Opinião

Consequências devidas: a cultura do assédio tratada de maneira séria

A realidade por trás das câmeras é menos glamourosa do que parece

Texto: Silvio Matheus e Juliana Passos

Após uma série de acusações de abusos sexuais, que começaram no mês passado, o ator Kevin Spacey, conhecido por trabalhos como Beleza Americana (1999) e House of Cards (2013-2017) foi cortado do filme All the Money in the world (Todo o dinheiro do mundo), do diretor Ridley Scott.

Essa é a primeira vez que um ator é substituído de um longa após sua finalização. O novo filme de Ridley Scott já estava pronto e seria exibido no AFI Fest de Log Angeles no dia 16 de novembro. O ator Christopher Plummer, veterano que atua desde a década de 1960, substituirá as cenas de Spacey no filme. Mesmo com a troca de atores, o longa será lançado no dia 22 de dezembro.

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Spacey em All the money in the world

All the Money in the world é sobre o sequestro do neto de um magnata Americano em 1973. O filme era uma das principais apostas da Sony para o Oscar. Scott tomou a decisão de substituir Spacey unilateralmente e informou à Sony na tarde desta quarta (08/11). O filme conta com os protagonistas Mark Wahlberg e Michelle Williams.

A crise na carreira de Spacey começou no final de outubro, quando o ator Anhony Rapp revelou que havia sido coagido a praticar atividades sexuais com o veterano quando tinha apenas 14 anos. Depois da repercussão negativa, Spacey publicou um pedido de desculpas em seu Twitter no qual assumiu sua homossexualidade.

Desde então, o ator foi retirado da série House of Cards, da qual era produtor executivo e ator principal, e do filme biográfico Gore. As acusações não se resumiram as de Anthony. Outros oito membros de House of Cards relataram casos de assédios do ator. Hoje, Spacey encontra-se internado em uma clínica de reabilitação no Arizona, onde trata de seu vício por sexo.

Outros denunciados

O ano de 2017 está sendo marcado por denúncias contra nomes consagrados do show bussines. Tudo começou quando a revista New Yorker e o jornal New York Times publicaram duas reportagens sobre abusos sexuais cometidos por um dos produtores mais poderosos de Hollywood, cofundador de dois estúdios consagrados: a Miramax e a Weinstein Company, Harvey Weinstein. Após as denúncias, Harvey foi expulso da academia do Oscar.

Harvey foi acusado por quase uma centena de mulheres, dentre elas Angelina Jolie, Gwywnth Paltrow e Cara Delevigne. A retaliação contra um dos maiores produtores de Hollywood pode ter encorajado outras pessoas a finalmente trazer à tona outros casos parecidos.

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Harvey Weinstein

Desde então, outras celebridades foram acusadas, como Dustin Hoffman, Charlie Sheen e Mariah Carey, e isso reascendeu debates acerca de casos denunciados há tempos, como os que envolvem James Toback, Woody Allen, Casey Affleck, Ben Affleck, Emile Hirsch, Bill Cosby, Arnold Schwarzenegger, Johnny Depp e até mesmo o cultuado Marlon Brando.

“Sabia o suficiente para ter feito mais do que fiz”, afirmou o diretor Quentin Tarantino ao New York Times, após as denuncias contra Harvey. Ao que tudo indica, a cultura do assédio parece ter se transformado em algo natural em Hollywood. Quem sabe isso mude após casos como os de Spacey e Harvey, que sofreram consequências por seus atos.

Casos no Brasil

Aqui, o cenário parece não ser diferente, mas as retaliações ainda não começaram. No começo desse ano, por exemplo, a jornalista Elisangêla Veiga foi demitida da Record TV após denunciar assédio sexual por parte de seu chefe.

Por outro lado, um caso recente envolvendo o jornalista William Waack, do Jornal da Globo, tomou proporções. Um vídeo mostrando Waack proferindo palavras de cunho racista vazou na internet e fez com que a Globo afastasse o apresentador do Jornal até a situação seja resolvida.

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William Waack

Antes da força dos movimentos sociais e das redes sociais, por proteção ou irresponsabilidade, poucos casos como esses viravam pauta, principalmente quando envolvia um nome de peso.

Nesse cenário, a internet ocupa um papel fundamental. Foi a partir dela que o assédio sexual de Spacey foi denunciado, e foi por causa dela que o vídeo com o comentário racista de Waack viralizou. Pode ser culpa dela, também, a reação rápida de outros meios de comunicação e a indignação de parcela significativa da sociedade, o que pode ter feito com que a Globo afastasse seu jornalista no mesmo dia da denuncia. 

William Waack é um veterano do jornalismo e, assim como Spacey e Harvey, é um nome respeitado dentro de seu meio de atuação. Talvez esses acontecimentos sirva de exemplo para que novos e antigos casos sejam tratados com a seriedade devida.

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