Bem-Estar Notícias

A luta pela recuperação

Casa de recuperação de drogas e álcool acolhe homens e mulheres que desejam mudar de vida

Texto: Amanda Macuglia e Joana Fonseca

“Eles vieram! Eles vieram mesmo chovendo!”

Foi o que ouvimos assim que conseguimos atravessar a estrada de lama, enquanto a chuva ficava cada vez mais forte. Um homem magro, de cabelos castanhos e olhos azuis, que gritava para nós abanou com um grande sorriso no rosto. A camisa vermelha que ele usava estava um pouco molhada pela chuva, e os pés estavam cobertos por lama. Mais tarde descobri que seu nome é Jonathan, tem 27 anos e está ali há seis meses.

Sua história com as drogas começou muito cedo, quando ainda era um adolescente. Chegou ao ponto de roubar eletrodomésticos de dentro de casa para sustentar seu vício. Foi expulso de casa inúmeras vezes, então tentava se recuperar, e sua mãe o aceitava de volta. Até que desistiu. Sua mãe e irmã são a única família que tem, mas desde que chegara à casa de recuperação Viver Livre, não o visitaram nenhuma vez. Portanto, Jonathan espera ansioso a visita do Grupo de Jovens Franciscano Paz e Bem, da Paróquia Santa Inês de Balneário Camboriú.

“É bom ver um carro chegando e pessoas de fora que acreditam em você, que querem te abraçar. Eu só tenho isso com vocês, por isso fico tão feliz quando chegam. Significa que posso ter esperança de ser visto como algo além de um viciado em drogas lá fora.”

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Capela do Viver Livre Foto: Amanda Macuglia

O grupo se reuniu com os dependentes químicos na capela da casa, um lugar reservado para que possam buscar consolo e se manterem firmes em sua luta. O ambiente de madeira, com uma decoração mais rústica, foi construído pelos próprios moradores há alguns anos. No fundo, há uma mesa com toalha cor-de-rosa, uma bíblia aberta na passagem que será lida no dia e uma caixinha onde eles podem colocar seus pedidos de oração. A frase “que eu consiga melhorar” é a mais decorrente.

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Caixa de pedidos de oração Foto: Amanda Macuglia

Quando já estão sentados, esperando ansiosos o inicio do momento, levanto-me de onde estou sentada e fico de frente para todos, dando os devidos cumprimentos. Agradeço a presença, o carinho com que nos receberam e deixo claro que as experiências que estes homens compartilham com nós, a força que possuem para lutar contra uma doença tão difícil, nos inspira tanto quanto eles dizem se sentir inspirados por nós a cada visita que fazemos.

O próximo passo é a música. Uma melodia toca, enquanto peço para que todos se levantem, e juntos tentamos seguir as coreografias das canções. É um momento de alegria simples, mas satisfatório. Até mesmo os que ainda estavam receosos e nervosos com nossa presença deixaram escapar algumas risadas enquanto dançavam. Quando a música acaba, um dos fundadores do grupo, Orlando Junior, de 20 anos, começa com uma oração inicial. Pede para que todos fechem seus olhos, enquanto ora pela recuperação daquelas pessoas. Os meus, porém, se mantêm abertos, observando cada pessoa que se encontra ali. Alguns choram, outros sorriem. Um senhor de cabelo curto e escuro, pele morena e jaqueta preta, sentado atrás de onde estava, faz sua própria oração baixinha. Posso ouvi-lo pedir pela felicidade da filha, pelo perdão de sua esposa, pela saúde de sua mãe. Enquanto a maioria ora por si mesmo, aquele homem foca apenas em sua família.

Após esse momento, Valber Coelho, de 28 anos, começa a contar a história do Apóstolo Paulo de Tarso. Segundo a bíblia, Paulo foi um assassino que se converteu pelo amor e perdão de Jesus Cristo. Depois, Gabriel Funck, de 17 anos, faz o link entre a história de Paulo e a luta daqueles homens para se tornarem uma pessoa melhor e livre de seus vícios.

“Quem aqui, com suas ações, já machucaram alguém?” Ele pergunta, pedindo que levantem a mão. A resposta é um sim unânime. “Quem aqui já se encontrou em uma situação onde achou que não havia mais saída?” Continua Gabriel, novamente, vendo todos os presentes levantarem suas mãos. Ele continua com mais três perguntas, para no final dizer que Paulo também levantaria sua mão se estivesse ali, e que assim como Paulo, como ele mesmo, e como os membros do grupo, eles também poderiam ser perdoados de seus erros e começar uma vida nova, porque para muitos ali, pior que o vício é o medo de saírem da casa e serem rejeitados pela sociedade.

 Ao final, moradores e jovens do grupo se abraçam e conversam descontraidamente. Me aproximo, então, daquele homem que no início orava por sua família. Seu nome é Lazaro Souza, têm 35 anos, e nasceu em Minas Gerais. Já andou pelo Paraná e também pelo Rio Grande do Sul como andarilho, tentando se recuperar de seu vício, mas caindo nele logo em seguida. Está na casa há dois meses, mas desta vez, se sente confiante. Me conta sobre sua fé, sobre como encontrou a força que precisava na família que ainda ora à Deus por ele. “Cada dia é um dia de luta. Um dia que você pode cair, mas que também pode se manter em pé.” Ele comenta, enquanto as mãos tremem nervosas, mas o sorriso não deixa seu rosto.

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Lazaro Souza, morador da casa de recuperação Viver Livre, Foto: Amanda Macuglia

Lazaro fala muito sobre a pregação de Valber e Gabriel, e de como aquilo lhe tocou o coração e lhe trouxe esperança. Para ele, sua maior dificuldade nos 12 anos em que luta contra o alcoolismo foi ter lutado sozinho. Sua família o julgava, mas nunca lhe propôs uma ajuda. Seus amigos o ofereciam bebida, ao invés de incentivá-lo a parar. “Se você é um amigo melhor quando bebe, então não é amigo de ninguém.” Lazaro viajou por anos  achando que estava buscando sua cura, quando na realidade apenas fugia de seus problemas e dos olhares julgadores. Quando chegou em Balneário Camboriú, recebeu uma ligação da filha. “Eles entenderam que eu precisava de ajuda. Disseram que estavam lá por mim. E, então, eu tive o que quase ninguém aqui tem: um motivo para melhorar.”

Lazaro e Jonathan fazem parte dos quase 100 dependentes químicos que residem a casa de recuperação de drogas e álcool Viver Livre,  e são a prova de que não é preciso muito para ajudar alguém a se levantar. Tanto Lazaro quanto Jonathan se sentiram fortes com as palavras dos jovens franciscanos, assim como acolhidos com os abraços.

Para marcar uma visita, basta ligar: (47) 3363-9947. A casa é localizada na  Rua Morro da Pedra Branca, 795, no bairro Nova Esperança em Balneário Camboriú.

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