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Anorexia: um padrão de beleza imposto

Se sentir aceito na sociedade tem um preço alto para milhares de jovens

Texto: Bruna Gonçalves e Tatiane Decker

Padrões de beleza criados pela sociedade são tão intrínsecos a nós, que nem mesmo nos damos conta que estamos sendo comandados por eles. É muito comum ouvir frases como “Eu não faço isso pra agradar ninguém, faço por mim mesma!” ou “Eu não estou seguindo nenhum padrão, eu acho particularmente bonito!”? Mas não nascemos com estes pensamentos, eles são objetos criados pela sociedade, uma ditadura de beleza comandada pela grande mídia. A questão é: este padrão vem se tornando cada dia mais destrutivos à vida de milhões de pessoas que, inconformadas com suas aparências, acabam dando maior importância a seus espelhos do que a sua saúde.

Segundo uma pesquisa divulgada pelo IBGE, uma em cada cinco meninas se acha gorda ou muito gorda. É comum que os transtornos alimentares se desenvolvam durante a adolescência, uma fase que nossas mentes já estão bastante confusas. As mulheres são uma maioria alarmante, 90% dos casos. O psicólogo Diego Raphael Pereira explica que estes distúrbios estão ligadas a situações de desajustamento psicológico em relação a autoimagem. O indivíduo que desenvolve este transtorno pode já ter depressão, Transtorno de Ansiedade Generalizado (TAG) ou outros sintomas mais enraizados que desencadeiam o distúrbio alimentar, mas ele sempre estará ligado a busca de aceitação social, da beleza imposta. “A forma como a sociedade vai olhar este indivíduo, é como ele vai se sentir. Quanto mais imerso ele estiver na cultura da mídia, mais sofrimento ele vai ter”, afirma o psicólogo.

E sim, a sociedade pode ter um olhar muito cruel. Hoje o bullying vem sendo mais discutido mas, mesmo assim, muitos ainda o enxergam como uma frescura.  Ana* foi vítima de uma dessas “frescuras”.

– Tinha 13 anos e era uma criança gordinha. Nunca entendia o porquê, sempre comia muito menos que minhas amigas. Essa fase me marcou muito, pois via o corpo das minhas amigas e achava lindo enquanto mal conseguia me olhar no espelho. Apesar de ter muitos amigos no colégio, sofria bullying por parte de pessoas que nem ao menos me conheciam e isso contribuiu diretamente para o meu distúrbio. Com 13 anos, então, parei de comer, corria muito mais do que meu corpo aguentava e cheguei a desmaiar muitas vezes. Emagreci mais de dez quilos em um mês. Mesmo assim, não conseguia me ver mais magra. Sempre olhava no espelho e odiava o que via.

A família tem um papel importante no momento da identificação do problema. Como este tipo de situação ocorre mais frequentemente na fase da adolescência, é possível notar a mudança de comportamento do jovem. Os sintomas aparecem tanto em aspectos físicos, com a perda excessiva de peso, como em comportamentais, com a busca pelo isolamento.  A abordagem da família é importante, não devendo ser incisiva, pois a tendência é que a pessoa se afaste ainda mais. O tratamento deve ser feito com especialistas da área de nutrição, psicologia e psiquiatria, porém, os familiares e amigos são fundamentais no tratamento.

– Acho que o tratamento depende muito de cada pessoa e principalmente do quanto ela já está afetada por isso. Eu via a anorexia como algo maravilhoso, uma saída perfeita, uma amiga. Por que eu me livraria disso? Fui a vários psicólogos, psiquiatras, tomei remédios e nada. Achava tudo bobagem, nunca conseguia falar com psicólogos e parava os remédios quando bem entendia. Parece que algo sempre me dizia “melhorar por que? Tô tão feliz assim. Isso me faz bem. Não vou voltar a ser gorda por nada.” O que me fez acordar para a vida, foi quando em 2015, com 20 anos, quase morri. Precisei fazer uma transfusão de sangue, tomar diversas bolsas de ferro na veia, injeções de vitamina e o pior: ouvir meu médico dizendo que poderia estar andando na rua e ter morrido. Meu coração pararia. Ali vi minha família sofrendo. O choro da minha mãe desesperado me fez querer ser uma pessoa saudável. Não por mim, mas por ela. Acho que isso foi mais eficaz do que qualquer psicólogo. Porém, não totalmente eficaz. O que posso considerar como melhoria é que agora eu consigo perceber e admitir esse tipo de coisa. Consigo ver que não é tão bom e normal como eu vi por muito tempo, conta Ana*.

No último mês a Netflix lançou o trailer do filme ‘O Mínimo para Viver’. No filme, Lily Collins interpreta a jovem Ellen, que sofre com a anorexia e acaba conhecendo um médico fora dos padrões normais. Ao invés de apenas fazer os tratamentos necessários para ajudar a paciente, o Dr. William Beckham desafia a moça abraçar sua vida e encarar o problema de cabeça erguida. O filme gerou polêmica nas redes, muitas pessoas desaprovaram, mas para outras, o tema deve ser debatido.

– Acho que com certeza é um assunto que merece maior atenção. Creio que muitas pessoas devem sofrer com esses distúrbios, assim como eu. Hoje em dia somos bombardeados de estereótipos e com a mídia nos impondo que o corpo perfeito é o corpo das supermodelos, fazemos loucuras para entrar nesses padrões. Acho muito importante a discussão, principalmente para familiares e pessoas que acompanham “de fora” alguém que possui esses distúrbios. Eles precisam entender que é uma doença e é sim muito maior do que nós mesmos. Não temos controle, não somos idiotas ou frescos. Somos doentes. Julgamentos só pioram, afirma Ana*

O psicólogo Diego ainda afirma que durante o período de tratamento e também no pós é muito importante observar o que o paciente está consumindo, não somente em sua alimentação, mas em consumo de vida. Com quem se relaciona, o que o cerca e no que aquela pessoa se espelha. Apesar do tratamento ser efetivo, é necessário estar atento para que o transtorno não volte.

“Todos os dias, eu convivo com ela e com o medo de deixá-la tomar conta de mim novamente. Mas a anorexia insiste em martelar em minha cabeça frases como “sua gorda, continua comendo, vai” e agora eu me sinto uma bomba relógio, de tantos conflitos em minha mente.” Trecho de um texto de Ana* escrito em 2016.

*nome fictício

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