Arte e Cultura

Em nome de Deus

O uso do véu por mulheres muçulmanas é uma obrigação religiosa, no entanto intelectuais da área afirmam que o ato de se cobrir deve ser por amor a Allah e não por temor aos homens.

O uso do véu por mulheres muçulmanas é uma obrigação religiosa. No entanto, estudiosos da área afirmam que o ato de se cobrir deve ser por amor a Allah e não por temor aos homens. 

Texto: Kerolaine Rinaldi

“Allah Akbar” (Deus é maior). Com essa frase começa a oração da sexta-feira. Em pé, com as mãos atrás dos ouvidos, e com o corpo direcionado para Meca, a cidade sagrada. A mão direita sobre o pulso esquerdo, na altura do abdome. Recitam em árabe “Em nome de Deus, O Clemente, O Misericordioso”. A oração prossegue com mais declarações de fé e pedidos para Allah. Com o corpo curvado em noventa graus eles repetem três vezes: “Glorificado seja, meu Senhor, O Ingente. Deus ouviu aquele que o louvou”.

A sexta-feira é especial para os muçulmanos. Dia de rezar em comunidade. É pouco mais de 13h. Antes de começar a oração, o sheik faz uma leitura do Alcorão e um sermão, a Khutba Jummah (oração da sexta-feira). Com uma separação de vidro fosco e com detalhes em branco, onde só é possível ver os vultos dos corpos masculinos do outro lado, as mulheres rezam numa sala especial. Descalças, usam roupas especiais para rezar: uma saia longa para as que estão de calça, um véu para as meninas que ainda não se cobrem.

Em poucos minutos o ritual termina. Algumas ainda fazem prostrações, concentradas em suas preces. Outras se levantam e tiram as vestes especiais. Aos poucos, a conversa aumenta. Perguntam como vão as famílias, falam sobre coisas triviais, elogiam a bolsa da amiga. Uma por uma, calçam seus sapatos e se dirigem à porta de saída do Centro Islâmico de Florianópolis. A obrigação com Deus foi cumprida. Agora vão aos compromissos com trabalho, estudo e família.

Mesmo com a rotina corrida, os seguidores do Islã não deixam de praticar as cinco orações diárias obrigatórias. Yasmin Cardoso é estudante de Enfermagem, lutadora de muay thai e tem a vida agitada, mas sempre que está na hora de rezar, para o que estiver fazendo e se concentra em suas preces.

“Se estiver a caminho da universidade e estiver passando da hora da oração do crepúsculo, por exemplo, eu a faço no ônibus mesmo. Nesses casos não é necessário fazer as prostrações, é melhor rezar sentada do que não rezar”, explica a jovem.

Yasmin, de 19 anos, nasceu em uma família muçulmana brasileira. Desde criança foi criada seguindo os preceitos do Alcorão e tem plena certeza de que sua religião prega a verdade. Assim como ela, as mulheres muçulmanas no Brasil não se encaixam no estereótipo enraizado na sociedade de que são aprisionadas em casa, não estudam e passam seus dias servindo a um homem. De acordo com pesquisas feitas pelas mesquitas brasileiras, a maioria das reversões ao Islã são feitas por mulheres, levadas pela valorização feminina na religião. Entre essas mulheres, muitas já foram casadas e têm filhos.

No Islã, o termo usado para designar uma pessoa que abraçou a religião é “revertido”. Ao contrário do Cristianismo, para a crença islâmica todo ser humano nasce muçulmano, mas por razões diversas, como o local onde nasceu, acaba não seguindo a religião desde o berço. Revertendo-se a pessoa volta à condição original de crente. Para a antropóloga e pesquisadora de comunidades muçulmanas, Francirosy Campos Barbosa, o número de muçulmanos tem aumentado nos últimos anos graças à divulgação realizada pela comunidade muçulmana e também pela facilidade de acesso a livros em português.

Segundo a estudiosa, outro fator que influencia a busca pela religião é o trabalho contrário feito pela mídia. Informações equivocadas sobre o Islã são divulgadas por veículos de comunicação, propositalmente ou não, e acabam instigando a busca por mais conhecimento. “E há também reversões por causa do casamento. Cada vez mais vemos casamentos interculturais de brasileiras com estrangeiros muçulmanos”, afirma Francirosy.

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O Casamento

Há uma frase atribuída a Mohammed (Maomé): “Quem se casa cumpre metade de sua religião”.  Grasieli Cardoso conheceu o Islã por causa do marido. Grasi, como gosta de ser chamada, conheceu o esposo quando tinha 14 anos e ele 17, no restaurante de sua mãe. De família cristã, ele tinha se revertido ainda na adolescência, quando trabalhou com libaneses. Durante parte do namoro, ela não sabia a religião do futuro marido, pois como a maioria da população da cidade era cristã, nunca tinha pensado no assunto. Quando ele contou, Grasi nem sabia o que era ser muçulmano.

Durante algum tempo, a família de Grasi continuou sem saber da escolha religiosa do rapaz. Quando descobriram, tentaram até impedir que os dois se encontrassem. O casal apaixonado insistiu no relacionamento e quando a jovem completou 16 anos o casamento aconteceu. Na Igreja Católica, para agradar a mãe.

O fato de o marido fazer tudo em nome de Deus encantou a moça, que até então era católica. Mesmo antes de começar a comer, os muçulmanos dizem Bismillah (Em Nome de Deus). “Poxa, ele tem essa conexão tão bonita com Deus. Vou começar a estudar minha religião também”, Grasieli relembra o pensamento da época.

Depois de muito estudo bíblico e histórico, ela se convenceu de que a Torá, os Evangelhos e o Alcorão possuem ligações. Tudo ficou claro. Quando contou ao esposo que queria aprender a rezar, ele ficou muito feliz, mas tentou convencê-la de que não era necessário. Sua resposta: “Não estou fazendo isso por ti. Estou fazendo por mim. Eu quero aprender a  rezar”.

O hijab

“E dizei às fiéis que recatem os seus olhares, conservem os seus pudores e não mostrem os seus atrativos”, determina o Alcorão. O hijab, nome dado ao véu que tem como função cobrir os cabelos e busto das mulheres, é uma obrigação religiosa. O sheik Amin Alkaram explica que cobrir-se é uma forma aparente de preservar o pudor, a integridade, a moralidade e a pureza da mulher. Ele é usado toda vez que a mulher está em público, fora de casa ou na presença de homens que não são parentes em primeiro grau.

A pesquisadora Francirosy explica que o termo “hijab” vem do verbo árabe “hajaba”, que significa separar neste caso, separar algo da visão.  Separar o corpo feminino dos olhares de homens estranhos. Ele vai muito além de cobrir-se, envolve todo o comportamento da muçulmana. Mesmo sendo uma obrigação religiosa, apenas a mulher pode decidir quando usá-lo. É o caso de Aicha Suleiman.

Aicha é muçulmana de família palestina e veio para o Brasil ainda muito jovem. Casou-se e teve filhos, mas apenas depois que suas filhas foram para a faculdade escolheu usar o hijab, incentivada por elas. Quando as duas meninas contaram para a mãe que iriam usar o véu, Aicha ainda tentou dissuadi-las, mas estavam determinadas e isso a inspirou. Hoje se sente nua quando está sem ele: “Tenho orgulho do meu hijab”.

Quem também foi inspirada pela filha a começar a usar o véu islâmico foi Grasieli. Yasmin Cardoso é sua filha do meio e quando começou a usar o hijab, aos 13 anos, era a única em Criciúma (SC), cidade onde vivem. Grasi parou de cobrir os cabelos depois de quatro anos revertida, pois precisava muito trabalhar e não conseguia emprego. Quando viu a filha enfrentar a cidade de cabeça erguida sem se importar com comentários maldosos, resolveu realizar o desejo que tinha há muitos anos de voltar a seguir as orientações de sua fé. “Minha filha foi uma grande incentivadora. Corajosa, encarou os amigos e os professores. Ela abriu as portas para as muçulmanas daqui”, declara a mãe.

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Mesmo a sociedade ocidental achando estranho, para as mulheres muçulmanas o hijab é algo libertador. Francirosy explica que nossa cultura costuma encarar o ato de se cobrir como opressão. “Não são as vestes que cobrem o pensamento das pessoas. É necessário conhecer as mulheres, perguntar a elas e não fazer suposições”, argumenta. Ela aponta o machismo enraizado no Brasil e o número de feminicídios cometidos no país, mesmo que aqui as mulheres sejam consideradas livres para se vestirem como queiram. E afirma: “Ter que ter um corpo perfeito para ir à praia é tão opressor quanto vestir um hijab contra a sua vontade”.

 Obrigações e direitos femininos

Na sura 2, versículo 228, o Alcorão diz: “E elas têm direitos iguais às suas obrigações”. O sheik Amin explica que, no Islã, as mulheres têm praticamente os mesmos deveres e direitos que os homens. Elas têm liberdade total e podem votar e trabalhar. O estudo não é somente um direito, mas também uma obrigação deixada pelo Profeta Mohammed. A própria palava Alcorão (Al Quran) significa recitação ou leitura. Francirosy destaca que o Islã foi a primeira religião a dar a elas o direito ao divórcio, a ter bens em seu nome e a escolher o marido. Entre os deveres femininos está o papel como mãe. A educação religiosa dos filhos deve ser feita por ela.

Alkaram,  líder religioso do Centro Islâmico de Florianópolis, afirma que não existe desculpa para descumprir seus deveres com Deus, seja mulher ou homem. “O muçulmano deve ser praticante de sua religião onde estiver, dentro ou fora de sua comunidade”, diz o sheik Amin. As orações também são obrigações de ambos os sexos, exceto durante o período menstrual. Elas podem ser praticadas onde e como estiver, nas mesquitas, ou sozinho quando as condições não lhe permitem sua prática no grupo.

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