Bem-Estar

Câncer de Próstata – mais comum do que se imagina

Somente em 2013, mais de 13 mil brasileiros perderam a vida por conta da doença

Texto: Gabriel Silva e Sérgio Augustin

A descoberta

“Descobri o câncer faz dois anos”, relata um senhor de 59 anos. Para ele, a descoberta foi um choque. Mais por desconhecer a doença do que por ela própria. “O médico disse que eu precisava remover a próstata. Fiquei com medo. Não sabia o que era isso”, admite.

Luiz, que apesar de entender mais sobre o câncer de próstata ainda prefere não se identificar, é um dos mais de 60 mil homens brasileiros que descobriram a doença. No caso dele, foi por acaso. “Minha esposa sempre dizia para eu fazer o exame, assim como ela faz da mama com frequência, por incentivo meu”. No Dia Mundial do Combate ao Câncer de Próstata em 2015, 17 de novembro, Luiz foi fazer o exame preventivo. “Eu estava muito constrangido, porque meus amigos sempre pegam no pé pela questão de fazer o exame do toque. Mas, era exame de sangue”. Luiz acha graça ao contar que preferia ter feito o exame do toque: “não gosto de agulha”, revela.

Dali, o médico fez um encaminhamento para Luiz ir num especialista. Ele diz que ficou um pouco incomodado porque, na ocasião, achou que o exame era apenas ali no consultório, não sabia que passaria por um segundo médico. “Sou autônomo. Não tenho tempo para ficar andando de um lado ao outro por causa de doença na bunda”, brinca. Na saída do consultório, encontrou um amigo – que não tinha recebido encaminhamento.

O senhor revela que ficou apreensivo. No carro, começou a olhar o exame que o médico tinha entregado, mas não compreendeu nada. No especialista, a surpresa: “o senhor precisa fazer uma biópsia, para termos mais certeza do resultado”, disse o médico. Luiz viu a vida mudar em instantes: “eu estava com câncer de próstata, num estágio que já era necessário removê-la”. Era correr contra o tempo, ou Luiz entraria no lado ruim da estatística: o ultimo levantamento é de 2013, quando 13 mil brasileiros morreram por causa do câncer de próstata. É o segundo tipo de câncer mais comum em homens.

Aceitação

“Não foi fácil”, conta. No ombro direito dele surge uma mão, branca, com unhas pintadas de azul claro. É a esposa. O gesto é reconfortante, como se o encorajasse a falar mais sobre aquilo que carrega dentro do corpo. Luiz se ajeita na cadeira, uma lágrima escapa dos olhos, e ele me olha como quem se desculpa por chorar. A esposa arrasta uma cadeira e senta-se ao lado dele.

Agora é ela quem fala: “quando ele chegou em casa estava bem estranho”. Luiz não tinha dito que recebeu encaminhamento, nem que visitou o especialista. Fez tudo sem avisar a família. “Mas, desde o dia que ele foi fazer o preventivo eu já notei algo diferente”, completa a esposa. Ela conta que Luiz só falou o que estava acontecendo quando recebeu o resultado oficial: positivo. Foi o dia em que ele não conseguiu mais esconder a angústia de ser diagnosticado com uma doença mortal, em estágio avançado.

“Ele chegou em casa e ficou me rodeando, igual uma criança que quebra alguma coisa dentro de casa brincando com a bola”, compara. Na ocasião, o momento que mudaria a história daquela família, Luiz falou poucas palavras, sem saber realmente o que dizer: “preciso de ajuda”, ele disse. Entregou para a companheira um papel em que estava anotado o início do pré-tratamento: 9 de dezembro de 2015.

“Foi um choque”, revela a esposa. Ela diz que a primeira coisa que fez foi acender uma vela para São Peregrino, mesmo que não tenha um santinho dele em casa. Aproveitou o embalo e acendeu vela para outros santos também: “Nunca se sabe quem pode ajudar”, brinca.

O Tratamento

“A primeira coisa que fiz foi remover a próstata”, conta Luiz. A cirurgia foi dia 3 de janeiro de 2016. Ele diz que foi abençoado: “meu maior medo era a incontinência urinária. Não queria ter que usar fralda ou ficar me mijando”. Sobre outros efeitos colaterais, ele revela que está com disfunção erétil – incontinência urinária e disfunção erétil são dois efeitos colaterais da remoção da próstata.

O médico de Luiz, doutor Luiz Fernando Cicogna, do Centro de Hematologia e Oncologia em Joinville, explica que os medicamentos podem retardar o crescimento do tumor. No caso de Luiz, foi diferente: “retiramos a próstata, mas precisamos incluir o tratamento quimioterápico por conta dos outros órgãos. Alguns já estavam sendo infectados”. Dessa forma, além do pós-operatório, Luiz ainda toma remédios para que a doença seja totalmente neutralizada.

“Ele não é mais um paciente de risco”, conta o médico. “Acredito que até o fim de 2018 ele possa parar definitivamente com o tratamento”. O especialista alerta que, mesmo assim, exames preventivos devem ser realizados frequentemente.

“Hoje sou outra pessoa”, diz Luiz. “Ainda tenho medo e vergonha, mas sempre procuro pensar no melhor”. “Nossa família se uniu mais depois que descobrimos a doença”, conta a esposa. Ela revela que a família vendeu uma casa de praia para fazer o tratamento em clínica particular. “Foi caro, mas nada paga o preço de ter o Luiz conosco”.

07.11.15 - Novembro Azul (Divulgação) (35)
Foto: Divulgação PMBC
Informações importantes:
  • O câncer de próstata surge por causa de uma transformação anormal das células. A doença começa em glândulas que produzem parte do sêmen, e se espalha até para fora da próstata. Na maioria dos casos, o tumor cresce de forma lenta, principalmente em homens de idade avançada. Quem tem mais de 50 anos deve fazer o exame preventivo regularmente. A doença é rara em homens com menos de 45 anos.
  • O câncer de próstata tem mais chances de aparecer em homens que já tiveram familiares com a doença. De forma hereditária, o câncer pode aparecer no avô, no filho e no neto, principalmente se um destes descobriu a doença antes dos 55 anos.
  • Alguns alimentos contribuem na prevenção do câncer de próstata: soja, selênio – que é uma substância presente em grãos, os vegetais e o chá verde. O consumo excessivo de carne vermelha pode resultar no surgimento da doença – pesquisadores acreditam que o consumo regular de anti-inflamatórios contribui no desenvolvimento.
  • A obesidade é um fator de risco. Homens que já tiveram gonorreia também possuem maior chances de ter a doença.
  • O dia 17 de novembro é o Dia Mundial do Combate ao Câncer de Próstata. A campanha começou na Austrália, em 1999. Um grupo de amigos deixou o bigode crescer durante todo o mês de novembro, em apoio à conscientização da saúde masculina e para arrecadar fundos para instituições de caridade.
  • Santa Catarina é um dos estados com maior número de casos de câncer de próstata. São cerca de duas mil novas confirmações por ano.

 

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