Esportes

Bocha para além da visão

Inclusão dentro do esporte transforma realidade de deficientes visuais em Lages.

Texto: Silvio Matheus e Juliana Passos.

“Pra direita, pra esquerda, um pouquinho mais pra frente”, o aluno ouve e atende. O atleta tem noção do espaço que a bola vai percorrer e da força que deve usar nos lançamentos, pois treina e se prepara para os campeonatos. Ele presta atenção em cada palavra e imagina a cancha, antes de jogar a bola pesada no chão coberto de areia. O objetivo é fazer com que ela se aproxime mais das já jogadas pela da equipe adversária.

A descrição é de uma partida de bocha, esporte de origem italiana ofertado para deficientes visuais na cidade de Lages. Norma Boing, professora de educação física aposentada, mora em Chapecó e esteve à frente das aulas durante cinco anos, onde, junto de atletas cegos de diferentes idades, participou de várias competições esportivas.

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Foto: Divulgação Adevips.

Sobre a modalidade

A boccia, ou bocha, é uma disputa que consiste no lançamento de bochas (bolas) para tentar aproximá-las do bolim (bola pequena) jogada no início da partida. O jogador, durante sua rodada, deve tentar situar essa bola junto ao bolim ou tirá-la do caminho do adversário.

Geralmente praticado por idosos, o esporte surgiu na Itália durante o Império Romano e foi trazido para o Brasil por imigrantes italianos. Hoje é bastante popular na região Sul.

Além disso, tornou-se esporte oficial das Paraolimpíadas desde 1984, destinado às pessoas com paralisia cerebral e outros problemas neurológicos. Porém, ainda não faz parte dos Jogos Olímpicos.

Bocha para deficientes visuais

Norma Boing ministrou aulas de 2008 a 2013 e conta um pouco da experiência de dar aulas para deficientes visuais. “Eu entrava na cancha com eles, e eles vinham atrás de mim escutando a minha voz, dando passos para direita, para esquerda, mais um para direita, um passinho para trás. E eles jogavam muito bem, pareciam enxergar”, conta a professora.

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Foto: Divulgação Adevips.

Bocha é um jogo visual, mas os atletas se adaptam ao esporte sem dificuldade. “A gente coloca eles na cancha, eles vão tocando a parede e identificando o espaço. Quanto mais você treina, mais você se aperfeiçoa. Eu treinei alunos de 20 a 50 anos. Tinha a Rita, o Vilmar, tinha um músico, um casal de cegos…”, lembra Norma.

A professora aposentada, de 68 anos, comenta que, desde criança, aprendeu a trabalhar para a comunidade. “Lá em Vidal Ramos, onde eu nasci, a gente aprendeu a trabalhar com teatro, atender os mais necessitados, ajudar na igreja, cantar, puxar o terço, e assim a vida foi nos instruindo”.

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Foto: Acervo pessoal. Norma Boing, ao centro, durante jantar comunitário.

Além da bocha, a Associação dos Deficientes Visuais do Planalto Serrano de Lages (ADEVIPS) oferece atletismo, ciclismo e xadrez para seus associados. Adriane Kuster pratica atletismo na associação desde os 10 anos, hoje a atleta tem 17, e já participou de vários campeonatos.

A importância do esporte

Segundo Adilson França, coordenador da ADEVIPS, os treinos da bocha acontecem desde 2006. Na época, ele era presidente da associação e conta como o esporte muda a vida dessas pessoas: “O esporte aumenta a autoestima, orientação das pessoas e ajuda nas relações sociais, como a amizade. Atendemos todas as idades. A atleta mais nova que temos hoje tem 17 anos”.

Adilson se refere à Adriane. A atleta concorda com ele e conta como sua vida se transformou após o encontro com o esporte. “O atletismo me ajudou bastante na locomoção. Para eu não parar, me identificar nos lugares, correr sem medo. Foi aqui que me encontrei”.

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Foto: Divulgação. Competição de atletismo com participação de atletas da Adevips.

Não apenas os jogadores de bocha, e praticante de atletismo como Adriane, se transformaram por causa do esporte. Na verdade, para a pessoa com deficiência, praticar qualquer modalidade representa um grande passo em sua construção social, como explica a psicóloga social formada pela UFSC, Paula Helena Lopes: “A participação coletiva que os esportes tendem a proporcionar, as relações, os vínculos e as expectativas pessoais de cada pessoa. Que, em síntese, podem vislumbrar e reduzir diversas questões psicológicas e ou de exclusão”.

Paula aborda, ainda, o despreparo de algumas instituições para a pessoa com deficiência: “A deficiência não limita, o que limita são as impossibilidades sociais perante os diferentes padrões de funcionamento corporal”.

Nesse cenário, se fazem tão importantes as associações como a ADEVIPS e líderes comunitários como Norma Boing. Eles criam e ampliam possibilidades que exploram a capacidade de todas as pessoas de se adequarem às situações que, socialmente falando, não lhe são atribuídas.

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Foto Divulgação: Adevips durante desfile de 7 de Setembro.

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