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Influenciadores digitais: objetivos além da propaganda

Algumas pessoas, que dominam as ferramentas da internet, ditam tendências para milhares de seguidores

Texto: Bruna Souza e Roberta Ribeiro
Foto: Bruna Souza

Rosana chega em casa depois de um longo dia de trabalho, deita no sofá, pega o celular e navega nas redes sociais. Sua preferida? O Instagram. Por lá, acompanha a vida de diversos Influenciadores Digitais – pessoas que ditam tendências na internet. Os Influenciadores são pessoas, personagens ou grupos que se popularizam em redes sociais como YouTube, Instagram, Snapchat, Twitter, Facebook, Tumblr. Eles desenvolvem “conteúdo” para a internet e acabam gerando um público massivo que acompanha cada uma de suas postagens e, eventualmente, compartilham com outras pessoas. Esse movimento torna sua imagem popular. Os fãs – como são chamados seus seguidores – passam a reproduzir o estilo e os gostos de seus ídolos, provocando uma alteração na forma com que os seus seguidores interagem entre si.

Como cada influenciador é especializado em uma área e um seguidor pode ser influenciado por vários influenciadores com temáticas diferentes ao mesmo tempo. Seja sobre jogos, moda, política, fitness, entre outros, fazendo com que um usuário possa, e num mesmo espaço, pertencer a vários grupos distintos ao mesmo tempo.

O poder de influência das “celebridades da internet” pode causar tanto ou maior impacto para uma campanha quanto uma peça publicitária de 30 segundos, em horário nobre da televisão aberta. Prova disso é o resultado da pesquisa encomendada pelo governo brasileiro em 2015, que mostrou que o brasileiro já passa mais tempo navegando na internet do que consumindo outra mídia.

O Facebook tem mais de 2 bilhões de usuários no mundo, e o Instagram, mais de 800 milhões. A maioria dos usuários de Instagram está na faixa entre 18 e 29 anos e mais da metade dos usuários acessa todos os dias. O Brasil é o segundo maior mercado de usuários do Instagram no mundo, com mais de 45 milhões de usuários.  Fato este que tem motivado cada vez mais empresas e marcas a investir em anúncios e campanhas na plataforma, apresentando novidades constantes e crescendo em ritmo acelerado. A plataforma de mídia social lançou carreiras de influenciadores, dando às celebridades a chance de se conectar com seus fãs e deixar as marcas falarem diretamente ao público.

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Manoella Deschamps. Foto: Reprodução

Com mais de 45 mil seguidores, a jornalista e blogueira Manoella Deschamps conta que atualmente o Instagram é a ferramenta mais usada juntamente com o anexo stories. As postagens diárias variam entre três e cinco e os vídeos temporários no stories são publicados ao longo do dia com maior quantidade quando tem evento. Manu vê a exposição na internet de forma natural quando se sente à vontade para postar sua rotina, como o look do dia. Seu objetivo é fazer com que as pessoas se identifiquem não só com os looks, mas com o estilo de vida. “Acho que eu ainda poderia mostrar um pouco mais desse dia a dia no stories, uma ferramenta que vem trazendo muitos resultados”.

Para a psicóloga Elisabete Sales, as redes sociais são uma vitrine, e as fotos são projetadas para impulsionar o consumo do leitor. Ela acredita ser fundamental haver um filtro para separar bem as coisas. Uma coisa é admirar a pessoa, outra coisa é precisar comprar tudo o que ela indica, para que o desejo não se torne compulsivo pelo que é proposto nos blogs/redes sociais.

O cientista Sinan K. Aral, em artigo publicado no The New York Times, afirma que, se as pessoas reunirem apenas o conhecimento popular, isso poderia confrontar a confiabilidade daquilo que se conhece como “sabedoria de multidão”. A velha pergunta continua válida: “É algo popular porque é realmente bom, ou é popular apenas porque é popular?”

Para o cientista Duncan J. Watts , da Microsoft Research, em artigo publicado no The New York Times, a popularidade pode dar vida ao elemento até que esteja muito à frente de seus concorrentes, enquanto aqueles que não atingem popularidade geralmente desaparecem, sendo de boa qualidade ou não. “O obstáculo do sucesso é apenas ser notado”, afirma. Num experimento feito por Watts, as pessoas ouviram uma lista de músicas classificadas por popularidade e foram convidadas a avaliá-las. Para alguns ouvintes, a lista foi invertida. Resultado: as músicas populares perderam pontuação e as menos conhecidas foram melhor avaliadas. Ou seja, automaticamente a tendência é que o que é popular seja melhor avaliado.

Karina
Karina Morillo. Foto: Reprodução.

Karina Morillo, acadêmica de Jornalismo e dona do blog Enfeitada de Sonhos , conta que, por ser tímida, nunca foi uma criança/adolescente de ‘muitos amigos’, pois tinha vergonha de expor suas ideias. O blog foi uma maneira de discutir assuntos do seu interesse, como tendências, moda e suas influências. O próprio nome já diz “Enfeitada de Sonhos”, porque atualmente a moda vende glamour!

“O conteúdo publicado no blog tem o intuito de informar sobre a moda de verdade, e claro, sempre busco colocar no meio da semana algum conteúdo interativo, para divertir e deixar a página mais leve.” O  objetivo de Karina é mostrar o que acontece na indústria da moda, desde o trabalho escravo até a influência de uma tendência na sociedade e de como ela entra em moda, a sustentabilidade, o cuidado que com as peças, estereótipos de beleza, entre outros.

Ao contrário de Manoella, a estudante não expõe sua vida pessoal nas redes,  justamente porque seu intuito é apenas informar. Para Karina, cursar Jornalismo foi fundamental para filtrar os conteúdos e produzir um bom texto: “Foi uma das melhores coisas que eu fiz pelo meu sonho, por mim! Além de perder a vergonha de publicar, conheci – ainda conheço – pessoas incríveis e que têm vontades, sonhos, parecidos com os meus…”.

Para a psicóloga Elisabete Sales, os blogs são uma forma muito bacana de as marcas se aproximarem do seu público, uma vez que as influenciadoras são vistas como amigas para quem as acompanham. Mas esta relação, assim como qualquer outra, deve estar pautada na verdade. “A blogueira deve avaliar muito bem o produto antes de oferecer ao seu leitor. Apesar de achar saudável, eu acredito que tem um limite’”, explica.

Manoella Deschamps, formada em Jornalismo, buscou aperfeiçoamento realizando cursos em Consultoria de Moda, Jornalismo de Moda e Pós-Graduação em Mídias e Comunicação na Moda. Desde o início do blog, sua prioridade sempre foi a qualidade do conteúdo e essa base aprendeu no jornalismo. Assim como Karina Morillo, o blog foi uma maneira de unir duas paixões: moda e escrita. A jornalista enfatiza ainda que, com o surgimento de novas ferramentas, é importante se adaptar e buscar novas alternativas e meios para alcançar o público.

“Para mim, ser ´digital influencer` vai muito além do look do dia, tem muito estudo e pesquisa por trás de cada postagem, e um trabalho personalizado para atender a necessidade de cada marca”, afirma Manoella. Normalmente, as marcas que trabalham com ela estão de acordo com seu estilo, a deixam à vontade, desde marcas de roupas, cosméticos, a restaurantes. A influenciadora não trabalha com confecções de pele animal, por exemplo, porque não apoia esta prática.

As influências de cada post

Os influenciadores digitais têm desempenhado um papel importante na sociedade, tanto de interatividade quando de debates sociais. Nesta condição, eles acabam trazendo retorno para o comércio, estimulando o consumo. Como prova da responsabilidade que as redes sociais representam na vida dos indivíduos. A jovem Rosana da Silva, de 22 anos, segue mais de 100 influenciadores em suas redes sociais e acompanha os blogs, Instagram e Facebook de todos. Para ela, os posts nas páginas são tão instigantes que sente até vontade de comer o que a “blogueira” publica. Além disso, constantemente, Rosana compra produtos mesmo sem ter necessidade, simplesmente porque quem postou estava feliz, ou a maquiagem ficou bonita. “Eu também quero me sentir bonita”.

Victória
Victória Rocha. Foto: Reprodução.

Assim como Manoella Deschamps, a blogueira Victória Rocha busca trabalhar com marcas que condizem com seu estilo e possam aproximar o público. Ultrapassando a marca de 400 mil seguidores, a influencer iniciou carreira logo no começo do Instagram, uma das plataformas mais usadas por ela junto com o Youtube. A ideia era divulgar a marca que tinha com sua mãe, até se tornar profissão. “Foi a melhor escolha que fiz”, afirma. A jovem separa a vida pessoal da profissional não divulgando algumas coisas que faz, porque, segundo ela, só é publicado aquilo que aproxima o público.

Para o jornalista Thiago Amorim Caminada, vive-se nesse novo ecossistema de informação, cuja base é a interação e a colaboração. Então, as impressões, recomendações, comentários, avaliação, notas têm esse poder de influenciar especialmente em ambientes virtuais em que as conexões são estabelecidas para essa finalidade, para o consumo, por exemplo. Em uma rede social de compra e venda ou de serviços de hotelaria, a nota e os comentários, publicados por pessoas que já utilizaram o serviço, são muito relevantes. Mais relevantes, por exemplo, do que as avaliações do Facebook disponíveis nas fanpages. “Não é que elas não podem interferir, mas têm um potencial de influenciar menor”, admite o jornalista.

Além disso, Thiago explica que o comportamento é influenciado pelas instituições sociais e pelos laços sociais desde que há vida em sociedade. Aliás, os hábitos, que foram constituídos de forma não autoritária, se estabeleceram por influência e imitação: “É o que chamamos de convenções sociais. E isso se manifesta na moda, na gastronomia, nas artes muito antes das redes”. Um pouco desse fenômeno ou desse espanto está relacionada às transformações na forma de produção e disseminação de conteúdos, em que uma marca ou uma pessoa não precisa mais controlar os meios massivos de comunicação.

Um celular pode transmitir algo que desperte mais interesse e influencie mais do que uma câmera full HD e isso, com certeza, é papel desempenhado pelos chamados influenciadores digitais. “Você não precisa mais estar em Hollywood, fazendo gols pelo Real Madrid, nem na lista da Billboard para influenciar os hábitos de consumo de alguém. Mas é preciso relativizar isso, também”, exemplifica Thiago. O alcance de um Hit Parade da Jovem Pan é infinitamente maior do que o do “Canal da Música” com 300 inscritos no YouTube. “Mas se você tiver uma conta atrelada ao Vevo, com milhões de views, seu single pode não estar na lista do TVZ na Multishow e ainda sim causar impacto”, observa ele.

 

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