Comportamento

Corrupção nossa de cada dia

Corrupção cotidiana é mais natural do que se imagina. Segundo pesquisa online realizada com 253 pessoas, 92% delas afirmam praticar algum ato corrupto no dia-a-dia.

 Texto e edição: Daiane de Souza, Anna Paola Paraná e Duda Cagneti

Falsificar algum documento, como carteirinha de estudante ou RG, ou até mesmo se passar por outra pessoa, usando documentos que não lhe pertencem. Comprar produtos falsificados, ou usar atestado médico sem necessidade. Pequenas atitudes diárias, comuns na rotina de muitas pessoas, se enquadram como corrupção. Sim, por mais que tentemos evitar, o ato ilícito de corromper não é de uso exclusivo da classe política, longe disso. A título de exemplificação, de acordo com uma pesquisa online realizada pela Agência Prefixo com 253 pessoas, de 28 de junho a 05 de julho de 2017, 92,1% dos entrevistados afirmam já ter praticado algum ato que possa ser considerado corrupto.

Eliel Freer-Sullivan, professor de música de 23 anos, se reconhece como uma pessoa corrupta. O ato ilícito mais praticado pelo jovem é dirigir acima da velocidade permitida, isso porque, de acordo com ele, a agenda apressada e os vários compromissos ao longo do dia o fazem estar sempre atrasado. “Apesar de não justificável, meus horários não coincidem com o tráfego, portanto, eu geralmente dirijo acima da velocidade permitida”, confessa.

Beatriz Pereira* tem 21 anos, trabalha na empresa da família e reconhece ser corrupta. A auxiliar administrativa admite sonegar impostos, emitindo “notas baixas” no escritório. O que a estimula a praticar tais atitudes é a tributação considerada abusiva no Brasil. Segundo ela, tal situação dificulta que pequenos empresários obtenham o mínimo lucro e possam manter as contas em dia.

“Se for falar de corrupção, somos todos corruptos. Ninguém foge, todo mundo vai para o inferno. Claro que alguns vão ter que queimar mais tempo, mas de uma maneira geral somos todos corruptos nas pequenas coisas”, afirma o antropólogo e professor do curso de Direito da Universidade do Vale do Itajaí – Univali, Ângelo Ricardo Christoffoli. Ele explica que a corrupção é algo natural, ao qual todos estamos expostos. Segundo ele, o simples ato de chegar atrasado à sala de aula e pedir ao professor que não dê falta, já se enquadra como ato de corromper. Outro exemplo recorrente é o uso de celulares em sala e aula, uma vez que há em Santa Catarina uma lei estadual que proíbe o uso desses aparelhos no ambiente escolar. “É uma questão cultural que estamos acostumados. Faz parte do cotidiano e já está na paisagem”.

corrupção definição
Definição de corrupção. Fonte: Dicionário Michaelis Online.

Eliel acredita que a corrupção já é algo natural na sociedade brasileira e que expressões como “o jeitinho brasileiro” legitimem tais comportamentos. “Por ser tão enraizado, é também difícil de ser combatido”, defende. Para Beatriz, a questão é histórica. “A maioria das pessoas pensa que é mais fácil fazer como todos do que fazer a diferença. Esperam que os outros ao seu redor mudem, para mudar. O que na verdade é completamente errado”. O antropólogo concorda que é preciso alterar esta situação, mas reconhece que são necessárias muitas reflexões e diferentes caminhos para atingir o resultado esperado.

Christoffoli explica que a corrupção faz parte do contexto brasileiro e é necessária para que a sociedade se movimente. “Eu não estou dizendo que é bom, que é imprescindível ou que eu concorde, mas é um contexto que está dado”. De acordo com ele, não é papel das ciências sociais, como antropologia e sociologia, julgar se uma situação está certa ou errada. Apenas analisar o que é apresentado. “Eu não estou julgando se é errado ou não é. Se é bonito ou é feio, ou que é ruim. É claro que a gente sabe que é ruim. Mas o papel científico é descrever, entender, explicar”.

Eliel e Beatriz não compactuam dessa opinião. Eles acreditam que a corrupção não é uma prática necessária para o funcionamento da sociedade. “Não. Eu não acho que pequenos atos de corrupção diárias são necessárias para a sociedade. Acho que qualquer ato de corrupção, apesar da magnitude, coopera em detrimento da sociedade. E nenhum deles, mesmo que motivados por economia, são justificados”, defende o professor de música. Já a auxiliar administrativa acredita que tais atitudes  erradas não devem passar despercebidas ou naturalizadas.

Punição

Todo ato de corrupção é passível de punição legal. Isso porque, de acordo com Christoffoli, a legislação brasileira é bastante específica em seus detalhes. A questão levantada pelo antropólogo, porém, é bem mais ampla: quem faz as leis, é incorruptível? Os legisladores estão preocupados em fazer leis justas, mas que os atinjam? E quem aplica esta lei, cumpre-a ao pé da letra? “Antropologicamente eu inverto a questão: porque temos o ato de cobrar do cidadão uma dinâmica que o Estado, as autoridades e o legislador também não cumprem?”. 54,5% das pessoas que responderam a pesquisa online acreditam que todo ato de corrupção, qualquer que seja, deve ser punido, enquanto 43,1% dos entrevistados pensam que somente os que prejudicam outras pessoas mereçam punição. De maneira geral, o antropólogo explica que o pensamento que predomina na sociedade pode ser explicado pelo famoso ditado popular “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. “O que nós fazemos cotidianamente não deve ser punido. Mas o que o outro faz, sempre”.

*O nome foi alterado para preservar a identidade da fonte.

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