Comportamento

Curso prepara os pais para os desafios da adoção

O curso teórico engloba aspectos psicossociais e jurídicos da adoção

Texto: Caroline de Borba e Paula Dagostin
Foto: Benji Aird

Com o desejo de ampliar a família, mais de 40 mil pessoas aguardam na fila da adoção no Brasil. O processo não é simples nem rápido, mas o curso para pretendentes auxilia e prepara os futuros pais durante essa espera. Oferecido em Balneário Camboriú pelo Grupo de Estudos e Apoio à Adoção Anjos da Vida, as aulas contribuem para dissipar as dúvidas e inseguranças.

O curso é ministrado pela equipe psicossocial do Judiciário e também por membros do Grupo Anjos da Vida, composto por psicólogo, coordenador pedagógico, advogado, médico, assistente social e coordenador geral. Os assuntos abordados nas aulas envolvem os aspectos psicossociais e jurídicos da adoção. O curso é gratuito e um dos principais requisitos para aqueles que desejam entrar na fila de adoção.

“Todos deveriam realizar o curso, não somente quem quer adotar, mas também quem deseja ser pai ou mãe biologicamente. O curso prepara para a responsabilidade e o compromisso que se deve assumir, além de servir como espaço de diálogo e troca de experiências”, ressalta Deolinda Raiser, assistente social da Vara da Família, Infância e Juventude da cidade de Balneário Camboriú e membro do Grupo Anjos da Vida.

A adoção é uma forma diferente de conceber uma vida, por isso precisa ser realizada de forma legal, seguindo as leis vigentes. Obrigatoriamente, os futuros pais devem ser maiores de 18 anos e ter uma diferença mínima de 16 anos do adotado. Há ainda outros critérios importantes, como estabilidade financeira, antecedentes criminais e atestado de saúde física e mental. O estado civil, neste caso, não é levado em consideração.

Segundo dados do Cadastro Nacional de Adoção (CNA), no Brasil há cerca de 8 mil crianças a espera de um lar, sendo crianças de zero a 17 anos, distribuídas por todo o território nacional. A região Sudeste concentra a maior parcela de propensos à adoção, correspondendo a 43% das crianças cadastradas. Com apenas 3% da média nacional, Santa Catarina possui 217 crianças na fila para serem adotadas.

Diferente de uma gestação biológica, segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a adoção no Brasil leva cerca de um ano. Porém, essa espera pode aumentar devido às restrições impostas pelos futuros pais, pois atualmente há poucas crianças menores de três anos disponíveis para adoção e muitos buscam esse perfil. Quanto maior o tempo de aguardo, mais ansiedade e expectativa os futuros pais terão. Por isso o curso é um dos primeiros passos dessa jornada.

Ao todo, são dez passos até a finalização do processo. Entre eles, a decisão de adotar, cursos e avaliações, traçar o perfil desejado, conhecer o futuro filho e, finalmente, receber a sentença do juiz determinando a lavratura do novo registro de nascimento da criança. A exceção ocorre com adoções intrafamiliares e unilaterais, ou seja, quando a criança é adotada por parentes até terceiro grau ou quando o/a cônjuge adota filhos um do outro.

Primeira etapa

O curso é a primeira etapa para o processo de adoção. Ao todo, são 100 horas de curso, distribuídas em aulas semanais durante seis meses. Desde 2010, o Grupo Anjos da Vida realiza essa capacitação, contribuindo para o entendimento sobre todas as etapas da adoção. “A metodologia usada no curso faz os futuros pais vivenciarem de forma psicodramática as situações de conflito e crises que podem ocorrer durante todo processo”, ressalta Lenita Novaes, psicóloga e membro do GEAA Anjos da Vida.

A família adotante passa por um preparo, que discute os aspectos sociais, jurídicos, culturais, educativos e reflete sobre os preconceitos que existem no âmbito social e familiar. A preparação auxilia os pais nas questões processuais, na espera, no acolhimento e trabalha com as motivações para que o ambiente familiar esteja bem organizado para receber um novo membro.

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Formatura da turma XVI do curso de preparação para adotantes (Foto: Divulgação GEAA Anjos da Vida)

“O curso faz total diferença, pois ele é bem preparado com vários aspectos, vários focos da adoção e todas as pessoas que desejam ser pais deveriam fazer um curso como esse, pois há muitas crianças órfãs com os pais presentes”, salienta o empresário e pai adotivo Geninho Góes.

Nos tópicos iniciais do curso são abordadas as motivações para a adoção, os mitos acerca dessa prática, aspectos psicossociais, direitos da criança e adolescente e os diferentes tipos de adoções. No decorrer do curso também são discutidas as questões processuais como o cadastro no sistema de adoção, estágio de convivência, investimento afetivo e financeiro necessários para a criação de um filho, a adoção tardia e de grupo de irmãos.

Ao final do curso é organizada uma visita às instituições de acolhimento. A equipe técnica também presta atendimento profissional aos pretendentes e faz acompanhamento no pós-adoção, principalmente na adoção tardia.

Adoção tardia

Crianças com idade superior a três anos são maioria nos orfanatos brasileiros. Comumente integram grupos de irmãos ou da chamada adoção tardia. Sendo que, nessa modalidade de adoção, o curso se faz fundamental para a preparação dos pretendentes. Devido à idade, toda criança adotada tardiamente possui uma história de vida, marcada por traumas e situações sofridas junto à família de origem por abandono, maus tratos e todos tipos de violência e abuso.

A criança adotada costuma testar o amor dos pais para sentir se é aceita como ela é, regredindo em suas atitudes e comportamentos ou manifestando agressividade. Assim, os pretendentes à adoção devem estar preparados para saber como lidar com essa problemática e ajudar a criança a reelaborar sua nova história, sem negar a anterior.

“A adoção não é um conto de fadas e as crianças que estão para adoção vêm de uma história triste. Os pais adotivos precisam estar bem preparados para poder receber uma história na sua vida, pois além de uma criança, você recebe uma história que vai fazer parte da sua vida”, explica Geninho.

Segundo reportagem publicada no portal do Senado, apenas 25% dos adotantes estão disponíveis a realizar a adoção tardia, por isso não há fila de espera para essa modalidade. Atualmente, 88% das crianças que vivem em abrigos se enquadram na adoção tardia, de acordo com o Cadastro Nacional de Crianças Acolhidas (CNCA).

Para quem deseja mais informações sobre o curso, pode entrar em contato com o GEAA Anjos da Vida pelo telefone (47) 3363-4590.

Reportagem sobre adoção no Brasil e os dados acerca dessa realidade. Os dados correspondem ao primeiro semestre de 2016 e estão atualizados na matéria

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