Economia

The End: a morte das locadoras

Passamos grande parte do nosso tempo buscando praticidade para as mais variadas atividades. E isso encontramos quase sempre na internet. E é nela que está, mais uma vez, o concorrente mais ameaçador das locadoras: o streaming.

Texto e edição: Dieize Coimbra, Helena Moreira e Marília Cordeiro

“Sou apaixonado por filmes. Vivia em locadoras e, então, resolvi entrar para esse mundo há 15 anos”, conta Joel Espíndola, proprietário da Locadora Muller. O dono da locadora explica que com o passar dos anos precisou adaptar-se aos novos meios que surgiam para que estes não o prejudicassem.

Com um total de 8 mil clientes cadastrados no sistema, Joel comenta que 1,5 mil são pessoas que ainda usam deste recurso. Alguns vão uma vez por mês até a locadora em busca de um novo filme. Para ele, com o surgimento da Netflix, filmes no Youtube e TVs por assinatura, esse número é considerado satisfatório. No entanto, nos últimos oito anos, o número de clientes diminuiu muito e Joel precisou investir em novas opções  para que não continuasse a cair.

Uma das saídas encontradas pelo proprietário foi a criação de um espaço para lan house. Isso atraiu clientes, pois entravam para imprimir um documento e acabavam alugando um filme. Porém, o que manteve a locadora ativa foi a chegada dos jogos. “A locadora que não trabalha com jogos hoje pode fechar as portas, porque não consegue continuar”, diz Joel.

O que entristece Joel é ver que as pessoas estão procurando as “TVs gato” (clandestinas) para assistir aos filmes sem pagar nada. “Muitas pessoas deixaram de alugar os filmes aqui porque instalam essas ‘TVs gato'”, lamenta. Mas, como um apaixonado por filmes, acredita que se as locadoras se adaptarem não vão morrer, mesmo com tantas opções para assistir um filme novo.

Durante sete anos a locadora de Márcia* funcionou muito bem, obrigada. Seus clientes costumavam beliscar e tomar alguma coisinha, ela vendia salgadinhos e refrigerantes, como é de praxe na maioria desses locais. Com o tempo, isso não foi mais suficiente. Os frequentadores seguidamente comentavam: “podiam trazer uma cuca né?”; “humm, um cafezinho aqui seria ótimo”; “por que vocês não trazem uns salgados…”.

Mas havia outro fator importante. No prédio onde funciona o negócio de Márcia existe uma rádio que, na época, recebia muitos produtores e cantores. Essa era então a deixa para investirem no café. Boa parte do público utilizaria e, o mais importante, consumiria no local para conversar e se distrair. Uma sacada inteligente, porém, efêmera. Em meados de 2012, com a chegada da internet e seus atrativos, a locadora foi praticamente abandonada. Muitos filmes foram vendidos para alguns clientes. A partir de então, ela foi totalmente desativada.

O que resta dela hoje lembra uma ruína. Nos fundos do café, que hoje é o carro-chefe dos proprietários, existe um espaço destinados aos filmes nas prateleiras, hoje empoeiradas e esquecidas. Apesar de terem perdido um dos empreendimentos, ganharam um excelente ponto e conseguem se manter apenas com o café. “As mídias não baixaram, mas de fato os streamings são muito viáveis. O mundo não vive sem isso. Nós usamos em casa também e gostamos muito”, ressalta.

Na locadora que Rafael dos Santos gerencia há 16 anos, a história foi diferente. Apesar de também ter começado como locadora – hoje com mais de 20 anos de funcionamento e muito bem sucedida, por sinal – ele conta que o proprietário sempre demonstrou ter vontade de instalar um café.

Locadora

Essa ideia ajudou muito financeiramente, mas seu carro-chefe continua sendo a locadora, que tem estratégias para se manter nesse mercado dominado pela preferência esmagadora dos streamings. Eles também disponibilizam jogos de videogame. “É uma coisas que ajuda bastante. É um diferencial, o pessoal procura bastante porque tem um valor bem elevado, então é uma opção boa”. Além dessas, outras vantagens são as promoções e descontos para clientes que utilizam o crédito e as vendas. Mas tudo isso é complemento, o que realmente movimenta são os filmes locados.

Rafael dos Santos comenta:

 

Outra loja – desse mesmo proprietário – funcionava em um bairro. Aliás, era a matriz. Mas justamente por ficar em um bairro o público, era muito pequeno e o comércio começou a enfraquecer. Foi quando ele optou por manter apenas a que está localizada no centro, pelo próprio fluxo e também para se dedicar melhor a apenas um estabelecimento.

Nos dois últimos meses, o lucro vem caindo na locadora em que João Cândido trabalha. Apesar de fazerem promoções, ele relata que as locações diminuíram muito. “Eram em torno de 60 locações em dia de semana. Nos finais de semana, eram em torno de 80 a 100. Nos dias de hoje não passam de 70”. Mas estão cientes de que o motivo são os serviços de streaming. Ele lembra que alguns ainda frequentam a locadora em busca de lançamentos ou de filmes muito antigos. É importante frisar que a locadora está anexa a um supermercado de grande circulação. Esse talvez seja o trunfo que tem grande participação no movimento.

Locadora 2

Quem se deu bem com todo essa evolução do mercado audiovisual foi Gabriel Schneider. Ele foi quem mais tirou proveito da situação e aumentou sua super coleção, que hoje tem mais de mil artigos de mídia, entre DVDs, VHS e Blu-ray. “Nem lembro quando comecei a colecionar. Eu devia ter uns 2 anos de idade quando a minha mãe começou a comprar fitas VHS pra mim, e eu sempre achei incrível o funcionamento daquilo, colocava o filme e assistia o que quisesse, quantas vezes quisesse. Dai fui sempre comprando, gravava filmes da TV”, revela.

Ele lamenta o parcial desaparecimento desse segmento de lojas. “Hoje, com o streaming, quase não existem mais. Antes a gente ia – eu ainda vou, mas só para comprar – em locadoras e conversava com as pessoas, recomendava filmes, ficava horas olhando as capas. Isso é muito legal e está se perdendo”, compara. Mais do que hábito ou decoração, colecionar tem outras vantagens citadas por ele. “Ter sempre o filme ali, sem depender de internet ou, por exemplo, o Netflix tirar o filme. Além dos bônus, apresentações, material e capa, como todo fã gosta”, argumenta. Alugar  não é mais uma opção para ele, já que o valor da locação equivale à mensalidade da Netflix.

Dados

Em uma pesquisa realizada, 83,7% das pessoas que responderam o questionário não alugam mais filmes. Dos entrevistados, 95,2% utilizam serviços streaming. O questionário foi respondido por majoritariamente mulheres (58,1%) a maioria entre 18 e 23 anos. Como mostram os gráficos:

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*Nome fictício por escolha da fonte.

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