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Embarcações contribuem para a poluição das águas da região

Navios cargueiros, de passageiros, ferry boat e precariedade do saneamento básico contribuem para a poluição de um dos maiores rios de Santa Catarina, o Itajaí-Açu. 

Navios cargueiros e de passageiros, ferry boat e precariedade do saneamento básico geram poluição de um dos maiores rios de Santa Catarina, o Itajaí-Açu. 

Texto por: Dienifer Manica, Karine Amorim, Thais Lamin e Thayná Barretto

Considerado o rio mais importante do Vale do Itajaí, formando-se na cidade de Rio do Sul, o Itajaí-Açu é um canal por onde passam, principalmente, mercadorias e turistas. Ele é também a ligação entre os municípios de Navegantes e Itajaí. O rio Itajaí-Açu também abriga o principal porto da região e o segundo maior do Brasil em movimentação de contêineres, exportando materiais como carne congelada, açúcar, papel e madeira e importando, principalmente, pisos cerâmicos, produtos químicos, têxteis e motores. No entanto, a exportação possui papel de destaque: corresponde a 78% da atividade portuária.

Primeiro terminal portuário privado de Santa Catarina, a Portonave, localizada em Navegantes, é reconhecida internacionalmente pela sua prestação de serviço e produtividade.

A Empresa de Navegação de Santa Catarina é responsável pelas travessias entre o município de Navegantes e Itajaí. O ferry boat tem capacidade para motocicletas, carros, caminhões, bicicletas e pedestres, cada qual com um valor diferenciado, com operação 24 horas, de segunda a domingo.

Embora o Porto de Itajaí, o Porto de Navegantes e o ferry boat contribuam com a economia e facilitem a travessia entre os municípios, resta a dúvida: e com o meio ambiente, quem se preocupa? Sem ele, os portos e as embarcações não poderiam operar, pois dependem essencialmente do rio Itajaí-Açu para realizar suas atividades.

À medida que sobe o número de exportações e importações a poluição das águas também cresce. O aumento do número das embarcações de transporte marítimo, bem como da potência de seus motores, causa sérios danos ao meio ambiente. A falta de tratamento das águas acarreta perigo para a saúde pública, pois os resíduos das embarcações (tanto comerciais quanto de transporte de passageiros) elevam o nível de nitrogênio e fósforo, o que contribui para a proliferação de algas e diminui a quantidade de oxigênio. São as chamadas “águas residuais”.

Além disso, a qualidade da água também sofre impactos devido aos procedimentos de limpeza dos navios, gerando as “águas cinzas”. Estas têm origem na higiene pessoal, lavagem de roupas e de louças. Em geral, todo procedimento que utiliza água na embarcação. Elas são menos perigosas que as águas residuais, mas podem afetar drasticamente o meio, dependendo do número de tripulantes e passageiros. Quanto maior, mais poluição.

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Embarcações como o ferry boat, poluem o rio Itajaí-Açu. | Foto: Dienifer Manica

A água de lastro também é um dos poluentes. Ela serve para estabilizar o navio, ou seja, se um cargueiro está com menos peso do que a sua capacidade, tanques são enchidos com água em seus porões, para criar equilíbrio. Quando chega ao seu destino, o navio precisa descarregar a água, o que é chamado de deslastro. Isso contribui para a proliferação de espécies em ecossistemas que não são os seus, o que pode ocasionar até mesmo a extinção de espécies nativas. Como não há predadores naturais para os invasores, eles podem facilmente se reproduzir e acabar desequilibrando a teia alimentar do ambiente, prejudicando seriamente o ecossistema.

O engenheiro ambiental Marcelo Oliveira destaca o prejuízo que o deslastro causa ao meio ambiente. O principal é o desequilíbrio da fauna e da flora, que podem até mesmo ser extintas. “Cada habitat tem sua singularidade, assim como cada ser vivo tem suas necessidades e peculiaridades”, reforça. Nesse caso, a poluição causada por óleo e substâncias químicas são menos letais devido à capacidade de serem eliminadas parcial ou totalmente com o uso de mecanismos de combate aos poluentes.

A poluição por derramamento de óleo também é preocupante. O suboficial da Reserva Remunerada da Marinha do Brasil, Eduardo Mendes da Silva, explica que existe uma lei que se aplica a vários setores responsáveis em caso de derramamento de óleo nas águas, que estão sob responsabilidade da Marinha do Brasil. A autoridade aplica multa baseada na Lei de Tráfego Aquaviário, que trata da prevenção da poluição hídrica. A Fundação do Meio Ambiente de Santa Catarina (Fatma) aplica as multas baseada na Lei do Óleo, que é uma multa que custa, no mínimo, R$ 50 milhões. A penalidade da Lei do Tráfego Aquaviário é menos salgada: custa em torno de R$ 3,6 mil. “As empresas que tenham acesso aos rios e utilizem seus benefícios pagam uma terceira empresa, chamada Ecosorb, para fazer a contenção e remoção em casos de derramamento de óleo”, enfatiza o suboficial.

A coordenadora do curso de Oceanografia da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), Kátia Naomi Kuroshima, esclarece que os problemas de qualidade da água podem  estar associados ao tráfego de embarcações: lançamento de combustíveis e dos efluentes de suas atividades (cozinhas e banheiros), hidrocarbonetos (muito resistentes e que levam tempo para se decompor) e tintas anti-incrustantes, que podem liberar metais na água e intoxicar os organismos ali presentes. “Além disso, o deslocamento e o movimento das embarcações podem contribuir para levantar os sedimentos do fundo, rico em substâncias tóxicas”, afirma Kátia.

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Substâncias químicas liberadas pelas embarcações poluem o rio Fonte: Divulgação 

A poluição de um ambiente tem relação com as atividades realizadas em seu entorno. A bacia do rio Itajaí-Açu é muito grande e abrange atividades industriais, pesqueiras, metalúrgicas, têxteis e agrícolas. Seus efluentes afetam diretamente a qualidade da água. Uma vez que a substância é constatada no meio hídrico, há necessidade de verificar o seu comportamento, estabilidade química, associação com outros organismos ou substâncias, o que leva ao aumento ou diminuição de sua toxicidade. “A dinâmica do ambiente também influencia este comportamento, como variação e salinidade, temperatura, vazão, precipitação e maré”, conclui a coordenadora.

O engenheiro sanitarista e ambiental da Fundação Municipal do Meio Ambiente de Itajaí (Famai), Victor Valente Silvestre, infere que o maior agente de poluição hídrica é a falta de saneamento básico e infraestrutura de tratamento de efluentes das residências localizadas nas proximidades da bacia do rio Itajaí-Açu. Por ser uma das maiores bacias hidrográficas de Santa Catarina, a falta de tratamento dos despejos domésticos nos municípios que abrange, como Rio do Sul, Blumenau e Ilhota, impacta diretamente na qualidade da água do rio. “No entanto, não podemos desconsiderar a presença de indústrias localizadas próximas ao rio e que potencialmente possam lançar seus efluentes em desacordo com a legislação vigente”, alega o engenheiro.

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