Comportamento

O bullying deve ser evitado e não ignorado

Estudo realizado pelas Nações Unidas aponta que esta prática é mais comum em países pobres e em maior quantidade entre meninos e crianças mais jovens

Texto: Roberta Ribeiro e Bruna Souza

O bullying é caracterizado por agressões intencionais como intimidação, humilhação, agressões verbais ou físicas e maus-tratos pela cor, peso ou dificuldades da vítima. Normalmente ocorre nas escolas e é praticado por colegas de classe, podendo aparecer em diversos contextos sociais como universidades, família e vizinhança quando o indivíduo tem baixa auto-estima. Pode afetar emocionalmente a vítima, causando comportamentos como diminuição do desempenho, isolamento, suicídio, agressões e até assassinatos como forma de vingança.

Em entrevista dada para o site Nova Escola, os especialistas do Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação Moral (Gepem), da Universidade Federal de Campinas, explicam que quando algum adulto descobre as agressões sofridas pela criança ou adolescente, a vítima já sofre há pelo menos um ano e meio com o bullying, ou seja, a violência é descoberta tardiamente. 

Ricardo Silveira, 21 anos,  foi vítima de bullying na escola, da quinta série ao oitavo ano do ensino fundamental. No começo tratava como brincadeira, mas conforme foi crescendo os apelidos começaram a incomodá-lo cada vez mais. Estava na fase da adolescência, não era tão seguro com sua imagem, e as agressões verbais que recebia o deixavam pior. No primeiro ano do ensino médio, cansado, mudou de escola. A partir daí as coisas mudaram. De vítima,  virou agressor.

Tenho péssimas lembranças da minha adolescência. Quando parei de receber apelidos sem graça, eu comecei a colocar apelidos e agredir meus colegas. Descontava toda minha frustração e raiva de todo o tempo que vivi sofrendo bullying. Não me orgulho nada disso, conta Ricardo.

Apesar de sofrer com as agressões, Ricardo nunca contou aos seus pais que sofria bullying, pois achava que eles não o entenderiam. No segundo ano do ensino médio, sua mãe resolveu levá-lo à psicóloga, pois notou que o comportamento do filho estava pior. “Eu achava que meu filho ficava quieto, trancado no quarto por estar na fase adolescente, querendo seu espaço. Nunca parei para conversar com ele, perguntar o que estava sentindo. É uma fase da minha vida que se pudesse voltar faria tudo diferente. Hoje eu tento alertar os pais para que conversem mais com os seus filhos sobre bulliyng”, conta a mãe de Ricardo, dona Joana.

A psicóloga Arlete Teles alerta que o bullying pode ocorrer em diversos ambientes e contextos, e os pais devem estar atento aos sinais. Um simples apelido, que parece ser uma brincadeira, pode causar danos que a vítima carregará por toda a vida. De acordo com Arlete, os pais devem criar uma relação de confiança com os filhos, para que eles se sintam abertos a conversarem sobre qualquer assunto, saberem que não estão sozinhos, e contam com o apoio dos pais.

Segundo a pesquisadora Adriana Ramos para o site Nova Escola, é comum que a escola direcione a atenção para conflitos que afetam diretamente os colaboradores, tratando como indisciplina e desrespeito. Mas o segredo está em perceber os conflitos entre estudantes, para que as agressões saiam do escuro. Não adianta tratar os casos isoladamente, é necessária prevenção. Esse foi o caso que aconteceu em outubro deste ano quando um adolescente de 14 anos atirou contra os colegas de classe, inclusive amigos, no Colégio Goyaneses, em Goiânia. O ataque teria sido ocasionado por vingança, pois estudante sofria bullying pelo seu cheiro. Filho de policiais militares, afirmou em depoimento ter se inspirado em ataques feitos em outras escolas. O caso deixou dois mortos, um de 10 anos e outro de 12 anos, além de quatro colegas feridos.

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Joanan Hesron Bernardi, 17 anos, relata que sofreu bullying na escola devido a sua aparência física. Sua família sabia pouco sobre o que acontecia, pois sentia vergonha da situação. Na escola nunca houve nenhum tipo de campanha contra essas agressões, cada caso era resolvido isoladamente e temporário, pois os ataques sempre voltavam a acontecer. Quando o desejo de vingança foi surgindo, Joanan conta que tinha pensamentos e vontade de matar os agressores. Isso só foi revertido quando começou a frequentar a igreja e transformou o sentimento ruim em perdão.

Em pesquisa realizada pelas Nações Unidas em 2016, com a participação de 100 mil crianças e jovens em 18 países divulgou que metade deles, em média, já sofreu bullying relacionado com aparência física, gênero, orientação sexual, etnia ou país de origem. O gráfico abaixo mostra a situação do Brasil em relação a outros países.

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O estudo aponta ainda que esta prática é mais comum em países pobres e em maior quantidade entre meninos e crianças mais jovens. O UNICEF está trabalhando em alguns países no desenvolvimento de mecanismos para reportar a violência sofrida como atendimento por telefone, plataforma online e aplicativos para celulares. 

A estudante Aline da Silva, 22 anos, sofreu bullying na escola durante sua infância e adolescência pelas condições físicas e cor da sua pele. Na escola pública as agressões eram mais frequentes. Para inibir o desejo de vingança, ela começou a praticar artes marciais, como taekwondo e capoeira, não para usar como violência, mas para amenizar a raiva. Porém, a prática não resolvia e o seu psicológico ficava abalado ao ponto de perder a vontade de viver. Aline relata ainda que a escola nunca resolveu os problemas. O máximo que ocorria era levar a situação para a direção, mas naquela época o assunto não tinha tanta visibilidade.

Segundo Lúcia Helena Furlan, orientadora da Escola de Educação Básica João Goulart, de Balneário Camboriú, as precauções são tomadas diariamente na unidade de ensino. As brincadeiras flagradas, consideradas exageradas, logo são reprimidas para evitar que a situação tome proporções graves. Além disso, a educadora considera que alguns casos mais graves ocasionados pela prática do bullying são tratados pela mídia de forma errônea, considerando a exposição de detalhes um exagero. Segundo ela, essa espetacularização acaba chamando a atenção e despertando curiosidade nos adolescentes.

Hoje, a escola João Goulart trabalha com o bullying promovendo debates dentro das disciplinas em sala de aula para séries iniciais. Além disso, são discutidos temas como atitudes positivas e violência de forma geral. Para os alunos do ensino médio são trabalhados os temas de drogas, vida sexual, violência, atitudes positivas e bullying. A preparação dos materiais é feita de acordo com o que o Estado fornece para a instituição.

Já na rede municipal de ensino do município, não há nenhuma campanha feita diretamente nas escolas. O trabalho é feito de forma independente por cada unidade. Segundo a secretária Nilzete Teixeira, da Secretaria de Educação de Balneário Camboriú, houve palestras com psicólogas nos meses de abril e maio em decorrência de mutilações feitas pelos alunos que sofriam bullying.

 

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