Meio Ambiente

Resgate animal e Plano de Manejo: os desafios do Parque do Rio Vermelho

Há dez anos o Parque Estadual do Rio Vermelho presta serviço socioambiental para o estado de Santa Catarina, mesmo sem o Plano de Manejo.

Texto: Juliana Passos e Silvio Matheus

 

Em meio às árvores, um caminho de madeira. Um deck marrom que serpenteia a mata nativa à beira da lagoa em Florianópolis. A lagoa é muito larga e calma, portanto, profunda. A brisa que bate forma algumas marolinhas na água escura e um vento aconchegante segue, junto com o caminho, mata adentro.

Pássaros, répteis e primatas, dentro de jaulas, observam curiosos os olhares também curiosos que lhes fitam. Um belo cenário para um passeio calmo em meio à rotina diária, não fosse uma triste realidade: a maioria dos animais que estão na Trilha do Rio Vermelho foram resgatados de caçadores e compradores ilegais.

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Foto: Divulgação – FATMA

Trilha Ecológica

A Trilha foi inaugurada em 2014 pela Fundação do Meio Ambiente de Santa Catarina, a FATMA. O percurso de um quilometro é totalmente acessível, com um caminho de madeira sem percalços para pessoas com todos os tipos de mobilidade. A construção de madeira também serve para que o visitante não machuque a mata nativa.

O local preserva animais silvestres resgatados de atropelamentos, caça, tráfico e maus tratos, que não podem ser reintroduzidos à natureza. Vítimas de impactos causados pelo homem. Antes de chegar à trilha, os animais passam pelo Centro de Triagem de Animais Silvestres – CETAS, também em Florianópolis. O local recebe cerca de 2.500 animais por ano.

O Parque Ecológico tem duas finalidades principais: a recuperação do ambiente contaminado por pinos e a manutenção da biodiversidade. “Enquanto um zoológico serve para mostrar os animais bonitos, aqui, nós mostramos para o visitante a realidade. A crueldade com a natureza”, informa o biólogo Daniel de Araújo Costa, antes do começo da visita. Ele é um dos guias do passeio.

Beleza perigosa

São 16 viveiros com mais de 150 animais de 35 espécies da fauna catarinense, como macacos, jabutis, araras, papagaio, etc. Os bichos chamam atenção, principalmente a arara híbrida, pássaro grande e colorido, fruto do acasalamento forçado entre uma arara vermelha e uma azul.

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Arara Híbrida

As pessoas observam encantadas o animal. Segundo o tenente Rogério Rodrigues, diretor de proteção dos ecossistemas da FATMA, a arara é um animal inútil na natureza, e o fato de chamar tanta atenção é um desejo dos traficantes. “A natureza é sábia, uma espécie não se reproduz com outra diferente. Essa arara é fruto de cruzamento forçado, visando a beleza estética. Por isso, é um bicho infértil e não sobrevive muito tempo na natureza”. Uma arara híbrida chega a custar R$ 20 mil.

O dinheiro é alto. Movimenta aproximadamente 20 bilhões de dólares por ano. O tráfico de animais é um dos mais lucrativos comércios ilegais do mundo, perdendo apenas para o tráfico de drogas e armas.

Porém, os animais traficados não recebem nenhum tratamento VIP, muito pelo contrário. Segundo o tenente, cerca de 80% dos animais morrem no caminho entre o traficante e o comprador. “Os bichos são enviados pelos correios em caixas apertadas, dentro de tubos, sem comida, sem ar. A maioria deles morre antes de chegar ao seu destino”, relata o guia.

Segundo a ONG Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres – RENCTAS, no Brasil, cerca de 38 milhões de animais são retirados de seus habitats naturais anualmente, sendo aproximadamente 12 milhões de espécimes distintas.

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Foto: Flávio Tin

O problema não está somente na compra e transporte ilegal, está na maneira como os animais são tratados depois de adquiridos. Na trilha, por exemplo, os visitantes ficam surpresos com a presença de um primata muito pequeno que corre solto entre os galhos das árvores. São os saguis-leõezinhos e, apesar do jeito engraçado, representam uma ameaça para a fauna local.

O biólogo Daniel explica que esses pequenos macacos são comercializados na região nordeste do Brasil como animais dóceis de estimação. Segundo consta, os vendedores balançam os saguis pelo rabo para que os bichos fiquem tontos, nesse momento, confusos, os macacos são entregues aos motoristas, que compram ali mesmo, na beira da estrada, o animal amistoso.

“Quando o efeito da tontura e do medo passam, os animais se rebelam, fazem bagunça, fica impossível mantê-los dentro de casa, as pessoas acabam abandonando-os na natureza. Esses saguis que nós vemos aqui são pragas, eles desequilibram a cadeia alimentar, se reproduzem muito rápido e, infelizmente, precisam ser controlados”, explica.

Daniel usa o termo “controlados”, que quer dizer, literalmente, caçados. Os saguis não podem viver nesse habitat e medidas drásticas devem ser tomadas. É o preço do comércio irresponsável. Eutanásia é uma das opções.

Os animais estão protegidos. Mas, e o parque?

De acordo com o SNUC – Sistema Nacional de Unidades de Conservação – assegurado pela Lei Federal n° 9.985/2000, as unidades de conservação necessitam de um Plano de Manejo. Ele deve abranger a área da unidade de conservação e incluir medidas com o objetivo de promover a integração à vida econômica e social das comunidades vizinhas.

O documento técnico tem fundamento nos objetivos gerais de uma unidade de

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Plantação de pinos na Trilha do Rio Vermelho. Uma das consequência da falta de Plano de Manejo. Onde os pinos crescem, nada mais cresce, e nenhum animal vive. Os incêndios florestais também são uma preocupação em áreas que contém esse tipo de vegetação. Os guias chamam, a plantação, de “Floresta morta”.

conservação e estabelece o zoneamento e as normas que devem presidir o uso da área e o manejo dos recursos naturais, inclusive a implantação das estruturas físicas necessárias à gestão da unidade, segundo o Artigo 2°, inciso XVII.

O Parque do Rio Vermelho, reconhecido desde 2007 como parque estadual, ainda não apresenta o PM – Plano de Manejo – exigido pela legislação federal, que, por lei, deveria ter sido concluído até 2012.

Depois de 10 anos, a documentação do Parque do Rio Vermelho está em construção e a previsão final é para 2018. “O Estado demorou bastante tempo para autorizar o documento. O Parque Estadual do Tabuleiro, por exemplo, foi criado em 1975 e apenas esse ano foi contratada uma empresa para realizar o PM, por uma série de entraves políticos, burocráticos e etc”, comenta o biólogo Daniel. 

Uma das ferramentas mais importantes do Plano de Manejo é o zoneamento da UC, que a organiza espacialmente em zonas sob diferentes graus de proteção e regras de uso. O Plano de Manejo também inclui medidas para promover a integração econômica e social das comunidades vizinhas, o que é essencial para que a implementação da unidade seja mais eficiente. É também neste documento que as regras para visitação são elaboradas.

Enquanto isso, o parque segue sua agenda de visitação normal, mas corre o risco de perder espaço para a especulação imobiliária. Sem o Plano de Manejo, a construção de um resort na área do Rio Vermelho, por exemplo, pode ser cogitada e apoiada por lei.

Mais informações

O Parque Estadual do Rio Vermelho é aberto à visitação de terça a sexta-feira, das 9h às 16h e nos finais de semana e feriados, das 10h às 17h.

Telefone para contato: (48) 3665-4492
E-mail: trilha@fatma.sc.gov.br

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