Arte e Cultura

A arte em prol da autoestima e da autoaceitação feminina

O projeto “Outras meninas”, da ilustradora Manu Cunhas, foi transformado em livro e é finalista do Prêmio Jabuti

Texto: Bruna Gonçalves e Tatiane Decker

Diariamente há um bombardeio da mídia quanto a padrões estéticos. Seja na televisão,  em revistas ou na internet, corpos magros, altos e perfeitos, como os de algumas atrizes e modelos, são os únicos aceitáveis. Aqueles que não estão dentro desse modelo tornam-se pouco agradáveis aos olhos da população. Quem mais sofre com isso são as mulheres das mais diferentes idades.

Quando alguém utiliza desses meios, neste caso, a internet, para ser um contraponto e retratar uma realidade mais próxima da maioria da população, o resultado pode ser benéfico, principalmente para a autoestima das pessoas. É o caso de Manuela Cunha Soares, Manu Cunhas, e seu projeto “Outras Meninas”, que retrata diferentes mulheres por meio de ilustração e traz  suas histórias e relações com o próprio corpo.

O projeto de Manu transforma os retratos de mulheres, que enviam suas fotos à artista seguidas de seus relatos, nas ilustrações em aquarela. Essas ilustrações e os textos vão para o site do projeto. O intuito é enaltecer a beleza feminina e promover a autoaceitação. A  ilustradora  não conhece a maioria dessas mulheres, e todas ficam no anonimato.

Natural de Tubarão, Manuela estudou Design Gráfico na UDESC, em Florianópolis, cidade em que mora há 12 anos. Seus gostos variam de produções nerds a materiais artísticos que englobam representatividade e certa dose de ativismo. Manu começou a desenhar na infância, criou gosto e nunca mais parou, fazendo disso sua profissão. “Sempre fui muito estimulada a estudar e produzir nesse sentido, então foi um caminho bem natural a percorrer”.

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Autorretrato de Manu em seu perfil do Facebook

A artista sempre achou sofrível a representação do corpo feminino na ilustração e, nos últimos anos, essa preocupação começou a aumentar. Diversas ilustradoras passaram a trazer à tona esse problema e tomaram as rédeas da própria representação. Isso contribuiu para a ideia do projeto “Outras Meninas”. “Quando finalmente resolvi fazer um projeto em cima disso, vi que a dificuldade na representação de nossos corpos ia muito além de falta de referência. Era um problema de autoimagem bem complicado. O que era só um exercício de desenho se tornou algo bem maior, com a importante adesão das vozes e dos relatos das participantes.”

Para algumas mulheres, a ideia de mandar fotos nuas para uma desconhecida pode ser assustadora. Principalmente se não estão dentro dos padrões que a mídia impõe. Mas Manu vem recebendo diversas fotografias e relatos, o que contribuiu para que seu projeto saísse da internet e se tornasse também um livro impresso.

O livro “Outras Meninas” foi publicado por meio de crowdfounding, um financiamento coletivo, e agora é finalista do Prêmio Jabuti, a maior premiação literária do país. “Fiquei muito feliz com o resultado e resolvi tentar a sorte na inscrição para o prêmio.” Ela ficou em choque quando recebeu a notícia da qualificação. “Agora com a espera pelo resultado, estou mais nervosa que outra coisa”, conta a artista.

Aceitação do público

Independente do resultado da premiação, o projeto de Manu já é vitorioso por contribuir para a autoestima e aceitação feminina. A estilista Morgana Moresco, de 34 anos, conheceu o projeto na internet e acha linda a proposta de ilustrar os relatos dessas mulheres, assim como as próprias ilustrações. “É sempre bom dar vazão aos sentimentos de outra forma, nesse caso com ilustrações, como ela fez”.

Com mulheres de todas as idades e diferentes tipos de relatos, “Outras Meninas” vai além de qualquer estereótipo e mostra que, apesar deles, mulheres têm todo o direito de enxergar seus corpos positivamente, do jeito que são. “Acho que o projeto tem muito a acrescentar nos dias de hoje, principalmente com as crianças e as meninas que estão em desenvolvimento e são impactadas apenas com histórias de princesas”. Camila Bergonci, 21 anos, estudante de Publicidade e Propaganda, entende que, com esse estilo de livro, as mulheres vão enxergar o quanto elas têm o poder da sua vida e do seu corpo e se aceitarão mais.

Não são apenas mulheres que percebem a importância do projeto. Homens também respondem positivamente ao trabalho da artista. Sérgio Luiz ressalta que, a partir do momento que as pessoas se sentem bem consigo mesmas, os padrões impostos pela sociedade não interferem mais em suas vidas da mesma forma. “O projeto quer mostrar que cada mulher pode ser feliz com suas curvas e que não é preciso seguir padrões. Espero ver mais iniciativas como essa que valorizem a real beleza como um todo. ”

Para quem, assim como Manu, deseja trabalhar com ilustrações e fazer a diferença, a artista deixa um recado: treinar muito e não ter vergonha de expor seu próprio trabalho. “O segredo desse ramo está em fazer o seu material ir o mais longe possível para se tornar conhecido e apreciado.” Ela ainda salienta a importância de ser autocrítico, sem que isso se torne um boicote. É importante deixar que o mundo o conheça. “Temos que apreciar um pouco cada fase que nossa profissão nos leva, e enquanto isso, vamos melhorando. É um trabalho contínuo e, às vezes, estressante, mas cheio de amor”.

Abaixo, confira uma das ilustrações do projeto “Outras Meninas”, de Manuela Cunha Soares, seguida de relato anônimo. Para ficar por dentro do projeto e conhecer o trabalho de Manu, acompanhe seu Instagram, o Facebook da artista e a página do projeto.

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A ilustração e o relato abaixo foram retirados da página do projeto no Facebook

“Apesar de não me sentir totalmente segura sob minha pele, e sucumbir ao baixo-astral em alguns momentos, cansei de me odiar. Se amar é muito mais difícil, é cansativo e é uma batalha diária. A busca pelo amor-próprio faz você sair da sua zona de conforto, se impor perante o mundo e as pessoas e fazer o que se gosta e dá prazer. 

Confesso que a minha vontade, algumas vezes, é ser uma eremita e estar em um lugar bem longe e isolado ou no conforto da minha casa para fugir do mundo. Mas fugir é se entregar, e eu não me entrego. Descobri uma coragem dentro de mim que nem sabia que existia e, de repente, me vi fazendo coisas que não sei se teria coragem de fazer se ainda fosse uma pessoa totalmente insegura e sem autoestima. Por mais difícil que seja praticar o amor-próprio, ele é muito mais recompensador que o auto-ódio, que só atrai coisas ruins.”

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