Economia

Brechós: a união criativa entre moda e economia

A compra de roupas em brechós tem sido uma saída para aquelas pessoas que querem economizar e encontrar peças diferentes e excêntricas

A compra de roupas nesses estabelecimentos tem sido uma saída para quem quer economizar e encontrar peças diferentes e excêntricas. 

Texto por: Dienifer Mânica, Karine Amorim, Thais Lamin e Thayná Barretto.

É incrível a ideia de dar nova vida a uma roupa seminova que não nos agrada mais. Pelo simples fato de ser econômico e nos fazer ter a oportunidade de encontrar peças únicas. Além disso, o que não nos serve mais certamente servirá para outra pessoa e vice-versa. Segundo alguns relatos históricos, o brechó foi “criado” por um homem no século XIX que revendia roupas e acessórios de segunda mão na cidade do Rio de Janeiro.  Ele se chamava Belchior.  Inicialmente, todos titularam seu negócio como Casa de Belchior. Com o tempo, e com a popularização desta forma de comércio, o nome se adaptou para Brechó. E assim ficou. Mas não foi só o nome que sofreu mudanças. Os brechós vêm se renovando e ganhando forças a cada dia.

Cida Feijó, 54 anos, montou seu primeiro brechó há 18 anos. Em setembro de 1999, ela se recorda que juntou todas as suas coisas, até mesmo roupas de seus filhos, separou o que não queria mais e colocou para vender na sala de estar da sua própria casa. “Eu passei por algumas dificuldades e decidi fazer algo para reverter aquilo”, revela.  Hoje ela já conquistou um espaço próprio em Itajaí, só para a loja, e possui uma clientela fiel no Bicho de Seda.  O local é grande e a variedade de peças é maior ainda. Roupas, acessórios e sapatos de todos os tipos. E o melhor de tudo, o preço sempre muito acessível. Seus trajes variam de R$ 3 a R$ 30. Há algumas peças que são consignadas, e acabam saindo um pouco mais caro, porém nada fora do padrão “precinho camarada”.

Apesar de a maioria de seus vestuários serem seminovos, se engana quem acha que somente pessoas economicamente desfavorecidas frequentam a sua loja. “Eu também atendo um público muito chique. Inclusive, gente que vem de Itapema, Balneário Camboriú e Barra Velha só para comprar comigo”, garante. Cida acrescenta que além de economizar, seu freguês também anda melhor vestido. “Você vai em lojas de departamento e lá é tudo igual e tudo caro. Aqui, ou em brechós, no geral, só encontram peças exclusivas e por um ótimo preço”, compara. Além disso, seu brechó possui inúmeros produtos de marcas renomadas e famosas.

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Blusa de tricô e calça jeans flare. Cada peça sai pelo valor de R$ 30.         Foto: Karine Amorim

Garimpamos o Bicho de Seda e encontramos muitas coisas legais. Escolhemos dois looks preferidos da moda. Cada visual saiu por R$ 60. O primeiro é composto por uma blusa de tricô azul (R$ 30) e uma calça jeans flare. Em algumas lojas, só as blusas de tricô podem chegar a custar R$ 100. O segundo look é uma composição mais despojada: uma blusa jeans (R$ 30) sobreposta em um macacãozinho rosa, com detalhes no busto (R$ 30). Em outros locais, apenas a compra da camiseta jeans poderia sair por R$ 120. A lojista defende a compra em brechós e conta que aprendeu com sua mãe que “a água só não tira nossos pecados, mas tira a sujeira das roupas para que possam ser usadas novamente”.

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Camisa jeans e macacão. O conjunto sai por R$ 60.                                       Foto: Karine Amorim

Foi nessa mesma linha de raciocínio que Francisco Oliveira, 23 anos, criou seu brechó. Porém, Chico não tinha verba suficiente para uma loja física. Por isso, criou um brechó online. A partir da rede social Instagram nasceu o Virô Brechó, há um ano. “Eu não tinha dinheiro para montar o espaço, então uni a ideia de criar a loja com o que eu mais gostava: a internet”, revela. Ele também conta que, no início de tudo, pegava coisas suas e de sua mãe e colocava para vender. “Mas hoje eu compro em brechós, onde tenho muitas opções. Eu garimpo, encontro as melhores peças e revendo”, complementa. Em sua concepção, o preço mínimo deve ser R$ 15 e o máximo R$ 100, não mais que isso. Com mais de 3300 seguidores, o Virô Brechó atende uma média de 40 clientes por mês, e inclusive envia peças para todo o Brasil. “Só cobro o valor do frete e o preço da roupa”, assegura.

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Virô Brechó faz sucesso no Instagram.                                                               Foto: Print Screen

Hoje Chico se sustenta com a renda que ganha de seu próprio negócio. “Não tenho emprego fixo, o brechó ocupa muito o meu tempo”, afirma. O rapaz já estudou Moda e Publicidade e Propaganda na Universidade do Vale do Itajaí (Univali), mas não chegou a concluir, pois tem o plano de se mudar para Londres em 2018 e estudar moda por lá. Como um bom entendedor do assunto, ele se tornou contra a compra de roupas em lojas fast fashions. “Eles criam muitas tendências e acabam fazendo a gente desapegar de peças novas muito rápido. Tudo que está no brechó para mim é um grande tesouro e sempre estará na moda”, observa. Ele não compra mais em lojas tradicionais, somente em outros brechós e em pequenas marcas que fabricam suas próprias peças. “No brechó eu encontrei meu estilo próprio de ser. Sempre gostei de peças únicas e lá encontro tudo isso”, conclui.

Além do Instagram, @virobrecho, Chico possui um site (www.virobrecho.com) super despojado, onde dá dicas de fotos, tendências, looks do dia e muito mais. Como ele mesmo diz, é a produção de “moda consciente para pessoas elegantes”.

Alícia Büchele, 19 anos, proprietária do Sonho Brechó online, também conta como surgiu a ideia de criar um brechó: em uma “brincadeira” a atitude se tornou seu modo de trabalho hoje em dia. “Há um tempo atrás resolvi dar fim em algumas peças minhas, então publiquei em um grupo de rede social, mas infelizmente não deu muito certo. Por pressão de algumas amigas, participei de um evento de brechó, mas não vendi muita coisa novamente, e por incrível que pareça isso me motivou. Tive a ideia de publicar as roupas em algumas redes sociais, e acabou dando muito certo”, recorda.

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Brechós online são os queridinhos do momento.                                                  Foto: Print Screen

Há cerca de um mês e meio, Alícia tem seu brechó online no Instagram @sonho_brecho. A empresa pode ser recente, mas a responsabilidade com o seu trabalho é imensa. A jovem empreendedora conta que todas as roupas divulgadas em seu brechó online são selecionadas minuciosamente para que o consumidor se sinta feliz. “Todas as peças passas por uma avaliação, e nada é postado se estiver de má qualidade”, disse. Alícia ainda ressalta que há pessoas que têm um certo receio em usar roupas de brechós. “O valor das roupas é uma boa chamada, porém há pessoas que sentem um certo desconforto em usar peças de roupas já usadas, ou que acham que o estado de preservação da roupa está ruim”, admite.

A Professora Luciane Ropelatto, do curso de Design de Moda da Univali, prefere comprar roupas em outros locais, não em brechós. Mas para quem gosta de usar peças sustentáveis, a compra nos brechós é uma boa saída. “Com a onda de ‘consumo desacelerado’ o brechó é uma das alternativas favoráveis para consumir menos”, recomenda. Mas Luciane ressalta que ainda há pessoas que sentem um certo tipo de apreensão com as roupas já usadas, pois também não sabem a procedência das peças. “Ainda existe certo receio em comprar roupas em brechós, pois há lugares onde as roupas são velhas, são mal organizados e o cheiro é de mofo. A dica para esses lugares é que na vitrine, por exemplo, os looks sejam bem arrumados”, orienta.

Christiane Thorud nasceu em Florianópolis, mas vive no exterior desde seus vinte e poucos anos. Ela já morou na Espanha, Bélgica, Noruega e agora reside oficialmente em Portugal. Christiane conta que os brechós não são tão comuns nos países onde residiu, pois nesses lugares o hábito, quando alguém quer se desfazer de algumas peças de roupa, é colocá-las em caixas e deixar em frente à sua residência para que alguém necessitado possa pegar. “Os brechós são comuns em igrejas, onde são vendidas roupas e objetos para fins beneficentes”, revela. Aqui no Brasil ela se encanta com a variedade de brechós e com a qualidade das roupas encontradas. O grande segredo para encontrar peças em bom estado, bonitas e com aquele precinho amigo é garimpar e pechinchar.

Moda sustentável X Brechó

Um conceito que está em alta e que poucos conhecem é o slow fasion. Segundo o site Review Slow Living a moda slow representa todas as coisas “eco”, “ética” e “verdes” em um movimento unificado. Esse conceito questiona a ênfase do fast fashion – moda rápida/ um padrão de produção e consumo, no qual os produtos são fabricados, consumidos e descartados. Então, seguindo a esse raciocínio o slow fashion está interligado ao novo, e preocupado com a manutenção das roupas e com o “menos é mais”, removendo a imagem da moda como algo descartável.

A estilista e produtora de moda, Mariana Galm, 25 anos, é adepta a esse movimento e o pratica desde criança, mesmo sem saber que era um movimento importante para a moda sustentável. “Com onze, doze anos, eu já me interessava por esse ciclo de reciclagem entre as pessoas, proporcionando o slow fashion de forma saudável, reaproveitando as roupas que eu tinha e trocando elas com amigos e desconhecidos”, enfatiza. Mariana frequenta há muito tempo um brechó específico e salienta que muitas vezes ela leva roupas que ela mesma customiza e confecciona.

A produtora de moda evidencia que atualmente o consumo de roupas e tecidos está desgovernado, utilizando mais do que o meio ambiente proporciona, e com isso, afetando a natureza. Além disso, o fast fashion utiliza muito o trabalho escravo, principalmente de mulheres e crianças. “A moda sustentável visa reutilizar, reciclar e consumir com consciência. Comprar de comércios locais e independentes e confecções conscientes, além de valorizar as peças que já temos, ao invés do consumo obsessivo e compulsivo. Também é importante ajudar as pequenas marcas e desbancar os grandes departamentos, que são os maiores causadores de problemas que a fast fashion proporciona”, acentua.

Mariana possui um grupo de brechó no facebook para troca e vendas de roupas, o grupo se chama: Brechó e Achados. Ela conta que está feliz com a ascensão do grupo, que atualmente possui 241 membros. “Os brechós hoje se modernizaram e muitas meninas usam diversas redes sociais pra trocar e vender entre si peças de roupas, sapatos e outras coisas. Esse é começo da consciência saudável sobre o vestuário na nossa geração, que desde cedo foi acostumada com o hábito de uso e descarte fácil de peças com menos qualidade, só que atraente pelo preço e rotatividade de tendências”.

Por fim, ela dá algumas dicas de moda para fugir desse consumo desenfreado de roupas e ainda assim estar bem vestido. Garimpar pelos brechós de sua cidade é a primeira das dicas, e também reservar um bom tempo para pesquisar as peças e os preços, pois nem sempre você achará as melhores peças logo de início. Também procurar peças do seu tamanho e avaliar se vale a pena reformar. Outro quesito é analisar se a peça tem manchas, que podem ou não serem removidas com a ajuda de algum solvente, e também se ela não está rasgada demais ou com falhas que podem ou não ser consertadas facilmente.

 

 

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