Cidades

Uber atua há seis meses na região sem regulamentação

Transporte particular de passageiros ainda divide opiniões de usuários e concorrentes

Texto: Gabriel Silva e Sérgio Augustin

A chegada da Uber na região foi marcada por tentativas quase frustradas de regulamentação do serviço, confusões entre motoristas de taxis e ubers e dezenas de publicações nas redes sociais de pessoas reclamando de taxistas. De um lado, usuários que acreditavam que as vidas melhorariam com o transporte particular de passageiros por meio de aplicativo para smartphones. Do outro, taxistas se sentindo injustiçados pela oferta de um serviço que prometia custar metade do preço dos taxímetros. Porém, o que mudou nesses pouco mais de seis meses?

O Uber ainda não está regulamentado. Porém, o decreto 8.663/2017, publicado em Balneário Camboriú esta semana, impõe regras para que o serviço possa ser efetuado na cidade. Os motoristas têm até o dia 29 de outubro para realizar um cadastro na prefeitura e pagar uma taxa de R$ 267,00. Os veículos que operam pelo Uber na cidade devem estar emplacados em Balneário Camboriú. Além disso, os motoristas só poderão pegar passageiros que contratarem o serviço pelo aplicativo, não nas ruas como os táxis.

Após estes quesitos serem cumpridos, o motorista recebe o alvará, como explica a gestora do trânsito em Balneário Camboriú, Maria Cristina Andrade: “O alvará é o mesmo dos taxistas e autoriza a Uber a operar no município”. A partir do dia 29 de outubro, quem não estiver regularizado será multado caso caia na fiscalização.

Já em Itapema não há previsão de regularizar o serviço. Os taxistas esperam uma posição das autoridades. “Só haverá espaço para os dois se tiver regras de fiscalização”, menciona João Sena, motorista de táxi há 7 anos na cidade. Ele diz que, no começo, as informações da chegada da Uber à região assustaram um pouco. “A internet mostrava muitos pontos negativos, que afetariam nossa classe de taxistas. Nas grandes metrópoles isso estava virando um pesadelo até chegar aqui”, desabafa. De qualquer forma, João menciona que a presença da Uber não afetou os serviços dos taxistas. Porém, ele é um dos poucos que diz isso.

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Ponto de Táxi da Igreja Matriz de Itajaí (Foto: Coletivo Planos e Ângulos)

No ponto de táxi da Igreja Matriz, em Itajaí, Henrique Godói pensa diferente: “Tivemos que nos adaptar à Uber e isso é uma injustiça. Chegamos primeiro e temos que pagar nossos impostos para operar, além da gasolina que está cara. Não lucro mais como há cinco anos”, desabafa o aposentado. Outros motoristas concordam. Dizem que trabalhar como taxista não é mais tão lucrativo como antes, já que o preço da gasolina está alto e, para não perder os poucos clientes que têm, os veículos não aumentaram tanto o valor no taxímetro. “Aqui em Itajaí as pessoas têm o costume de andar de mototáxi”, comenta Juliano Rocha, se referindo a outro tipo de transporte que também tira clientes dos taxistas.

O que dizem os motoristas parceiros?

 

Lucas Brasil é motorista da Uber há dois meses. Ele diz que uma das características que o atraiu para este serviço é que não há taxas altas a serem pagas. “Os taxistas pagam impostos para o município porque eles têm que comprar o ponto”, entende Lucas. “Para ser motorista parceiro, a Uber desconta 25% dos seus ganhos”. João Sena, o taxista, salienta a necessidade de placas diferenciadas para os táxis: “Tem leis para todos os transportes, placa vermelha é uma delas. Mas o Brasil é o país da corrupção, então isso passa batido”, expõe, quando se refere ao fato de que Ubers passam despercebidos, por não terem identificação.

“O medo dos usuários é que essas taxas encareçam o serviço”, conta Diego Cardoso, que está cadastrando o automóvel dele para trabalhar como motorista parceiro da Uber. O rapaz decidiu trabalhar com o transporte particular por indicação de um amigo paulista. “Meu amigo tirou R$ 4 mil mês passado, trabalhando direto com a Uber”, conta.

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O que dizem os usuários?

Danielly Silva mora em São Paulo, mas já viveu em Nova Iorque. Para ela, brasileiro tem o costume de complicar tudo. “Lá nos Estados Unidos tem espaço para todo mundo. Os taxistas e ubers trabalham sem conflitos e até fazem indicações”, comenta. Ela diz que, certa ocasião, precisou fazer uma viagem longa e pegou um táxi. Quando o taxista soube para onde ela iria, disse que “faria o trajeto caso ela quisesse, mas o ideal seria pegar Uber, pois sairia mais barato”.

Em Balneário Camboriú, Ubers parecem existir apenas na cabeça dos jovens. Dona Célia vende bolsas e artigos de praia na Avenida Brasil. Ela diz que nunca viu Uber passando por ali e nem conhece alguém que tenha contratado o serviço. “Acho que essas coisas são muito complicadas e modernas. E a gente que é mais velho acaba ficando para trás. Minha filha disse que para chamar um Uber tem que ser pelo celular, num aplicativo. É aplicativo que se chama, né? Pois é. Eu não sei mexer nessas coisas, então espero que ainda tenha táxi caso eu precise”, ri a aposentada, que cuida da loja de souvernirs há anos. Tantos que ela nem se lembra.

O estudante de engenharia Guilherme Maçaneiro diz que entende os taxistas, pois acredita que os serviços oferecidos pelo Uber acabam tirando os clientes. “Mesmo assim, não justifica a violência”, conclui o jovem, que já levou um grande susto quando contratou os serviços da Uber. “A gente estava saindo de Balneário Camboriú pela Avenida das Flores, quando dois taxistas emparelharam com o nosso carro. Quando entramos na BR-101 eles andaram do nosso lado até que entramos em Itajaí, onde tinha o Posto da Polícia Rodoviária Federal”. Guilherme conta que o motorista anotou a placa dos táxis e registrou boletim de ocorrência. “Eu fiquei com o whatsapp dele, caso eu precisasse prestar depoimento, mas a Polícia Militar não fez nada”, desabafa.

O que diz o setor?

O Sindicato dos Taxistas de Balneário Camboriú, cidade onde aconteceu a maioria das violências envolvendo taxistas e Ubers, em conversa com nossa equipe de jornalismo, diz que não aprova nem incentiva a violência. Eles querem que o serviço seja regulamentado. Enquanto isso não acontece, para os taxistas “os Ubers são um meio de transporte ilegal”, afirma Celito Maffezzoli, o presidente.

Ele conta que os taxistas da região, não apenas Balneário Camboriú, passaram a oferecer coisas que antes não eram vistas como uma necessidade. “Alguns taxistas agora mantêm bala para dar aos clientes”, menciona Celito. Isso fez com que os taxistas entendessem a importância de oferecer um serviço diferenciado, que vai além de pegar o passageiro num local e deixar em outro. “Se o passageiro pedir, ele pode escolher até a estação de rádio”, completa.

 

Em grandes cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro, existe o Uber Black. Esse tipo de usuário paga mais caro, mas o veículo é “preto de luxo e motoristas profissionais”, como explica a própria empresa no site da uber.

O primeiro dia de atividade da Uber em Balneário Camboriú foi marcado por muita confusão entre taxistas e um motorista da Uber. No dia 11 de março de 2017, Harrison Juliani foi ameaçado e teve seu caminho bloqueado por outros taxistas e teve seu carro depredado.

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