Comportamento

Seja bem-vindo, sente-se à mesa!

Projeto em Balneário Camboriú promove encontro semanal entre voluntários e moradores de rua

Texto: Juliana Passos e Silvio Matheus 

O que você faz por uma cidade melhor? O que você faz para um mundo melhor? O que você faz para ver um sorriso no rosto de uma pessoa que você nem conhece?

Idealizado por Luiz Dias, Guto Guimarães e Érik Fumaco, o projeto Missão 58, atuante em Balneário Camboriú há quatro anos, é uma plataforma viva de ações que compartilha o que existe de mais intenso na sociedade: a troca de experiência e a união. O projeto se sustenta sem ajuda do governo e verba de instituição privada. 

Foto: Arquivo pessoal.
Da esquerda para a direita: Luiz, Érik e Guto (Foto: Arquivo pessoal)

Segundo dados de uma pesquisa aplicada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada  (IPEA), o Brasil tem pouco mais de 100 mil pessoas vivendo nas ruas. Pessoas que residem em cidades diferentes das que nasceram,  que não têm condições de manter um lar, são dependentes químicos e não sabem como e por onde recomeçar. 

Qual é a sua reação ao ver um morador de rua com as roupas sujas, cabelo bagunçado e deitado em cima de algumas folhas de papelão? Vivemos em uma sociedade capitalista, em que todos correm contra o tempo e, muitas vezes, sequer veem essas pessoas que estão à margem do consumo.

O Mesa nas Ruas, nome dado à atividade desenvolvida pelo Missão 58, não tem como objetivo apenas entregar marmitas com comidas, doar roupas e cobertores às pessoas em situação de rua. O projeto vai além disso. “Desde quando começamos, nosso principal objetivo, a razão pela qual nos unimos, não foi acabar com o problema momentâneo da fome e do frio. Nós queremos chegar à raiz do problema. Queremos saber o que aconteceu na vida daquela pessoa para que ela tenha parado ali, morando na rua”, conta Luiz.

Os encontros acontecem sempre às segundas-feiras em alguma das principais ruas de Balneário Camboriú. Cada pessoa ajuda como pode, cada colaborador prepara um prato para o jantar. Arroz, macarrão, carne, sopa, feijoada… A cada semana, o jantar é preparado por pessoas diferentes e com muito carinho.

O Missão 58 recebe apoio de algumas empresas, como doações, mas se mantém com a colaboração espontânea de pessoas que, assim como os idealizadores, sabem a importância e necessidade de acolher os moradores de rua. 

Os ‘missionários’ levam marmitas, copos e talheres descartáveis. A comida vai quentinha dentro das panelas, que são colocadas nos porta-malas dos carros. Os olhares curiosos, de quem passa por ali, observam atentamente a união do grupo. Alguns velhos conhecidos, outros novos rostos que, quando se aproximam do encontro, são convidados a sentar à mesa de jantar. A mesa é o chão, mas contém o essencial: respeito e alimento.

Alguns vêm de longe, do outro lado da cidade, por que sabem que é dia de jantar: os moradores de rua já sabem que segunda é dia de encontro, conversa e amparo. Cada um divide o que tem. Alguns moradores são conhecidos de longa data pelo grupo voluntariado, embora muitos tenham se tornado amigos e compartilham histórias de vida e sonhos. 

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Trabalho produzido em 2016 por Juliana Passos, Thiago Furtado e Andrew Sousa. Foto: Arquivo pessoal.

Vídeo: Trabalho produzido em outubro de 2016 por Juliana Passos, Thiago Furtado e Andrew Sousa.

Saber o nome verdadeiro dos moradores não é uma tarefa fácil. Muitos estão ali foragidos da família. Outros começaram a morar nas ruas depois de alguma tristeza profunda que não pode ser tratada corretamente, como o término de um relacionamento, a morte da esposa e dos filhos, outros são ou viraram dependentes químicos. O contato semanal não ajuda apenas a eles, moradores, mas também todos os voluntários que, juntos, conversam e fazem a refeição.

O projeto conta cada vez mais com pessoas que acreditam e lutam pelo mesmo ideal. Pessoas que, assim como o Luiz, Érik e Guto, acreditam que a conversa, o olho no olho, o simples ato de sentar no chão ao lado de uma pessoa vulnerável, se preocupar com o que ela sente, de devolver o sentimento de dignidade ao morador de rua é de extrema importância para um mundo melhor. “Eles não são invisíveis, nós que, muitas vezes ocupados com problemas banais e supérfluos, não conseguimos enxergar nada além do nosso próprio umbigo”, comenta Luiz.

 

 

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