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Moda: aprisiona ou liberta?

Homens de saia, mulheres de terno. Cool é vestir-se com desprendimento e ousadia

Texto: Anna Paola Paraná, Daiane de Souza e Duda Cagneti 

Saia. Colar. Anel. Pulseira. Maquiagem. Nada fora do comum. Absolutamente normal. Diariamente essas peças são vistas em revistas, programas de TV, nas ruas e em casa. Mas em homens? Francisco Weiss, 21 anos, estudante de Psicologia, não passa despercebido pelos corredores. Rouba olhares. Motiva questionamentos. Ele se inspira nos artistas David Bowie e Lady Gaga. Pessoas que desafiaram e continuam desafiando o padrão convencional.

É preciso muita coragem, ousadia e determinação para enfrentar tantos padrões pré-estabelecidos e uma sociedade cheia de classificações. Pessoas como ele vêm questionando isso de uns anos pra cá e algumas marcas já enxergam esse público, lançando coleções sem gênero. As peças não são produzidas e pensadas exclusivamente para mulheres ou homens. Elas abrangem grande variação de tamanhos e numerações, para, assim, abraçar um maior número de pessoas.

Balduino Meneghelli é dono da marca de roupas “Badabauê”, conhecida em Balneário Camboriú por suas composições singulares e unissex. Começou a produzir roupas “diferentes” desde os primeiros semestres da faculdade de Moda. Como forma de propaganda e buscando mais visibilidade, ele faz algumas peças sem gênero, podendo assim emprestar e vender tanto para amigas quanto amigos. “Gosto de fazer peças assim por que acredito ser legal e interessante essa versatilidade”, explica.

Braian Schwertz, 20 anos, usa roupas femininas há alguns anos, já que sempre sentiu falta de mais diversidade e originalidade nas peças masculinas. O estudante de Publicidade e Propaganda acha importante marcas terem esse tipo de iniciativa. Ele acredita que isso ajuda as pessoas a se libertarem e ficarem mais à vontade para fazer uso do que realmente gostam. “A luta não para por aí, mas o apoio dessas marcas é uma mão na roda para combater o preconceito”, elogia.

Músico de Balneário Camboriú, Sérgio Lamarca usa acessórios “femininos” e roupas unissex em suas apresentações. Ele ressalta que um dos motivos é levantar e ajudar a bandeira LGBT no meio artístico. Mesmo sendo heterossexual, ele decidiu ajudar a causa e fazer uso das peças. Sérgio também desenha roupas e acessórios para marcas de amigos, inclusive para a “Badabauê”. Ele acredita que as peças sem gênero são uma tendência e que as indústrias de moda terão de se adaptar cada vez mais.

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Sérgio Lamarca busca defender e levantar a bandeira de minorias, como a LGBT (Foto: Janaina Gavassa)

Sociólogo alemão do século XIX, George Simmel foi docente na Universidade de Berlim e autor de “Filosofia da Moda”, entre outras obras. Dedicou a vida aos estudos, e é uma grande referência ao estudar Psicologia da Moda. Se uma sociedade está com problemas e conflitos, a tendência é que a moda mude cada vez mais rápido. Ela é uma fusão do indivíduo com o coletivo que o cerca, mas pode ser um grande limitador na liberdade e na qualidade de vida da população. Por isso ela é capaz de influenciar tanto e definir personalidades a partir do que as pessoas vestem.

“O avanço se faz necessário e a moda sempre colaborou muito para isso”, afirma o sociólogo catarinense Michel Nascimento. Mas ele alerta que o Brasil é um país que preserva muito a tradicionalidade, então essas mudanças devem acontecer de maneira gradativa. Guillermo Daniel, heterossexual, no auge dos seus 56 anos, já enxerga isso e só reafirma o óbvio: “Todos somos humanos e merecemos liberdade e conforto para fazer nossas próprias escolhas, sem sermos julgados o tempo todo por isso”. Para ele, essas peças são sinônimo de desprendimento, inovação, ousadia e até mesmo elegância.

Nem todos respeitam quem veste aquilo que lhes faz bem. Francisco vive isso diariamente e conta que infelizmente não se sente livre para usar o que quer. Ainda diz que é preciso muita coragem para enfrentar padrões e os desafiá-los. “Quando alguém escolhe usar o que quer, vai ter de encarar as piadas nas ruas e bater de frente com diversos tipos de violência”, alerta.

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