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Mantendo as tradições, a festa do Boi de Mamão continua pulsante em Itapema

Há um século o folguedo do Boi de Mamão se faz presente em Itapema. Hoje, o grupo Raiz da Terra é o mais tradicional do Estado.

Texto: Silvio Matheus e Juliana Passos

A MORTE E RESSURREIÇÃO DO BOI
Origem

Essa história data de muitos e muitos anos atrás, quando Santa Catarina recebeu o povo açoriano, vindo das Ilhas de Açores para colonizar o Sul do Brasil. Naquele tempo, um fazendeiro chamado Matheus vivia com sua esposa Maria em uma fazenda diferente das outras: os animais que ali estavam não viravam comida; eram tratados como membros da família.

Maria esperava seu primeiro filho, e já no último mês de gestação revelou seu desejo a Matheus: coração de boi. Assim começou o dilema de Matheus. Ele não podia matar o boi de estimação, mas também não podia deixar de satisfazer o desejo de grávida de Maria para que o filho não nascesse com rosto de boi.

Certo dia, um cavaleiro chegou à fazenda, havia sido contatado por Matheus. Coube a ele a tarefa de abater o boi para que Maria pudesse, finalmente, satisfazer seu desejo. Entre uma perseguição e outra o cavaleiro laçou o boi e matou o bicho. Era o fim do dilema de Matheus, mas o começo de sua tristeza.

Na mesma hora em que o boi foi morto, o fazendeiro se arrependeu de sua escolha e chamou um conhecido curandeiro para cuidar do boi. Com galhos de arruda e rezas típicas, o curandeiro fez com que o boi ressuscitasse. O animal de Matheus estava vivo novamente, e isso gerou uma grande festa com todos os vizinhos e animais da fazenda. No fim, o filho do casal nasceu com rosto de menino. E esse relato fantasioso deu origem ao que conhecemos hoje como a manifestação cultural Boi de Mamão.

De pai para filho
Premiação
Silvio em apresentação

Há 56 anos, na cidade de Itapema, nascia Silvio Valmor Vieira. Silvio foi gerado na família responsável por implantar o grupo de Boi de Mamão na cidade. Já criança aprendeu a tirar verso observando seu pai e avô. O grupo existe há 100 anos em Itapema, Silvio comanda a brincadeira quase a metade desse tempo.

Silvio canta os versos de improviso. “Quando chegamos em uma festa ele pergunta o nome das autoridades e faz rimas improvisadas com essas pessoas, dentro da história do Boi”, conta Vanessa Correia, coordenadora do Grupo Boi de Mamão Raiz da Terra.

Silvio é o presidente do grupo. Analfabeto, artista e orgulhoso: aprendeu a assinar o próprio nome para poder formalizar as documentações importantes referentes ao Raiz da Terra, que hoje é, também, uma Associação.

Se tiver licença eu entro

O grupo de Silvio e Vanessa é considerado o mais tradicional de Santa Catarina. Tanto que, até hoje, ele mantém de pé uma tradição muito forte dentro da brincadeira do Boi de Mamão, a de passar de casa em casa levando a cantoria e a história do boi. São escolhidas datas comemorativas, como o Natal por exemplo. Lá vai Vanessa, Silvio e outras 25 pessoas, de todas as idades, cantar, brincar e beber.

“Cheguei, cheguei, cheguei. Cheguei cantando agora. Se eu tiver licença entro, ôi se não tenho vou-me embora”

Outros grupos apresentam a morte e a ressurreição do boi, mas o Raiz da Terra tira as modas de improviso, então, conforme a festa e a situação, Silvio constrói os versos, sempre seguindo os chamados pontos, versos iniciais, como o que pede licença para entrar nas residências.

“Meu limão, meu limoeiro, meu pé de jacarandá, uma vez quero ôlele, aí outra vez quer’ôlala”

O tirador de versos sempre pergunta o nome das pessoas que recebem o grupo para coloca-los dentro de suas rimas e seguir a brincadeira com mais intimidade. Segundo Vanessa, eles começam essa festa sem hora para ir embora, seguem madrugada adentro apresentando a festa do boi para os moradores de Itapema. “Enquanto tem a cachacinha para os adultos, o grupo continua”.

“Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar, vamos dar a meia volta, ôi volta e meia vamos dar”

Eles não cobram para apresentar as modas e seguir com a brincadeira, mas existe um costume por meio do qual os anfitriões das casas oferecem dinheiro ao grupo: “quando a gente apresenta a última moda para a família, damos meia volta e vamos embora cantando. Mas se o dono da casa levantar uma nota de dinheiro, todo o grupo tem que dar meia volta e buscar a quantia. Acontece de levantarem o dinheiro mais de uma vez, e nós voltamos, é tradição. Teve caso de ficarmos indo e voltando mais de vinte vezes!”.

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Vanessa se apresentando
A MORTE E RESSURREIÇÃO DO BOI (1)
Instrumentos da brincadeira

Vanessa Correia é artista plástica, ela é quem faz as fantasias usadas nas rodas durante as apresentações do Boi de Mamão. Tem o cabrito, o cavalo e a Maricota, moça alta que assusta a plateia, tem a Bernúncia, que literalmente engole as crianças para dentro da fantasia, e, é claro, tem o Boi.

Segundo Vanessa, todas as fantasias são feitas artesanalmente. É Silvio quem coleta os materiais da natureza para sustentarem os bonecos, e ela faz a montagem, os moldes e a pintura.

Os instrumentos usados pelo grupo também seguem a mais pura tradição. A parte musical do Boi de Mamão Raiz da Terra conta com um coro de vozes, o verseiro, a percussão e a gaita. A percussão é feita por tambores de couro de cabrito, apenas um artesão em Itapema domina as técnicas da construção desse instrumento, e é ele quem faz os tambores para o grupo.

Até o começo desse ano, a gaita de boca era tocada pelo seu Acyole da Silva. Com 85 ou 86 anos, Acyole nunca sabia sua idade, o gaiteiro morreu. A maior parte de sua vida foi dedicada ao resgate cultural de Itapema.

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Vanessa e Silvio na confecção das fantasias
Passando em frente

O filho de Vanessa tem dois anos. A mãe de Vanessa também faz parte do grupo (aliás, é ela quem costura os tecidos usados nos bonecos). Além deles, existe outra família que está há três gerações no Raiz da Terra. “É uma coisa muito família, vai a mulher e o marido, logo chega uma sobrinha, se nasce um filho já entra no grupo”, comenta Vanessa.

Tem também outros três membros que já estão aprendendo a arte das palavras com Silvio. O Joaquim Trindade, de 18 anos, que toca tambor e já tira verso improvisado. Fernando Trindade, de 11, que também é tocador de tambor e verseiro. E o Lipe, de 8, que está aprendendo.

Desse modo, o Boi de Mamão de Itapema vai plantando nas novas gerações a importância de se manter viva as histórias da própria terra.

Reconhecimentos

Tanto trabalho, dedicação e respeito não poderiam deixar de render bons frutos. O Boi de Mamão Raiz da Terra já recebeu três prêmios do NEA – Núcleo de Estudos Açorianos da UFSC, que todo ano, antes da Festa Açoriana, entrega troféus em diversas áreas.

Em 2011, o Raiz da Terra foi eleito o grupo folclórico mais tradicional do Estado. Em 2016, Silvio foi considerado um Mestre dos Saberes, e em 2017 Vanessa ganhou o troféu como artista plástica.

Além disso, o grupo é presença confirmada em todas as festas culturais da região. E quem viu, sempre vê de novo porque eles voltam todos os anos!

Hoje o Boi de Mamão de Itapema é Entidade de Utilidade Pública e associação formalizada no município. Portanto, pode buscar recursos estaduais e federais para suas despesas e investimentos.

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Exposição do grupo na Festa Açoriana em Florianópolis

A MORTE E RESSURREIÇÃO DO BOI (2)

Os bois pelo Brasil

Em todo o Brasil, a festa do Boi de Mamão se traduz em diversas linguagens e tradições diferentes. Mas todas com um conto em comum: a morte e ressurreição do boi. Acredita-se que a alegoria do boi está presente graças a importância que tinha o animal para as famílias na época dos colonizadores.

11425113_698907830214484_910381842331850942_oAs festividades são influências, também, de escravos, e chegou até serem proibidas entre os anos de 1861 e 1868. O nome que se dá a todas as festas que celebram a história do boi no Brasil se chama “Bumba Meu Boi”. Em agosto de 2012, o Bumba Meu Boi foi reconhecido como manifestação cultural do Brasil e recebeu o título de Patrimônio Cultural do país. Comemora-se em 30 de junho o dia do Bumba meu Boi.

Mas, e o mamão?

Essa história data de muitos e muitos anos atrás, quando os açorianos já haviam se instalado em terras tupiniquins. Naquele tempo, muitas pessoas faziam farra noite adentro comemorando a alegoria da morte e ressurreição do boi.

Certa noite, lá pelas quatro da manhã, um grupo, depois de ter passado em várias casas e tomado várias doses de cachaça, percebeu que o boneco que representava o boi tinha perdido a cabeça. O principal personagem da festa estava incompleto, e ainda faltavam algumas casas a percorrer.

Pensando rápido, as pessoas desse grupo colheram um mamão verde, colocaram dois galhos para lembrar os chifres, e pedras para os olhos do boi, assim seguiram a noite com a fantasia do boi e sua nova cabeça feita de mamão. 

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