Economia Meio Ambiente

Novos empreendimentos na Praia Brava: vantagens X desvantagens

O mais novo shopping que está sendo construído na Praia Prava divide opiniões.

Brava Mall, oO mais novo shopping que está sendo construído no local, divide opiniões de moradores e empresários. 

Texto por: Dienifer Mânica, Karine Amorim, Thais Lamin e Thayná Barretto.

No topo da lista dos bairros e pontos turísticos mais conceituados de Itajaí está a Praia Brava. Atualmente vista como uma das praias mais bonitas do Litoral Norte de Santa Catarina, o local tem um passado pouco conhecido e já enfrentou mudanças drásticas ao longo de sua história. Além de transformações estéticas, a economia no bairro cresceu e hoje é considerado um dos mais ricos da região.

Localizada na divisa com o município de Balneário Camboriú, a praia ainda possui alguns pontos mais calmos, propícios para um bom descanso. Porém, os pontos de comércio tomaram conta do local, o que modificou o cenário de tranquilidade. Agora baladas, bares agitados e restaurantes bem frequentados fazem parte de sua nova realidade. Mas se engana quem acha que o bairro sempre foi requisitado desse jeito. Durante muito tempo, a realidade da Brava foi bastante diferente da encontrada hoje. Antigamente o acesso às areias era muito restrito, rodeado por morros e grandes restingas, e o modo mais fácil de chegar era a Rodovia Osvaldo Reis, que na época era somente uma estrada ruim de terra cortando a cidade. Hoje a realidade é diferente. O bairro se tornou um dos mais valorizados no mercado imobiliário.

A praia passou a atrair turistas de todos os lugares, incluindo “magnatas” que almejam um apartamento em frente à praia. Eles enxergam o potencial econômico que a região adquiriu e estão à procura de um local para a construção de um novo empreendimento. Apesar das mudanças e melhorias, há uma questão que preocupa a população em geral: o possível fim de todo o clima “roots” que a praia, com muito custo, ainda carrega.

 E em meio a tantos empreendimentos já existentes, surgiu outra novidade que têm previsão de entrega para o segundo semestre de 2017: o novo shopping, intitulado Brava Mall, que já está sendo construído pela Procave Investimentos e Incorporações, empresa responsável por uma das maiores construções da Praia Brava, o Brava Home Resort.

A partir da construção do Resort em 2012 surgiu a ideia de um novo projeto que pudesse atender a comunidade e turistas, além de gerar novos empregos.  A assessoria de comunicação da Procave revela os novos serviços: “A proposta do primeiro shopping premium da região é unir centro empresarial e comercial com lojas, serviços, entretenimento, cultura, lazer e uma instituição educacional bilíngue e com ensino fundamental”.

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A Procave investirá no total R$ 46 milhões para a construção. Em seu interior, o shopping terá 10 megalojas, um supermercado, 89 lojas, um cinema com duas salas, 11 estabelecimentos de alimentação, oito quiosques e 280 vagas de garagem. Ao todo, a obra possui 33 mil metros quadrados. A previsão de entrega é para a temporada de 2017/2018, com expectativa de inauguração em novembro deste ano, e o funcionamento das atividades escolares do Colégio Bom Jesus será em 2018. A estimativa é que 400 novos empregos sejam gerados na região. Com 50% da construção já concluídos, os locais vagos estão em fase de negociações de alugueis e reservas, e logo começarão a receber currículos.

Na orla da Praia Brava, as opiniões se dividem. Moradora do bairro há 27 anos, a dona Iraci Jorge, 66 anos, trabalha com venda de churros e milho na beira da praia. Ela acredita que para a economia é um ótimo empreendimento, pois o fluxo maior de pessoas irá ajudar na progressão de seu comércio. “Quanto mais gente é melhor, pois assim terá mais clientela” afirma. O jornalista Sandro Murilo Coelho, 53 anos, morador do Centro de Itajaí, também trabalha em um dos bares da Brava e compartilha da mesma opinião que a comerciante. Para ele, a nova construção que sairá trará um balanço positivo, “vai ser um diferencial, até mesmo para beneficiar o turismo. A economia local tem que evoluir” declara. Porém, Sandro também está preocupado com as questões ambientais e debate que “a natureza tem que ser preserva e eles (Procave) têm que fazer a parte deles perante a isso”.

A jovem Isabela Forlin, 22 anos, mora há quatro anos na região e acredita que o novo comércio terá seu lado positivo e seu lado negativo. Para ela, é ótimo ver o crescimento na economia da Praia Brava, já que acredita ser um local ainda com poucos recursos. “O lado ruim disso é que o bairro ficará ainda mais elitizado e pode perder essa essência mais naturalista que tem”, contrapõe. Isabela possui um filho de dois anos e pretende colocá-lo na escola que abrirá anexa ao shopping. Já Lorena Servantes, 30 anos, alega que não vê benefícios na construção do novo shopping. “Mesmo que o novo negócio possa contribuir para a economia local, os aspectos negativos sobressaem e anulam as vantagens”, alega. Para a microempreendedora, o bairro Praia Brava está se tornando uma pequena Balneário Camboriú e, logo, o local que era calmo se transformará em muito agito e a área preservada se tornará uma “selva de pedras”. Há mais de 10 anos no local, a moradora comenta: “é triste ver os assuntos econômicos atropelando nosso bairro, mais uma vez”.

Uma beleza regional em estado de alerta

O possível fim de toda a beleza natural é outro assunto que gera incômodo para muitos moradores da região. Lourdes Maria Carvalho, aposentada de 74 anos, foi uma das primeiras moradoras a adquirir um lote no bairro da Brava, nos anos 60, e durante gerações vem mantendo seu terreno e criando sua família. “Quando eu cheguei aqui, não tinha muita coisa. Tinha muitas árvores, uma estrada de terra e inclusive minha casa era de madeira, bem simples”. Ela conta que lembra exatamente de como era a praia, que nos últimos anos cresceu de uma forma que jamais havia visto: prédios e mais prédios, casarões, milhares de comércios. “O crescimento dessa região não é algo muito ruim, afinal o bairro tinha que ser mais valorizado mesmo, mas eu temo que esse ar natural e calmo se perca de um modo que não possamos mais voltar atrás”, observa.

A área verde ainda é bem preservada, mas o crescimento desenfreado de grandes condomínios é assustador. A procura por locais para construir é enorme e construtoras de alto padrão vêm lutando pela compra de terrenos, o que torna a manutenção da vegetação cada vez mais difícil. O terreno de dona Lourdes é cheio de árvores, que ela faz questão de cuidar com carinho e não abre mão por nada. Ela conta que já recebeu várias propostas tentadoras para vender seu terreno, mas não aceitou nenhuma. “Quero preservar o local onde eu construí minha família. Seria um desgosto ver demolirem tudo o que eu conquistei para colocarem um prédio lindo e de luxo, mas totalmente desrespeitoso ao meio ambiente”, argumenta.

José Carlos Carvalho, 74 anos, marido de dona Lourdes, também aposentado, conta que todo final de semana vai caminhar nas areias da Brava e passa recolhendo o lixo, muitas vezes deixado por visitantes ou até mesmo trazido pela maré. “Temos um local abençoado aqui, esse é nosso paraíso, e eu ainda não consegui entender como tanta gente não consegue respeitar e valorizar onde moramos”, lamenta. José Carlos ainda diz que a falta de respeito não vem somente das pessoas que sujam a praia, mas também da Prefeitura de Itajaí, que aceita diversas demandas de construções em locais que deveriam ser preservados por lei. Andando pelo calçadão da Praia Brava, já é possível observar algumas sombras de apartamentos aparecendo na areia e tapando o sol dos banhistas.

 

Brava Mall X meio ambiente

Questionados a respeito dos possíveis danos à natureza que o shopping poderia causar no bairro, a assessoria de comunicação da Procave contestou que o projeto foi aprovado pela Fundação do Meio Ambiente atendendo a todas as solicitações exigidas pelo órgão ambiental. “Inclusive, em um terreno de 26.073,00m², uma área de 7.958,91 m² será preservada intacta, e assim conservando as espécies nativas da região”.

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Enquete

O mais novo empreendimento da Procave divide opiniões.

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O Canto do Morcego

O Canto do Morcego, localizado no lado norte da Brava, possui uma beleza natural surpreendente, além de ser um dos locais mais calmos da praia. Quase deserto, é ponto de paz para quem procura descanso e, por ter quase sempre as melhores ondas, é palco dos surfistas da região e até mesmo de surfistas que vêm de fora à procura de ondas novas. Considerado um “xodó” pelos moradores da região, há pouco tempo também entrou na lista de lugares ameaçados pelo homem. Em agosto de 2014, o Tribunal de Justiça de Santa Catarina derrubou a liminar que havia sido concedida pelo Ministério Público, probindo qualquer construção ou mudança no local. Após a derrubada da liminar, a lei de zoneamento, que havia sido aprovada em dezembro de 2012, pela Câmara de Vereados de Itajaí, voltou a prevalecer, e esta lei permite que outros projetos, além dos já iniciados, possam ser aprovados e construídos.

Pedro Elias Alves, 34 anos, surfista local e microempreendedor, conta que foi criado na Praia Brava e desde os dez anos de idade aprendeu a surfar sozinho. Sempre se reunia com os amigos para ir ao Canto do Morcego se divertir e pegar umas ondas. Pedro lembra que no local só havia um bar pequeno, chamado Kiwi, e essa era a maior construção que se via ali. “O local era somente palco de sossego. Hoje em dia virou um lugar em que os outros ganham dinheiro em cima das belezas naturais”, critica. Ele se coloca contra as construções pelas restingas da praia e fez questão de participar do movimento Abraço, realizado na Brava, defendendo a preservação do local. “A imprensa veio até aqui e todos viram que não era isso (a posse do local para construções) que queríamos para o nosso patrimônio mais precioso. Mas fingiram que não escutaram e agora está tudo prestes a ir por água abaixo”, acrescenta.

O maior medo do surfista é ver a Praia Brava tornar-se igual a Balneário Camboriú: “cheia de prédios e sombras, que tapam o sol e acabam com a praia, sem natureza por perto. Além de a praia ser contaminada por esgoto e a areia ser suja e pesada”. O que poderiam fazer para tentar reverter a situação foi feito, mas sem sucesso. Além de prejudicar a natureza, todo esse descaso também afetará todos os moradores da região que zelam pela praia. Agora, resta esperar para ver onde tudo isso vai acabar.

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