Entrevista

Os três prazeres de uma vida

Texto: Silvio Matheus e Juliana Passos.

 

“Eu gosto de dar vida para a natureza morta”. Sérgio Bittencourt, 51 anos, é entalhador de madeira, motociclista, ex-dançarino e servidor público da Câmara de Vereadores de Itapema há 21 anos. Ele nos recebeu em sua sala na Câmara, lugar onde divide seus dias junto a um quadro de Itapema antigamente, janelas grandes e seu material de trabalho de entalhar.

Sérginho, como é chamado pelos conhecidos, nasceu em Blumenau em 1966, estudou na Escola Estadual Básica Victor Hering e, em plena ditadura militar, conheceu sua paixão pela arte de entalhar madeira. “Naquela época nós íamos três vezes por semana em um centro profissionalizante onde aprendi meu gosto pela arte. Me encontrei na arte de entalhar e me aperfeiçoei até os meus 14 anos”, afirma ele.

Quando tinha 14 anos, a família se mudou para Itapema. O choque cultural foi grande, saíram de uma cidade muito desenvolvida e envolta em prédios e foram parar num município litorâneo envolto por natureza, tudo por causa do pai, pescador. Foi quando também se afastou de seu hobbie. “Em Itapema eu não achei os materiais necessários para entalhar, tive que abandonar o trabalho em madeira”, conta.

Ferramentas

As ferramentas usadas para esculpir a madeira são chamadas de goivas. Existem as goivas curvas, ou meia cana, de vários tamanhos e as goivas retas. São lâminas feitas de aço temperado que servem para abrir espaço e transformar o tronco morto em arte viva.

“A madeira uma vez que derrubada acaba sendo esquecida ou usada por marceneiros. A vantagem da arte é que após feita uma obra você eterniza a natureza e representa nesse pedaço qualquer imagem que quiser. Meu objetivo é deixar exposto o valor da natureza para as pessoas”.

Reencontro

Na juventude, Serginho foi dançarino de salão, viajou o mundo inteiro dançando e dando aula, trabalhou também como produtor sonoro de espetáculos mundo afora. De volta a Itapema, conheceu um cuteleiro em Timbó. Comprou as ferramentas para entalhar madeira aos 30 anos, as mantêm conservadas até hoje. O produtor já morreu, mas as ferramentas continuam vivas, revivendo a natureza.

Desde então, voltou a trabalhar com a arte, por puro hobbie, como diz: “Eu não trabalho para viver disso, é mais um hobbie para mim, uma terapia, uma maneira de esquecer dos problemas da vida e me envolver com a arte”. O escultor é apaixonado pelo estilo barroco.

Aos 35 anos, cinco depois de se reencontrar na arte da madeira, o servidor público descobriu outra paixão, o motociclismo. Começou pilotando uma Suzuki, hoje tem uma Harley Davidson Fatboy 1.600. Com a motocicleta e a esposa já viajou para Gramado, Ijuí, Igrejinha, Chapecó, Curitiba, Paranaguá entre outras cidades. “Eu gosto do Sul do país pois somos sempre muito bem recebidos e o contato com a natureza é constate”, conta o motociclista.

Agente público

Multifuncional, aos 51 anos, ele se divide entre as viagens, a escultura em madeira e o serviço público. Sérginho é agente auxiliar administrativo concursado da Câmara de Itapema há 21 anos. Quando perguntado sobre como é ser agente público há tanto tempo num país que vive em constante crise política, ele se resume a responder que ali são muito bem tratados, pois tratam muito bem o povo.

Vento no rosto, mãos à obra

O que une as suas paixões é a natureza. Em suas viagens, ele adora visitar cidades menores para se inspirar. “Existem artistas muito talentosos nesses lugares, e eles seguem o meu estilo, deve ser porque vivem em constante contato com a natureza, são sempre uma inspiração para mim”.

Viajar de motocicleta é outra maneira de relaxar que ele encontrou. “Sentir o vento no rosto, estar em contato direto com a natureza, conhecer novos lugares, isso contribui bastante para o meu bem estar psicológico, é outra forma de terapia”, afirma.

As viagens proporcionam o respeito pela natureza e a inspiração necessária para trabalhar sua arte. Ele está sempre esculpindo pequenos adereços e de olho em trabalhos na internet. É antenado, sempre buscando referências que o ajudem a evoluir como artista.

Entre os colegas de trabalho, é conhecido como um falante, fala alto e sempre está conversando com todos sobre qualquer assunto. Ao se aposentar, se possível, pretende continuar trabalhando na Câmara, esculpindo e viajando.

 

 

 

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