que mora em Ouro, oeste de Santa Catarina, conta que a ausência de teatro, cinema, museus e espaços para exposições causa, em sua cidade, uma deficiência na disseminação de cultura. “Quem gosta de cinema ou teatro precisa se deslocar para Joaçaba, cidade mais próxima, a 30 quilômetros de distância ou até Concórdia, a 90 quilômetros”, explica. Esta falta de espaço destinado à cultura diz respeito aos resultados da Pesquisa de Informações Básicas Municipais, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2015: apenas 10,4% dos 5.570 municípios brasileiros têm ao menos um cinema; 23,4% possuem teatro ou sala de espetáculos; 27,2%, museus; e 37%, centros culturais.

A dona de casa Cláudia Amaral, 35 anos, nunca tinha entrado num teatro até o filho de seis anos se interessar por peças produzidas em sala de aula. Gabriel também gosta de ler contos infantis e escrever poemas. Para a mãe, o teatro estimula a criança a fazer coisas diferentes como criar personagens, escrever sobre eles e interagir mais com a família. “Hoje sei que meu filho gosta de coisas que nunca imaginei, por isso o acompanho no teatro, levo para a biblioteca e mostro também outros caminhos da arte”, conta Cláudia. Para o menino, é só diversão e aprendizado, mesmo que a mãe exija que faça todas as tarefas da escola, até aquelas de que ele não gosta. A recompensa é melhor, porque, no fim do dia, ganha um livro novo ou vai ao teatro. “No início, eu tinha dificuldade para entender porque no teatro não posso ler ou assistir outra vez. É só uma vez e pronto. Agora é tudo mágico, esqueço que estou assistindo. Parece que sou eu quem está na história”, conta Gabriel.

 

Ana Beling relata as emoções causadas pelo teatro e define como provocação, uma vez que tira a pessoa do confortável, atravessa, desperta encontros (com o outro e consigo mesmo), engrandece, faz refletir, discute, desenvolve o sensível, a imaginação, a criatividade. O teatro é político, estar em relação constante com o outro e com o mundo. “No teatro, exercemos o diálogo, tão importante – ainda mais, atualmente, num momento de tanta intolerância política, religiosa, social, racial, sexual, entre outras. Com o teatro, expomos o mundo tal como ele é e o recriamos como gostaríamos que ele fosse.” E ela finaliza afirmando que o teatro é veículo poderosíssimo de mudança, de liberdade, de reação e de resistência.

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