Arte e Cultura

Intimismo, comunhão e muita arte: Sarau por quem faz

Um caminho pelos encontros noturnos que movimentam o fazer artístico da região.

Texto: Silvio Matheus e Juliana Passos

Poesia e música num bistrô à beira-mar. Literatura e culto aos costumes e tradições dos pescadores numa praça movimentada. Manifestações artísticas diversas num hostel retrô. Engajamento político em uma ocupação de um Mercado Público. Além da clara inclinação para as artes, essas manifestações têm outra coisa em comum: são todos exemplos de saraus da região. 

Os saraus são ponto de encontro onde artistas se reúnem, na maioria das vezes de forma independente, para trocar experiências e conhecimentos, além de mostrar seu trabalho para o público e parceiros. Em Santa Catarina, tal manifestação tem se tornado cada vez mais popular.

Sarau da Tainha
Foto divulgação: Sarau da Tainha.

Pode-se apontar exemplos como o Sarau dos Incoerentes, em Porto Belo, que acontece toda última quinta-feira de cada mês, no Armazém Bistrô, e traz músicos de todos os cantos do país para apresentar sua arte num ambiente açoriano.

Também o Sarau da Tainha, realizado todo primeiro sábado do mês na Praça do Pescador da cidade de Balneário Camboriú, que não deixa o costume dos que vivem da pesca morrer. Apresentam poesia autoral, documentários, livros independentes e um caldo de peixe gratuito para todos.

Em Itapema, “O que será, que sarau?”, movimenta, de tempos em tempos, o Mercado Público Municipal num engajamento político por meio da arte. Fotógrafos, grafiteiros, intérpretes, poetas, escritores, músicos, pintores, desenhistas, se juntam formando um só organismo de contestação por meio das artes.

Origem

D. João, em 1808, trouxe a ideia que viria a se chamar sarau para o Brasil. O encontro seguia os moldes das festas fechadas da alta sociedade francesa. Literatura, música, vinhos e um piano de cauda era presença obrigatória nos primeiros saraus do país.

Apenas pessoas “bem-apessoadas”, ou seja, financeiramente privilegiadas, frequentavam os saraus. Por sorte, isso mudou. Hoje o encontro é para todos. Inclusive, a maioria deles funciona com um palco aberto, onde qualquer pessoa pode compartilhar sua arte.

A reunião, no Brasil, começou no Rio de Janeiro, mas tomou força na região nordeste. O nome sarau significa “baile noturno”.

Pelos olhos de quem vê

Saraus são encontros intimistas, que possibilitam uma troca de experiências importante para as pessoas, como explica a poetiza Any Spenassato: “O mais interessante, na minha opinião, é que, expondo seu conhecimento e sua sensibilidade, o artista pode inspirar ou motivar o público a propagar essa arte, e quanto mais pessoas aderirem esse espírito artístico melhor nosso mundo será, não é mesmo?”.

Sarau dos incoerentes
Foto divulgação: Sarau dos Incoerentes

Cantor e compositor de Itajaí, Vitor Soltau acredita que os artistas devem participar desses movimentos para fomentar a cultura da região. “Um movimento bonito que deve ser cada vez mais apreciado pelos artistas e comunidade. O sarau tem grande poder de mudança dentro de uma sociedade caótica em que vivemos”, declarou o cantor.

Vitor Soltau
Foto divulgação: Vitor Soltau

Thiago Furtado é poeta e estudante de Jornalismo. Ora expositor, ora espectador, ele tem bastante apreço pelos saraus e classifica esses encontros como alternativas para o consumo das produções: “A importância para o fomento da arte é imensurável, porque o artista produz já pressupondo o consumo por parte de alguém, a troca com as pessoas. Por isso que criar esses ambientes, essas alternativas que possibilitem a aproximação entre artistas e artistas, artistas e público, e sobretudo pessoas com pessoas, é uma alternativa fantástica”, afirma o poeta.

Thiago Furtado por Isadora Manerich
Foto Divulgação: Thiago Furtado pelas lentes de Isadora Manerich

Outro aspecto bastante abordado quando se fala dos saraus é a diversidade de manifestações que são acolhidas por esse espaço. O compositor e letrista Vê Domingos, de Itajaí, classifica isso de forma positiva. “A mistura de expressões que são abrigadas nos saraus enriquece a todos”, comenta o músico.

Vê Domingos
Foto divulgação: Vê Domingos

Ana Gonçalves, moradora de Itapema, concorda com a afirmação de Vê. “Essa mistura de liberdade de expressão nos ajuda a trabalhar a empatia ao outro. Sarau, para mim, é liberdade, nostalgia e comunhão de pessoas com o objetivo de passar sempre o amor adiante”, comentou. Ana costuma frequentar o “O que será, que sarau?”, que acontece de tempos em tempos em Itapema.

Sarau o que será que Sarau
Foto divulgação: Teteu Caetano em apresentação no “O que será, que sarau?”
Nem tudo são flores

Vê Domingos comenta um outro lado desses eventos. “Os artistas se viram obrigados a entrar numa cena que praticamente se desvincula do mercado no que diz respeito a pagamento de cachês, ou seja, você pode sair por aí mostrando seu trabalho se aceitar que ninguém pague por ele, o que pode ser bem visto por artistas em início de carreira, que sentem mais desejo que necessidade de se apresentarem”, afirmou.

Giane Cervi, Raissa Fayet, Hortênsia Vechi, Tito Lys, Betão parisi, Babbhy, Sergio Negrão, André Monari e O Rappa são exemplos de artistas que já trabalharam em parceria com Vê. Vale destacar a música intitulada “Auto-reverse”, de autoria do compositor de Itajaí, sucesso nacional na versão do Rappa.

Há muitos anos da estrada, o experiente Vê comenta que, apesar de servirem como uma vitrine interessante, os saraus enfraquecem, em sua opinião, o trabalho do artista: “De vitrine em vitrine você pode descobrir que na hora de exigir que seu trabalho seja reconhecido, outro manequim tomou o seu lugar. A cena é enriquecida com os saraus, porém, o artista é enfraquecido. É preciso que haja equilíbrio”, concluiu.

Já para a assessora de comunicação Vanessa Brasiliense os saraus não representam um enfraquecimento para o artista. “Quando vou a um sarau e vejo um músico que não conheço demonstrando seu talento, logo busco seu contato para prestigiar outras apresentações e consumir seus produtos. Como trabalho com cultura, sei como a contribuição do público é importante e, por isso, faço minha parte como produtora e também como consumidora de cultura”, justificou.

Mas, para a jornalista, falta união na classe artística: “sinto falta de mais expressividade artística na região. Sinto pouco fomento da cultura local e pouca união”, enfatizou Vanessa.

Cultura viva

O Sarau Afro-açoriano é um grupo que leva sarau no nome. Formado em 2012 por Adriana Benvenuti, Cilene Borba, Eri Cavalcante, André de Miranda, Carlinhos Ribeiro e Cezinha Silva, o Sarau Afro-açoriano trabalha com o objetivo de promover a música litorânea e popular de Santa Catarina.

Outra coisa que o grupo Sarau Afro-açoriano tem em comum com as festas noturnas é o resgate da cultura local. Eles acreditam que esse retorno às origens cumpre um importante papel que mantém vivo os dizeres populares e costumes. “Nós queremos levar para as pessoas uma arte que resgate suas histórias e tradições”.

Sarau afro-açoriano
Foto divulgação: Sarau Afro-açoriano

O casal de produtores culturais Douglas Gomes dos Santos e Deborah Garcia Boeira estão à frente de um projeto que mantém viva a cultura dos pescadores de Balneário Camboriú, o Sarau da Tainha. “O principal foco do projeto é disseminar o patrimônio imaterial, como a pesca artesanal, o ser pescador e tudo o que envolve este estilo de vida, por meio das produções literárias, musicais e outras manifestações artísticas”, comenta Douglas.

A iniciativa de criar tal movimento cultural no Bairro da Barra em Balneário se deu pelo respeito às origens da cidade: “a cidade nasceu na Barra, com o desenvolvimento, este local acabou esquecido. Hoje o município vive em volta da especulação imobiliária e do turismo, nós decidimos desenvolver algo que fosse contra essa corrente e resgatasse a cultura e os costumes dos moradores da região”.

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Foto divulgação: Douglas e Deborah à direita
Arte pelo social

Nascido em São Paulo, Douglas já desenvolvia alguns projetos culturais na região onde morava, uma periferia, o Bairro do Jardim Ângela, lugar conhecido por muito tempo como um dos bairros mais perigosos do mundo. A realidade deste bairro se transformou graças a mobilização comunitária e os trabalhos dos Coletivos Culturais.

A realidade social do bairro se transformou por meio da arte. Esse é mais um dos papéis fundamentais de reuniões como os saraus, contribuir para a diminuição dos índices de criminalidade apresentando um contra-turno para o jovem estudante e um espaço onde pessoas de qualquer idade possam extravasar as tensões do dia-a-dia.

No próximo dia 02 de setembro, o Sarau da Tainha comemora dois anos de atividades. Para o evento estão previstas mais de 12h de atividades culturais, todos os envolvidos no evento de aniversário, desde a equipe organizadora até os artistas, participarão de forma voluntária.

Arte rebuscada

O público e os artistas que frequentam o Sarau da Tainha, vão para casa com o gosto da cultura, literalmente, na boca: ” A proposta do Sarau é de relatar em todos os seus momentos a cultura da pesca, para isso temos uma rede de pesca com poemas. O público é incentivado a pescar um texto na rede e compartilhar a poesia no microfone. Nós distribuímos, ainda, um caldo de peixe para que o público saia do evento com esse gostinho”.

E é isso o que fazem, acima de tudo, os saraus da região. Juntam o contemporâneo com o antigo, e mantém sempre atual o ofício de quem construiu essa terra e essa cultura. Pescadores, açorianos, tropeiros, escravos. Todos esses são homenageados e “re-homenageados” a cada encontro independente de artistas e público, sensíveis o bastante para respeitar suas origens a ponto de reconstruí-la.

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Foto divulgação: Sarau da Tainha

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