Cidades Política

Vida nas ruas: desvios de percurso

A população de rua vem crescendo, mas os esforços para mudar isso precisam crescer também. Em Brusque e Navegantes alguns serviços já estão sendo prestados e outros em fase de aprovação.

Texto e Edição: Dieize Coimbra, Marília Cordeiro e Victória Severo

Alcoolismo. Brigas familiares. Problemas com vícios. Solitário, Seu Carlinhos, como é conhecido, 44 anos, trabalhou durante um tempo como vendedor ambulante.  Acabou se envolvendo com drogas. Dependente, foi internado  num centro de recuperação. Não teve uma “boa recepção” quando retornou. Voltou para a rua. Ele pretende sair dessa situação. Tem esperança de arrumar emprego, melhorar de vida e mostrar para a família que depende apenas da sua própria força de vontade.

Sete anos de casamento e dois filhos. Esse é o resultado da união de Leandro Luís Leike e Franciele Formento. Um menino de seis anos e uma menina de 11 meses que ficam na casa dos familiares. O motivo? O casal é morador de rua. Não porque querem, mas porque o destino lhes pregou uma peça.

Franciele é natural de Joinville e viveu na sua cidade até a vida adulta. Leandro nasceu e mora em Navegantes. Em Barra do Sul, um dia resolveu ir pescar e conheceu aquela por quem se apaixonou. Ela estava sob os efeitos do álcool, não sabia ao certo o que fazia. O convidou para morar na sua casa. Isso até sua mãe descobrir e expulsá-los dali. E ela foi. No outro dia já estava em Navegantes ao lado de Leandro, porém descobriu que sua casa era a rua. Veio o arrependimento. Com lágrimas nos olhos, Franciele lembra que sua mãe não a deixa mais voltar. Tornou-se, assim, mais uma moradora de rua.

A frente da igreja Matriz do município é a sua casa. Dizem que moram bem no centro da cidade. Um papelão para forrar o chão e um cobertor para as noites frias. Dormem abraçados para se aquecerem. Ao amanhecer o dia, vão em busca do pão. Nada lhes é oferecido pela prefeitura. Exceto às quintas-feiras pela manhã, quando um café é servido. “Eles acham que só comemos às quintas”, reclama Leandro.

Leandro já trabalhou, mas a crise o tirou do seu trabalho. Hoje, Franciele se define como artesã. Usa seu talento para conseguir um pouco de dinheiro. Da folha do coqueiro constrói uma flor. Para ficar mais bonita, coloca um grilo feito do mesmo material. Sai para vender, ali pelo centro mesmo. Na fila dos carros para o ferry-boat, na travessia para Itajaí, oferece o seu trabalho. Cada flor custa R$ 5, mas nem todos compram.

Franciele e Leandro não querem muito. Almejam apenas a felicidade dos filhos. “São a coisa mais linda que existe”, emociona-se a mãe. Para eles o futuro é incerto, não sabem onde estarão amanhã. Mas levam o sorriso no rosto e a alegria que contagia quem senta e conversa com eles.

Com a esperança de novas oportunidades para uma vida melhor no Sul, saiu do município de Wagner, na Bahia, há um ano e nove meses. Chegou a Brusque para estudar Engenharia Mecânica. A empresa que trabalhava fechou e ele acabou ficando desempregado. Dependendo apenas do seguro desemprego, não teve escolha. Para não ficar “na rua”, como está longe dos familiares, teve que recorrer ao albergue. Essa é a história do jovem Tiago Barbosa Santos, 25 anos.

A secretária Mariana Martins lamenta o rumo que a vida de Tiago tomou:

Alexander. 28 anos. Brusquense. Evangélico. Pai de uma menina de seis anos. Dependente químico. Ex-detento. O que ele está fazendo para mudar? Por enquanto, nada. Consegue o suficiente para sustentar o vício com a venda de suas pulseiras artesanais. Após brigar com a família ficou desabrigado. Restou, então, apenas um refúgio: a rua.

Parte dos moradores de Brusque aceita ajuda e utiliza dos serviços oferecidos pelo município. O albergue provisório, instalado em 27 de março na Arena Brusque, tem capacidade para 26 pessoas, 20 homens e 6 mulheres. Recebe diariamente uma média de 20 pessoas, 95% homens. A equipe atual possui seis funcionários, sendo dois educadores sociais, um coordenador e três comissionados. O abrigo é um projeto que tem recebido apoio voluntário, o que ajuda muito, já que estava completamente fora dos planos e do orçamento do município. Lá os moradores encontram o mínimo necessário para renovar as energias para o dia seguinte: banho, refeição e dormitório, como explica Mariana Martins, da secretaria de Assistência Social.

 

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Inicialmente o maior problema era encontrar o local que comportasse as necessidades e não criasse problemas. Como explica o educador social Neto Novaes “não é em toda estrutura que a gente consegue instalar o albergue”. O Assessor Jurídico da prefeitura Rafael Jacintho esclarece.

Outro problema seria o custo. A secretária da pasta comenta que a princípio o albergue seria na Rodoviária, mas isso ainda está sendo avaliado porque depende de decisões orçamentárias entre autoridades e o próprio prefeito.

Mudanças e funcionamento

A Assistência Social tem como projeto de reinserção dessas pessoas o Centro POP.  Tanto Mariana quanto Rafael reiteram que o local terá mais eficácia no desenvolvimento dessas pessoas, pois proporcionará vivências visando autonomia e estimulando a organização, a mobilização e a participação social.

Ela destaca também as diferenças e o funcionamento de cada serviço (albergue e Centro POP) e de como será o controle quanto à saúde dessa população, que é uma das maiores preocupações no momento. Pois, inevitavelmente, são pessoas expostas. Uma das colaborações da Secretaria de Saúde seria o “Teste Rápido”, cujo resultado sai na hora, identificando doenças sexualmente transmissíveis (DSTs).

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Existe ainda o benefício do aluguel social, que é pouco conhecido, mas, segundo a secretária, possui um número considerável de adeptos. “Temos bastante famílias que tem adesão ao Aluguel Social, famílias que estão em vulnerabilidade social… O que a gente vem mantendo são contratos firmados na gestão anterior. Que são contratos normalmente de seis meses, podendo ser renovado de acordo com a avaliação da assistente social”, frisa.

Hoje o  Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) oferece também a feitura dos documentos básicos (RG, CPF, Carteira Profissional), serviço de abordagem, resgate do vínculo familiar e encaminhamento para inserção no mercado de trabalho.

Profissionais fizeram, durante uma semana, abordagens convidando os moradores a se abrigarem no albergue. O número de pessoas que aceitaram foi maior do que os 30% esperados pela equipe. Mas isso ainda é pouco, se comparado ao número total de moradores (cerca de 80 pessoas) que vem aumentando já que a informação é repassada. Muitos permanecem apenas por alguns dias no município, mas ainda sim devem ser levados em conta.

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Albergue – Brusque

Outros serviços serão ofertados em maio. Entre eles, palestras educativas.

Adesão feminina

Existe uma dificuldade maior na adesão das mulheres, principalmente gestantes. Motivos diversos fazem com muitas permaneçam nas ruas.

Aproveitamento dos serviços

Cabe ao morador ter interesse em fazer uso dos cuidados disponíveis.

Quem pode usar?

Apesar de ser um local público de acolhimento, o albergue possui algumas regras que impedem “qualquer” pessoa de fazer uso do local.

Horários

O albergue funciona oficialmente das 19h às 7h, mas oscila dependendo do dia. Rafael conta que todas as atividades tem horário definido.

Frutos

Os resultados vieram com o tempo. Pelo menos 12 pessoas saíram da situação de rua de maio do ano passado até janeiro desse ano.

Reciprocidade

A relação que se cria entre os moradores e profissionais acaba sendo um incentivo a mais fazendo com que eles tenham ânimo para voltar às atividades cotidianas de um cidadão normal.

Principais pontos de concentração de moradores:

Praças Barão de Schneeburg (entorno da antiga Banca Jardim),
Praça da Cidadania (atrás do Shopping Gracher)
Praça Gilberto Colzani (em frente ao terminal)
Praça do bairro Jardim Maluche
Na antiga sede dos Correios (próximo ao Colégio Cônsul),
Nas proximidades dos supermercados O Barateiro, nos bairros Santa Rita e Azambuja.

Aldrin Duarte, psicólogo e coordenador do (CRAS) de Navegantes, explica que durante o verão, o município abrange um número maior de moradores de rua, em média 150. Porém, hoje existem somente 23 pessoas que fazem acompanhamento com eles. O centro possui um Serviço Social em que todos os dias úteis na semana, dois orientadores vão em busca dos moradores de rua do município. Nestes momentos eles conversam e explicam a respeito de todos os projetos do CRAS e da assistência. Também informam sobre seus direitos, como bolsa família, educação (Educação de Jovens e Adultos EJA), saúde e se for usuário de drogas, podem ser encaminhado para o CAPS (Centro de Apoio Psicossocial).

A maioria dessas pessoas está na rua por motivos de briga familiar ou drogas. Por isso, o CRAS oferece acompanhamento psicológico e de assistência social para elas. Os responsáveis entram em contato com a família e dependendo da situação, oferecem a passagem para o retorno para a pessoa. Todas as quintas, das 9h às 11h acontece uma roda de conversa. “Eles chegam, tomam um banho, trocam de roupa e tomam um café. Depois sentamos e explicamos sobre os direitos deles, apresentamos os cursos que o município oferece e que pode servir como ‘renda’ mensal para eles”.

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