Arte e Cultura

Os filhos de Dona Tereza Cristina

Aleida Ghisi, filha de Mário Ghisi, trabalhador que morreu na estrada de ferro Tereza Cristina em 1953, conta sua história.

Texto: Silvio Matheus e Juliana Passos

Agudo e abafado, o silvo alto que toca por um bom tempo, intercalado por intervalos breves, presença física, sonora e diária. Assim como os prédios em construção, os carros velhos e os de última geração, as lojinhas de meio de rua e os grandes mercados, é presença natural na cidade de Criciúma.

A cortina de ferro foi construída no Sul no Estado no final do séc. XIX. Em 1830, documenta a história: um grupo de tropeiros ateou fogo em pedras para cozinhar um jantar quando percebeu que algumas delas eram flamejantes. A partir daí o carvão foi personagem principal no desenvolvimento industrial de toda a região: Tubarão, Criciúma, Laguna, Imbituba, Urussanga, Içara, Jaguaruna, Capivari de Baixo, Morro da Fumaça, Sangão, Treviso, Cocal do Sul e Forquilhinha.

A ferrovia chegou à Criciúma em 1940, com ela, veio o trem. Funcionou, na cidade, como meio de transporte de pessoas, mercadorias e produtos até a década de 1960. Dez anos depois, a área central do município se desfez da maioria dos trilhos, cedendo lugar ao desejo de modernidade, muito presente no Brasil pós-64 e responsável por grandes avenidas que enterraram parte importante da história do Estado.

 

A vida e o trem

As curvas da Estrada de Ferro Dona Tereza Cristina carregam muito mais do que alguns vagões cheios de carvão. Hoje em dia ela carrega histórias que ainda são preservadas por alguns moradores da cidade. Assim como o trem, a história e a importância de Dona Teresa continuam em movimento, está no imaginário físico de moradores, está em suas lembranças do presente, dita as horas como badaladas do sino de uma igreja, tira o sono nas primeiras horas da manhã, assusta turistas desavisados e para o trânsito.

Ao entrar no pátio da unidade central de controle da Ferrovia Tereza Cristina, em Criciúma, somos recebidos por uma placa azul de cinco metros de largura por três de altura, o metal desgastado carrega um informativo: ‘’Estamos trabalhando há 339 dias sem acidentes, o recorde é de 3.350”. Em 1953, os números não eram tão altos.

Bernardina Vicente Ghisi e Mário Ghisi, descendentes de italianos e filhos da cidade de Pedras Grandes, antigo distrito de Tubarão, receberam uma proposta de transferência, em 1950, para a cidade de Criciúma. Mario era trabalhador braçal da ferrovia, Bernardina, costureira. Juntos, o casal colocou no mundo seis filhos. Em dezembro daquele ano, Mario, Bernardina e as crianças – o mais velho com 11 anos e o caçula com um – se mudaram para a cidade. Aquela era a época de ouro de Tereza Cristina, e Mário ajudaria a construí-la em Criciúma.

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Foto Silvio Matheus: trecho da ferrovia

“Eu vivi e morava na beira da estrada de ferro. Quando o trem que levava os passageiros passava a gente ficava abanando para as janelas, aquilo era tão bonito. Fomos criados ao lado da ferrovia e ela representava tudo pra gente, não existiam muitas rodovias, o transporte era quase que totalmente feito pelos vagões do trem”. Aos 73 anos, Aleida Ghisi Ortigosa relembra da infância com saudosismo e fidelidade.

Era dia e era quente quando Aleida abriu suas portas e seu coração, repleto de memórias. Criciúma é uma panela, não venta, qualquer calor é ainda mais quente na cidade. Os 22 graus da sexta-feira de outubro, provavelmente, representavam uma sensação de 30. A aposentada tinha passado a tarde inteira no sítio do marido, o homem responsável pelo sobrenome Ortigosa, de origem espanhola, cuida do local muito bem, divide seu tempo entre o plantio de alguns alimentos, o gado, as galinhas e outras atividades comuns em sítios.

Quando os pais de Aleida se mudaram para Criciúma, em 1950, a professora aposentada tinha oito anos. Aos 11 perdeu o pai, aos 13 já dava aulas. Em 1953, durante um trabalho de rotina, Mário Ghisi foi colhido por uma locomotiva, morreu aos 34 anos, deixando para traz uma mulher e seis filhos.

“Para mim a estrada de ferro continua sendo uma grande emoção. Quando eu assisto a filmes que mostram trens eu fico emocionada e até choro. Eu paro de prestar atenção no enredo do filme e fico construindo minha própria história, com minhas próprias lembranças, algumas boas e outras tristes”, conta Aleida. A mulher veste uma camisa social com um tecido leve, estampada com cores vivas, mas não muito fortes, o desenho lembra um quadro abstrato, a calça preta deixa apenas as costas dos pés de fora, a rasteirinha também é preta.

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Foto de Fernanda Pizzamiglio
Os filhos da estrada

Aleida é filha da estrada de ferro assim como toda a região onde os trilhos estão presentes. Aleida construiu sua vida a partir da estrada, assim como as cidades se desenvolveram por causa dela. Aleida perdeu seu pai para a estrada, uma ironia da vida, a ferrovia dá tanto, mas tira coisas que valem muito mais.

Mário Ghisi, Bernardida, Aleida e os cinco irmãos, assim como outras muitas famílias, devem muito à Tereza Cristina. “Os trilhos representam para mim a minha infância, sempre que eu ouço falar na estrada de ferro eu me transporto para aquela época. Era muito bom viver na beira dos trilhos, nós pautávamos nossas vidas pelos horários do trem, a gente brincava no caminho do trem”.

Aleida virou professora aos 13 anos, sonho do pai e sonho dela também. A vida de Mário virou museu, a casa que servia de moradia para a família na década de 50 hoje é um resgate histórico dos tempos áureos da ferrovia. Antes, a visão da casa era o trem e os trilhos, hoje são carros e Avenidas. O Museu Mário Ghisi é, também, uma homenagem ao agente ferroviário.

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Foto de Silvio Matheus: Aleida em frente ao museu
Com o passar do tempo

O campo de brincadeiras de Aleida na década de 70, hoje cedeu lugar ao desenvolvimento. Atualmente, cidade de 190 mil habitantes não encontra muito espaço para o passado. Acompanhando o desenvolvimento, a aposentada não ficou para trás. “O sonho do meu pai era que eu fosse professora, graças a deus eu realizei aquele sonho, que se tornou o meu também, mas eu fui além, fiz concurso para diretora de escola e concurso para inspetora escolar, exerci os cargos e me aposentei”.

Aleida e o marido criaram três filhos, três netos e esperam o quarto. A máquina de costura da mãe ocupa um espaço na casa, uma relíquia antiga, sobrevivente de uma época de dificuldades, companheira fiel da viúva que criou seis filhos e formou todos em universidades, mulher que ganhou o título de cidadã honorário de Criciúma e que morreu de câncer de pulmão em 2000, mesmo sem nunca ter fumado.

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Foto de Silvio Matheus: Aleida com a máquina de costura da mãe

“Eu penso que poderíamos revitalizar o transporte ferroviário, tanto para carga, quanto para passageiros, e é claro, deveríamos modernizá-lo, isso seria muito interessante”.

Em uma cidade que convive ao mesmo tempo com o passado e o futuro, o pensamento para frente de Aleida, aos 73 anos, não é surpreendente. Respeitar as tradições e implantar o desenvolvimento é um desejo da aposentada. A órfã de operário de ferrovia não ficou parada no tempo. Talvez esse seja o legado de Tereza Cristina para os seus filhos, assim como o trem, a estrada de ferro ensina que a vida anda apenas em uma direção, para frente.

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