Comportamento

Está na hora de cortar o cordão umbilical

Relacionamentos que parecem saudáveis para um dos lados, nem sempre valem para os dois

Texto: Alexsandra Souza, Kamila Dias e Suelen Oliveira

“Querida mamãe. Eu sei que seu sonho era de que sua filha seria uma princesa, se casaria com um homem bom e que te daria um ou dois netos. Mas não posso mais aceitar essa ideia. Você nunca gostou das minhas amigas. Você nunca gostou dos caras com quem saí. Se eu tirava 9 na escola não era suficiente e se tirava 10 não fiz mais que minha obrigação. Eu só queria praticar um esporte, mas o basquete era muito violento e eu deveria seguir os seus passos e ir jogar futebol. Eu decidi estudar e não trabalhar na minha adolescência e todos os dias você indiretamente me dizia que eu devia ajudar a pagar as contas de casa. Mas quando resolvi ir morar sozinha para estudar, trabalhar e formar minha vida, você usou de chantagem emocional todos os dias fazendo com que eu me sentisse culpada por ter tomado essa decisão.”

Relacionamento abusivo é um assunto que está em alta. Mulheres apanham diariamente, sofrem caladas. Porém, muitas vezes esse tipo de ação não deixa marcas físicas, mas psicológicas. E quando isso acontece em uma relação entre pais e filhos? Quem deveria te ajudar, está ali machucando de alguma forma.

O relacionamento abusivo tem relação ao quanto pais e mães usam dessa condição de poder para subjugar os filhos menosprezando eles ou fazendo-os seguirem somente sua vontade a custas de castigos físicos ou de violência psicológica, como xingamentos e chantagens. A professora de psicologia Marina Corbetta explica que essa forma de relação pode trazer muitos prejuízos, desde quadros de ansiedade e depressão ou situações mais sérias como psicoses até problemas de autoconfiança, insegurança, desconfiança, dificuldades em relacionamentos futuros.

“Eu não tinha muita noção do que era um relacionamento abusivo até conhecer o coletivo Jornalismo sem Machismo do curso de jornalismo da UFSC”. A estudante de jornalismo da UFSC, Gisele Cristiane Bueno, 22 anos, sempre participou das rodas de conversa propostas pelo coletivo. Os debates sobre o assunto eram sempre recorrentes em relação aos relacionamentos mais amorosos do que familiares. Foi quando ela começou a ouvir outros relatos de meninas falando sobre suas mães e começou a se identificar.

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Arquivo Pessoal: Gisele e sua mãe


“Eu morei com minha avó até os 12 anos e eu percebi que… – claro talvez eu tenha amadurecido antes da época – e eu percebia que esse amadurecimento precoce nem sempre era uma coisa positiva. Porque caía sobre mim uma responsabilidade que às vezes eu ficava pensando em porque eu como adolescente tinha aquela responsabilidade e outras meninas da mesma idade que eu não tinham. Minha mãe sempre teve problemas financeiros, nunca soube se planejar. E essa responsabilidade acabava caindo sobre mim. Meus pais eram separados, então eu tinha que ligar muitas vezes para ele e pedir que aumentasse a pensão ou ligar para meus tios e emprestar dinheiro. Coisas que uma criança não teria que se preocupar. Eu sabia que eu não tinha que me preocupar com aquilo, que quem deveria fazer isso era minha mãe”.

Para ela, esse relacionamento foi consequência de uma sociedade machista que sobrecarregou a mãe. “E eu penso muito nisso porque eu não quero que futuramente isso aconteça com a minha filha, se eu tiver”. A mãe acabou sobrecarregada com as responsabilidades quando seu pai abandonou a família. E com isso surgiram os julgamentos, o que acabou caindo sobre Gisele.

O problema da sociedade e do aprendizado que se passa desde cedo é a romantização dos relacionamentos abusivos, tanto amorosos como familiares. Essa ideia de que família é tudo que a gente tem é uma construção social. “Porque no momento em que você resolve quebrar essa corrente do relacionamento abusivo, as pessoas vão te questionar, irão colocar em dúvida a sua decisão. E isso é doloroso demais, porque você está lidando com seus sentimentos e o sentimento de outra pessoa”, reflete Gisele.

A ideia que aprendemos desde cedo é de que nossos pais cuidam de nós e depois cuidamos deles. O problema é que muitas vezes o tratamento e as exigências de afeto são possessivas. A sogra tem ciúmes da nora, acha defeito em tudo. Complica tudo. Porque tem medo de que o filho “esqueça” ela. Ou as chantagens são como “você prefere seu pai do que eu”. Quando se trata de família a ideia deveria ser de que não existe um medidor de amor. Não é uma disputa para ver quem é o melhor ou o pior.

G.S*, 15 anos, acredita que não falar sobre o assunto é melhor, já que muitas pessoas dizem que é coisa de adolescente que os pais ficam no pé. A mãe às vezes tem momentos de raiva e geralmente nesses momentos ele acaba sendo o único presente em casa. “Ela diz que a culpa é minha por tudo que acontece. Que eu deveria escolher ela do que meu pai. Às vezes fala que minha obrigação é contar tudo que ouço meu pai falar para ela. E eu sei que da mesma forma que não falo para ele sobre as coisas dela, não falarei para ela”.

A cobrança em relação a trabalhar está presente sempre. Ele explica que, infelizmente, por conta da idade, não aceitam empregá-lo, nem nas lavações eles estão aceitando direito. Então, o que acaba fazendo é entregar panfletos. “Não é muito, mas ajuda quando eu quero ir comer algo com meus amigos, ou comprar algo”. Em muitas situações, como brigas entre os pais, ele se sente desconfortável porque de alguma forma acaba sempre caindo algo sobre ele. “Ela acaba sempre achando um jeito de fazer chantagem emocional. Parece coisa boba, nem sei se chega a ser um relacionamento abusivo, mas as vezes me sinto sufocado”.

Indicação de Leitura: Eu, minha mãe e nosso relacionamento abusivo

Indicação de filme: As virgens Suicidas.

*Fonte solicitou que não fosse divulgado o nome.

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