Comportamento

Viagem do amor: brasileiras encontram sua cara metade do outro lado do mundo

Em um mundo cada vez mais conectado, nada mais natural do que encontrar o amor a milhares de quilômetros de distância

Texto: Kerolaine Rinaldi e Victória Severo

“Confesso que não são poucas as vezes que observo ao meu redor e tenho dificuldade de acreditar que estou do outro lado do mundo”, diz A.S. Ela conheceu A.V, o marido, pela internet, no bate papo da UOL, 8 anos atrás. Conta que se assustou quando ele a pediu em namoro já na primeira conversa. “Chamei ele de louco, claro”, lembra bem humorada.

Ele é brasileiro, mas já morava em Riyadh, capital da Arábia Saudita, há muitos anos e ela em Itapema, Santa Catarina. Logo depois de um mês de conversa, ele já a pediu em casamento. Disse estar completamente apaixonado e que a queria como esposa. “Chamei ele de louco pela segunda vez”. Eles concordaram então em um namoro a distância. Não foi fácil, lembra, a distância era muita e os diferentes fusos horários dificultavam ainda mais.

Seis meses depois, A.V veio ao Brasil, conheceu a família dela, passaram uma semana em um hotel em Florianópolis e, finalmente, noivaram. Mas, logo veio a difícil despedida, “Chorei muito, não queria que ele partisse”. Durante um ano continuaram a namorar a distância enquanto ela tentava conseguir um visto para poder ir ficar com ele.

Conseguido o visto, A.S pegou o avião e quando chegou ao aeroporto de Riyadh, ele estava lá segurando um buquê de rosas vermelhas. “Minhas lágrimas rolaram”, lembra emocionada. Se acostumar com o ambiente novo levou um pouco mais de tempo, já que a cultura saudita é muito diferente da nossa. Lá mulheres não podem dirigir e precisam usar a abaya (uma vestimenta típica, longa que cobre o colo e braços). Mas depois de 8 anos, ela já se acostumou com quase tudo. “Hoje sei que as diferenças existem para serem respeitadas e assim vivemos em perfeita harmonia. Cada um sendo feliz do seu jeito, independentemente da cultura .”

Mas nem todo mundo se adapta tão bem. De acordo com a mestra em psicologia social e pesquisadora de relacionamentos interculturais, Flávia Pasqualin, nem todos se adaptam facilmente com a mudança cultural. “O encantamento passa e começa a vida de fato; saudades da comida do país de origem, dos familiares, não dominar o idioma local, o que torna o imigrante extremamente dependente do parceiro ou da parceira, a mudança climática, dentre tantas outras mudanças e perdas podem levar a pessoa a depressão”, declara Flávia.

Quem também tem uma história de relacionamento intercultural é a jornalista Michelle Bastos. Ela conheceu o marido na Grécia, em 2013, quando foi contratada como redatora de português/inglês. Ele trabalhava na mesma empresa como redator de árabe/inglês. Se conheceram no primeiro dia dela e quinze dias depois já estavam namorando. Mas depois de quatro meses o visto de permanência acabou e ela precisou voltar para o Brasil. Durante o namoro, foram muitas idas e vindas, eles chegaram a terminar, achando que não conseguiriam morar no mesmo país. Até que, finalmente, ela conseguiu outro contrato e visto, desta vez um pouco mais prolongado.

Quando Michelle finalmente conseguiu o visto de permanência mais longo, eles decidiram que era hora de falar com a família dele. No Islã não existe a tradição do namoro, apenas o noivado e logo em seguida o casamento, por isso a família dele ainda não tinha conhecimento do relacionamento. Após informar a mãe, eles foram para o Egito, país de origem dele, onde se casaram e logo depois retornaram a Atenas. Quando o visto de ambos terminou, decidiram ir morar na casa da família dele.

Eles estão casados há dois anos e meio, mas isso é do primeiro casamento. Até agora, eles já casaram três vezes, na primeira é uma cerimônia chamada Ourfy, feita com um advogado que tem valor religioso e social, mas não legal. O segundo foi o casamento civil, no Ministério da Justiça do Egito. E o terceiro foi na Embaixada Brasileira, onde apenas converteram os documentos para que fosse validado aqui.

Michelle teve mais dificuldades para se adaptar. A família a recebeu muito bem, ajudavam no que fosse preciso e até mesmo a presenteavam, mas ela sente que eles não a levavam a sério. “Como se eles tivessem certeza que uma hora ele ia separar de mim e casar com uma egípcia para ter filhos e fazer tudo como manda o figurino”, lembra ela. Como seu marido não é religioso e por ter morado durante muito tempo no Ocidente, eles sempre viveram como um casal ocidental. Porém, quando se mudaram, ele ficava com vergonha dos amigos e familiares.

No Egito o que se espera do cônjuge é extremamente diferente. Lá a vida social fica mais restrita aos homens. Ela chegou a pensar que não conseguiria trabalhar fora e manter a independência.  Como eles moravam em um bairro de locais, ela acabou sofrendo muito assédio e, por não ter domínio da língua, não conseguia sequer ir na farmácia sozinha. Michelle adora a comida egípcia, mas conta que foi difícil se adaptar. “Acordar e comer de café da manhã pimentão frito, berinjela com alho e pão com feijão, por mais que seja uma delícia, não é fácil de incorporar a sua vida cotidiana.”

Ela tem um blog de viagens e recebe muitas mensagens de mulheres que como A.S conheceram algum árabe pela internet. Ela diz que existe a possibilidade de algumas histórias realmente serem sérias, mas alerta que a maioria se trata de golpes. Ela tenta alertar ao máximo, mas geralmente quando escutam que a paquera pode ser um engodo elas ficam com raiva, conta ela.

Flávia explica que o mais comuns desses golpes aplicados por homens pela internet é o pedido de dinheiro com desculpas para comprar presentes e passagens aéreas. Ela explica que se o rapaz for árabe ou muçulmano, ele jamais irá pedir dinheiro para uma mulher, ainda que este homem não seja um religioso praticante. “Aquele que vive sob esta cultura, tem por conduta pagar para a mulher e não o contrário”, explica a pesquisadora.

Felizmente para A.S sua história teve um final feliz, o casal tem uma filha de seis anos e um menino de dois meses. “Agradeço muito a Deus e ao ‘Santo UOL’, por tê-lo colocado no meu caminho. É um super esposo e um pai maravilhoso.”

 

 

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