Comportamento

Maternidade? Eis a questão

Com a ascensão da mulher no mundo moderno, surgem prioridades, como carreira, trabalho e a realização pessoal. Com isso muitas mulheres acabam deixando de lado o desejo de ter filhos.

Texto: Patrícia Barbosa e Samara Michele

“Eu quero ter um bebê, não um filho. O bebê encanta, e a cada momento é uma descoberta, porém, não quero passar pela parte em que cresce e se torna adulto. Já tive o desejo de gerar, mas era mais por imposição por causa do relacionamento que eu tinha, sentia como se fosse uma obrigação. No momento, eu amo a vida que tenho e realmente não acho que há necessidade”. Paola Roberta Pavesi, 29 anos, trabalha na Delegacia de Polícia na cidade de Camboriú, e afirma que um dos principais motivos de seu posicionamento é pelos casos que chegam até ela, devido aos problemas de pais contra filhos e vice-versa, e conclui “confesso que fico bem assustada”. Hoje Paola tem planos de ir para o exterior, e mesmo casada, não pretende gerar.

Com a ascensão da mulher no mundo moderno, surgem prioridades, como carreira, trabalho e a realização pessoal. Muitas mulheres acabam deixando de lado o desejo de ter filhos. Hoje, existem diversos métodos contraceptivos para auxiliar nessa escolha. As mulheres têm o poder de decisão entre gerar ou não, e mesmo assim dar seguimento em suas vidas.

Para Paola, o sonho ficou para trás, e não encontra necessidade diante dos sonhos futuros, mesmo com pessoas questionando o amanhã, no qual talvez precise do auxílio de alguém para cuidar dela. “A maioria das pessoas tem a preocupação de ter filhos para serem cuidados na velhice, mas está errado. Planejar uma criança é para quem realmente deseja, sonha e sente vontade”, afirma Paola.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010, 14% das mulheres brasileiras rejeitavam a ideia de engravidar. Número que cresceu no decorrer dos anos já que em 2001 era de 10%. Além disso, o Censo mostra que casais com filhos caiu de 53% para 47% em dez anos. E que a média de filhos por mulheres diminuiu de 6,1 para 1,9 nos últimos 60 anos.

A psicóloga Ana Medeiros, 34 anos, compreende que essa mudança aconteceu devido às transformações do tempo, uma vez que as mulheres estão mais independentes e engajadas no mercado de trabalho. “Era normal à mulher estar ligada à maternidade. Não se podia questionar, já que há um paradigma que mulheres nasceram para gerar”. E completa que essa é uma nova era, na qual a mulher pode decidir o que fazer com seu corpo, se nasceu ou não para ser mãe. Até porque o desejo precisa vir de dentro para fora e não de fora para dentro.

O conceito de que a mulher nasceu para gerar vem de uma herança cristã, cuja definição de família só se estabelece quando o casal gera uma criança. Ana Lúcia Paixão é pastora de uma igreja cristã, e explica que o papel da mulher é ser auxiliadora do marido, e que um dos principais propósitos é ajudar o homem no cuidado com os filhos.

Em crônica escrita para o jornal Zero Hora de Porto Alegre, a escritora Martha Medeiros discorre sobre o assunto, argumentando o dilema de ter ou não ter filhos. A autora esclarece que todas as escolhas são legítimas, mas é necessário analisar todo o contexto de uma vida, e não levar em conta apenas o momento. “Pois filho é pra sempre, mas não ser mãe também é”.

Confira a Crônica na íntegra.


Maternidade ou não

Semana passada me telefonaram de um jornal para pedir um depoimento sobre mulheres que decidiram não ter filhos. Queriam um testemunho curto e rápido.Sobre um tema tão intenso? Fui curta e rápida, mas agora vou me estender.

Tenho duas filhas planejadas e amadas, que nunca me provocaram um segundo sequer de arrependimento. Mas nunca fui obcecada pela maternidade. Acredito que qualquer mulher pode ser feliz sem ser mãe. Existem diversas outras vias para distribuirmos nosso afeto, diversos outros interesses que preenchem uma vida: amigos, trabalho, paixões, viagens, literatura, música – até solidão, se me permitem a heresia.

Conheço mulheres que se sentem íntegras e felizes sem ter tido filhos, e mulheres rabugentas que tiveram não sei por quê, já que só reclamam. Há de tudo nesta vida.

Mas tenho pensado nesta questão porque, dia desses, uma amiga inteligente, realizada e linda completou 50 anos e se revelou meio abatida por certos questionamentos que chegaram com a idade – uma idade que está longe de ser das trevas, mas que é emblemática, não se pode negar. Ela nunca quis ter filhos. Escolha não, impossibilidade.

Tem uma vida de sonho, mas ela anda se perguntando: não tive filhos, será que fiz bem? Ninguém tem a resposta.

Mas é fácil compreender o dilema. Quando entramos nos 30, o relógio biológico exige uma decisão: ter ou não? Algumas resolvem: não. Criança dá trabalho, criança demanda muita atenção, criança é dependente, criança interfere no relacionamento do casal, criança dá despesa, criança é pra sempre. Tudo verdade, a não ser por um detalhe: crianças crescem. Crianças se transformam em adultos companheiros, crianças são quase sempre nossa versão melhorada, crianças herdarão não apenas nossos anéis, mas nossos genes, nosso jeito, nossa história, e isso é explosivo, intenso, diabólico, fenomenal.

Aos 30, só pensamos na perda da liberdade, mas, aos 50, conseguimos finalmente entender que a maternidade é muito mais do que abnegação, é uma aposta no futuro.

Depois dos anos palpitantes e frenéticos da juventude, chega uma hora em que deixamos de pensar apenas no lado prático da vida para valorizar as conquistas emocionais, que são as que verdadeiramente nos identificam. Não estou fazendo apologia da maternidade, sigo acreditando que todas as escolhas são legítimas.

Mas optar por não ter filhos não é algo trivial. É uma experiência profunda de que abriremos mão de vivenciar. É uma emoção que transferiremos para sobrinhos sem jamais saber como seria se eles fossem gerados por nós – ou adotados, o que dá no mesmo.

Vale a pena desprezar este investimento de amor? Um investimento que, diga-se, é uma pedreira muitas vezes, não é nenhum mar de rosas! Nessas horas é que faz falta uma bola de cristal. O problema é se a dúvida vier nos atazanar mais adiante. A gente nunca sabe como teria sido se…

É por isso que, neste caso, compensa queimar bastante os neurônios antes de decidir. Não dá para pensar no assunto levando-se em conta apenas o momento que se está passando, mas o contexto geral de uma vida. Porque não ser mãe também é para sempre.”

Martha Medeiros, no jornal Zero Hora de 08 de maio de 2005.

 

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