Comportamento

Vida escolar precoce: vale a pena?

O ingresso cedo na escola, antes apenas um suporte para os pais, hoje é considerado vantajoso para os pequenos

Texto: Caroline de Borba e Paula Dagostin
Foto: Celso Peixoto

Após o falecimento do marido, a secretária Érica Medeiros se viu obrigada a matricular na creche a filha Maria Fernanda, na época, com apenas oito meses. Não estava em seus planos, mas não teve outra escolha, visto que precisava trabalhar. Da mesma forma, a auxiliar administrativa Hanna colocou na escola seu filho Joaquim, de então três meses e meio, para poder contribuir na renda familiar.

Assim como elas, muitas mães, mesmo contra a vontade, colocam seus filhos ainda bebês na escola. Em matéria veiculada no portal do Ministério de Educação (MEC) em 2012, o acesso às unidades infantis de educação cresceu 150%, segundo os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Censo Escolar.

Em 2011, havia mais de dois milhões de crianças até três anos matriculadas. Em 2010, Santa Catarina configurava como estado com a maior taxa de frequência em creches, segundo dados do IBGE. Atualmente, de zero a três anos, é opcional a família levar a criança para a escola. De acordo com a Lei nº12.796, sancionada em 2013, somente a partir dos quatro anos se torna obrigatório frequentar a instituição escolar.

Para a psicóloga Josiane da Silva Delvan da Silva, entre seis e oito meses, o bebê já possui recursos cognitivos e emocionais para ingressar na creche e lidar com o tempo em que fica distante da família. No entanto, para a psicóloga infantil Valéria Rodrigues, o ingresso da criança na escola se torna mais proveitoso entre os dois e três anos. “Nessa idade, a criança está começando a entrar na fase egocêntrica. Por isso, é importante ela perceber que não é única no mundo, que não é só a vontade dela, que tem outros amigos, que o professor não está ali só para ela”.

A pedagoga Valéria Silva Ferreira expõe que o ambiente escolar proporciona novos desafios para a criança, o que auxilia em seu crescimento. “A escola ajuda a criança a se desenvolver melhor. Além disso, proporciona maior autonomia, pois ela terá que se adaptar às relações em grupo”. A mãe de Joaquim percebeu diferença no desenvolvimento precoce de seu filho. “Pude verificar de perto um filho de uma amiga que ficava em casa com a avó, ele demorou mais tempo para andar e falar. O Joaquim com apenas um ano e seis meses já contava até dez”, afirmou Hanna.

A psicóloga infantil Valéria confirma a opinião da pedagoga e acrescenta que a escola contribui para que a criança aprenda a resolver seus problemas sozinha. A mãe de Maria Fernanda, Érica, percebeu esta autonomia em sua filha. “Ela é bem mais independente. Eu tenho dois filhos mais velhos que não foram para a creche e a diferença é bem grande”.

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(Foto: Divulgação NEI Sementes do Amanhã)

O ambiente escolar e a convivência com outras crianças potencializam a socialização. Isso permitindo uma maior facilidade da criança se relacionar com outros indivíduos. A psicóloga Josiane relembra que, antigamente, os casais tinham mais filhos e, portanto, as crianças tinham os irmãos de diferentes idades para conviver. Como as famílias são menos numerosas, essa possibilidade se dá nas creches e escolas. “Isto permite que além de fazer novas amizades e conviver com regras diferentes das que existem em casa, a criança aprende a compartilhar brinquedos, argumentar sobre seu ponto de vista e aprender com a opinião de outra criança”.

No entanto, Valéria Rodrigues pondera que, apesar destes ambientes potencializarem a interação, a criança deve ser bem orientada. Pois, se ela não souber respeitar os colegas, não haverá sociabilização. “Não adianta ela conviver com outras crianças, seja na escola ou em outro ambiente, mas ela não respeita a regra do jogo, não espera a vez dela e tem todas as vontades atendidas. É sempre importante estar em contato com outras crianças, mas deve haver essa intermediação”.

Situação das creches no Brasil

Em pesquisa realizada pela Fundação Carlos Chagas e veiculada no portal O Globo, o ensino nas creches e pré-escolas brasileiras está abaixo do esperado. A pesquisa, de 2010, mostrou que 86,9% das creches e 72,4% das pré-escolas chegam a menos de 5 pontos numa escala de 1 a 10, assegurando menos que o básico para os alunos.

O problema da educação infantil não se baseia apenas na falta de vagas, mas também na deficiência dos serviços oferecidos. A má qualificação dos professores, a falta de material escolar e o fraco desempenho nas atividades realizadas foram alguns dos problemas relatados na pesquisa.

Escola deve estar preparada

A escola deve ter estrutura e profissionais adequados para atender as crianças, que quanto mais novas, exigem um conhecimento mais vasto dos professores. Para a doutora em educação Sandra Cristina Vanzuita da Silva, a ida cedo à escola só será proveitosa para a criança se o tempo for bem aproveitado. Sandra alega que as crianças têm passado cada vez mais tempo na escola, das quais algumas chegam a ficar 12 horas nas instituições. Sendo assim, essas horas devem ser aproveitadas com qualidade.

A doutora em educação relata que estudos desenvolvidos nos Estados Unidos e Inglaterra, comprovam que crianças que entram cedo na escola têm mais chances de se tornarem adultos bem-sucedidos.  Reitera, no entanto, que não adianta apenas a criança ir para a escola se não recebe um ensino qualificado, com atividades diferenciadas, com arte, cultura e contato com a natureza. “Eu acho que no mundo de hoje, trabalhar de forma colaborativa, em equipe, respeitar a diversidade e o outro, deveriam ser um dos principais conteúdos da escola”.

A instituição escolar deve estar preparada não apenas para passar conteúdos, mas preocupada com o sujeito como um todo. Dando assistência, cuidando da saúde, interação e socialização das crianças. Além disso, é importante a preservação da infância, pois apenas passar o dia obedecendo regras não é adequado. “Mais do que pensar em uma idade ideal para entrar na escola, é importante pensar em escola ideal. Que respeite a infância, proporciona experiências felizes e um local seguro para as nossas crianças”, afirma Sandra.

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(Foto: Divulgação NEI Bom Sucesso)

Implicações psicológicas

De acordo com Valéria Rodrigues, a criança não terá nenhum prejuízo afetivo ou na ligação familiar se levada cedo para a escola. Este tempo longe dos pais não será negativo em seu desenvolvimento. Para a psicóloga, o que importa é se o tempo em que ela passa junto a família, mesmo que mínimo, é de qualidade. “Existem famílias em que a criança fica o dia inteiro com a mãe, mas estão apenas na mesma casa. Essa criança, às vezes, acaba tendo mais prejuízo na saúde emocional do que aquela que passa o dia na creche. Por que, se a que passa o dia na creche, no período que está com os pais, tem um tempo bem aproveitado, é como se fosse compensado”.

Da mesma forma, a psicóloga Josiane delega a força dos laços afetivos à forma como a relação se desenvolve e não ao tempo disponível. “Não adianta a criança permanecer o dia todo com a família ou na creche, se estas não estabelecem uma relação de cuidado, atenção e disponibilidade para conversas e brincadeiras compartilhadas”.

As psicólogas ressaltam também que a inserção em uma rotina, mesmo que cedo, contribui para o crescimento da criança. Rotinas são impostas desde que se nasce, como horários para comer, dormir e tomar banho. Respeitar uma rotina é necessário para o desenvolvimento infantil. “Ter um tempo determinado para cada atividade auxilia o bebê e a criança a organizar seu pensamento e a relação que estabelece com as pessoas no ambiente onde interage”, esclarece Josiane.

Já para Valéria, a rotina é positiva, mas o equilíbrio, sempre necessário. “A rotina dá previsibilidade para a criança e ajuda na autonomia, por receber certa responsabilidade. Mas, em uma escola com rotina muito rígida, onde a criança não pode nem ser criança, pode contribuir de forma negativa”. Portanto, os pais devem saber balancear a rotina dos filhos, sabendo da importância de um bom ensino, contudo, desde que vivam o tempo presente, o de ser criança.

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(Foto: Divulgação Prefeitura Municipal de Balneário Camboriú)

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