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Rua Canelinha: metade Brasil, metade Haiti

Um pedacinho de Balneário Camboriú, no bairro dos Municípios, inspira união e harmonia

Texto e edição: Anna Paola Paraná, Daiane de Souza e Maria Eduarda Cagneti

Dentre os 17 bairros existentes em Balneário Camboriú, um é conhecido pelas ruas que levam nomes de cidades catarinenses. Ele se estende da marginal Oeste até a 6ª avenida, e é dentro do bairro dos Municípios que a rua Canelinha se encontra – um pouco brasileira, um pouco haitiana. Ela ficou conhecida como a rua dos haitianos de uns 10 anos para cá. Durante a intensa imigração deles, a Canelinha acabou sendo a escolha de muitos.

Dona Hilda Monteiro me recebeu em sua casa enquanto ela e seu esposo comiam pinhão e preparavam o almoço. Ela veio de Anita Garibaldi há 32 anos e desde então mora no mesmo lugar, na parte mais movimentada da Canelinha – que dá ligação entre a 5ª e 6ª avenida. Na época, eram pouquíssimas casas no bairro e praticamente tudo era vegetação. A família Monteiro viu a cidade e a rua se desenvolverem com o passar dos anos. Hilda conta que o avanço chegou bem antes para outras regiões do bairro dos Municípios, mas que aos poucos a Canelinha passou a receber mais moradores e o comércio.

Ela foi construindo sua casa aos pouquinhos. Trabalhava como diarista. Certa vez, resolveu alugar um dos quartos e acabou dando certo. Decidiu investir seu tempo e dinheiro nisso, e hoje possui seis quitinetes dentro do terreno – sendo cinco alugadas por haitianos, inquilinos esses que ela faz questão de dizer que ama e confia. Mary Marthe, haitiana que chegou no Brasil há pouco mais de três anos, aluga uma quitinete da Hilda há um ano. Considera a Canelinha um lugar muito tranquilo e bom para se viver. Acorda cedo, vai a uma academia perto de casa, trabalha no período vespertino e a noite relaxa ao lado da família. Uma rotina de calmaria que, segundo ela, só dá certo por ter sua moradia bem localizada.

A rua conta com mercados, salão de beleza, academia de artes marciais, lanchonete, gráfica, escritórios de engenharia, algumas oficinas para automóveis e três igrejas. Uma delas é pensada especialmente para os haitianos, com cultos em francês e crioulo. Besson Dieulit é o pastor, e apesar de entender muito bem o português, ainda não se expressa na nossa língua com tanta facilidade. Os cultos são aos domingos. Haitianos de toda a região se direcionam para a Canelinha, onde vivem momentos de confraternização e espiritualidade. Além disso, há ainda um dia especial para os jovens, e outros reservados para estudos bíblicos e momentos de oração, o que acaba por movimentar a igreja e a rua durante toda a semana.

Mesmo com tamanha tranquilidade e espírito acolhedor, a rua também enfrenta certos problemas. Sendo majoritariamente residencial e com muitas crianças, alguns moradores se preocupam com casos de violência que recentemente estão se tornando mais comuns, pelo menos em ruas bastante próximas. É o caso de Evans Michel, haitiano que reside com sua esposa e as duas filhas na Canelinha. Apesar de gostar da rua, se preocupa com algumas questões e deixa claro que, se tivesse a oportunidade, escolheria outra região para morar.

Mas por enquanto Evans vive por lá, e suas filhas, que inclusive já nasceram no Brasil, aprendem a andar de bicicleta pela rua e brincam no parquinho colorido e cercado por árvores que a Canelinha oferece. A propósito, o trânsito de bicicletas por lá é intenso. Em certos horários do dia, muitos são os carros estacionados ao longo da estrada, mas somente bicicletas em movimento. Crianças soltando pipas, jogando bola, e cachorros por trás das grades latindo incessantemente ao passar.

Os cachorros de rua de semblante triste e os pombos também estão presentes pelo caminho. Além deles, muito lixo, entulho, e várias partes da calçada estão quebradas, aglomerando ainda mais plásticos e sacolas. Alguns terrenos a venda que especulam valores e muitos idosos encostados no muro simplesmente pelo prazer de conversar e observar. Um pedacinho da cidade que parece se dividir entre duas nações, mas ao mesmo tempo caminha unida, com moradores que buscam menos violência, mais policiamento, e paz para manter o espaço das crianças, a comodidade dos adultos e o sossego dos idosos.

Confira fotos da rua e um vídeo de Hilda Monteiro contando um pouco da sua história na Canelinha:

 

Fotos e vídeo: Anna Paola Paraná

 

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