Comportamento

Até que ponto trabalhar é ter qualidade de vida?

Especialistas esclarecem a necessidade de trabalhar com qualidade e ter uma vida saudável como consequência.

Especialistas esclarecem a necessidade de trabalhar com qualidade e ter uma vida saudável como consequência.

Texto por: Kamila Dias, Alexsandra Souza e Suelen de Oliveira.

Trabalhar por horas na mesma posição ou em posição incorreta. Levantar mais peso do que deveria ou por muito tempo. Não realizar alongamentos ou exercícios físicos necessários para uma vida benéfica. São práticas responsáveis por provocar a lesão por esforço repetitivo (LER).

O termo foi bastante utilizado no passado para caracterizar doenças relacionadas ao trabalho repetitivo. Hoje já está em desuso para essa definição foi substituído por distúrbio osteomuscular relacionado ao trabalho (DORT). A DORT/LER é uma doença ocupacional relacionada ao trabalho.

Os locais mais frequentes de acometimento não são necessariamente os mesmos, isso depende do tipo de trabalho e da ocupação do indivíduo. Segundo o fisioterapeuta Jones Waltrick Macagnan, em relação à DORT/LER, os membros superiores são os mais afetados. São eles: punhos, cotovelos, ombros, coluna cervical e as condições anatômicas que relacionam todas essas articulações e todas essas estruturas. “Mas o fator principal mesmo é a ocupação que o sujeito condiciona”, esclarece.

As pessoas que desenvolvem esse tipo de problema são aquelas que estão vinculadas a atividades de trabalho mais monótonas, as que têm longas jornadas de trabalho sem pausa e, consequentemente, as que não têm uma condição de saúde, incluindo a capacidade física, para a execução de determinada tarefa ou também para sua própria vivencia. Então é válido reforçar a necessidade de boas qualidades, não somente na saúde do indivíduo, mas também no seu posto de trabalho.

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Foto por: John Costa, representando uma posição inadequada frequentemente adotada pelas pessoas.

A fisioterapeuta do trabalho e assistente técnica em perícia judicial do trabalho, Ligia Cristina Dantas Marchesoni, defende essa qualidade necessária para o indivíduo, ao realizar suas atividades nas empresas. Ela indica o dever das empresas em realizar as medidas propostas no laudo ergonômico, como: adaptação do posto de trabalho, mobiliário e maquinário ergonomicamente apropriado, erradicação de compensações posturais durante a jornada de trabalho, inviabilizando, desta forma, as incapacidades funcionais.

Outra forma seria a ginástica laboral que é um método preventivo e terapêutico, além de ser uma das melhores ferramentas da Ergonomia usada para a diminuição de fatores de riscos de DORTs.

Na sessão da ginástica são realizados vários exercícios de acordo com a necessidade de cada setor dentro da empresa, como: exercícios respiratórios, de relaxamento, alongamentos, dinâmicas em grupo, fortalecimento muscular e consciência corporal. A personal trainer Laila Dalri oferece às empresas esse serviço e conta que o ideal seria a prática diária dos exercícios. Porém, isso não faz parte da atual realidade, devido às condições financeiras das empresas. Sendo assim, ela indica pelo menos duas ou três vezes na semana. As sessões da ginástica duram em média 10 a 15 minutos por dia.

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Foto disponibilizada pela personal trainer Laila Dalri. Exemplo de Ginástica Laboral.

Atualmente, é fraca a procura desse serviço. As empresas acabam concluindo, sem ao menos experimentar, que esses serviços geram prejuízos: o tempo de produção que é perdido, os gastos com o personal e a disponibilização de um espaço adequado para as aulas. Mas não percebem que a qualidade de vida e de trabalho dos seus funcionários impacta na produtividade. Além disso, Laila refere-se à resistência e preguiça que alguns colaboradores têm de sair de seus postos de trabalho para realizar os exercícios.

Rosângela Maria Schmitz Dias, 47 anos, há 15 anos trabalha na produção de salgados para festas e lanchonetes. Há cinco anos teve uma lesão no pulso, provocada por movimentos repetitivos e pela mudança constante de temperatura em seu trabalho. Ela precisou ir a três médicos para então conseguir descobrir o que era realmente a causa de sua dor. Foram recomendados a ela alguns medicamentos e repouso, com o uso de tipoia. Hoje ela ainda sente dor e  sabe que a LER não tem cura.

Fernanda Carla Cardoso Provesi, 38 anos, há 10 anos atua como cabeleireira. Seus braços e ombros foram apresentando cansaço, ocasionando dores durante um ano. Porém, só descobriu o que realmente tem depois de passar 17 noites com fortes dores. Então procurou um ortopedista e iniciou também fisioterapia. Faz quatro anos que ela toma os cuidados necessários, diminuindo seus esforços e repousando sempre que precisa. Por conta da dor, ela afirma ter mudado toda a sua rotina.

Ligia relata que as empresas e instituições que empregam pessoas são obrigadas a ter uma análise ergonômica do trabalho, nos padrões indicados pela legislação. Na ausência desse trabalho, as empresas podem ser multadas. Existem órgãos fiscalizadores que podem cobrar este documento, como a Delegacia Regional do Trabalho (DRT), o Ministério Público do Trabalho (MPT), sindicatos trabalhistas e Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Crea), além de associações de classe.

Em relação ao resultado e conclusão do ponto de vista do trabalhador, a personal trainer diz ter desfechos satisfatórios de seus alunos. “Os funcionários sentem bastante diferença depois de um tempo realizando as sessões. Tive a oportunidade de avaliar isso em uma empresa na qual aplicava a ginástica e, devido à redução de gastos, a mesma ficou quatro meses sem implantar o programa e acabaram retornando com as sessões, pois os funcionários pediram e se queixavam de dores nas articulações”, relata.

Hélio Jovito, 46 anos, apresentou lesão em sua coluna há 20 anos. Procurou um ortopedista após três anos sentindo dores. Trabalhou a vida inteira como agricultor, e foi por pegar pesos e por esforços em seu trabalho que ele provocou a lesão. Ele precisou diminuir a sua carga horária de trabalho, tomar medicamentos e repousar. Hoje ainda sente dor, porém incluiu em sua rotina exercícios físicos.

Maria Rocha, 51 anos, é auxiliar de produção. Tem seu ombro e sua clavícula lesionados e o tendão do braço rompido, por realizar movimentos repetitivos em seu trabalho. Há dois anos procurou um médico, que indicou a aplicação de medicamentos no local. Mudou de setor, onde não pega tanto peso quanto anteriormente, mas ainda sente dores. Ela sente ainda mais ao final de seu trabalho diário, momento em que deveria relaxar.

É exatamente nessa hora em que se pode suspeitar de LER.  “A dor deve estar associada ao fim da jornada de trabalho ou da atividade potencialmente causadora da lesão”, explica Leonardo Maiolino, médico de família. O fisioterapeuta indica que os primeiros sinais desse tipo de disfunção incluem um cansaço rápido em relação ao início da execução da atividade, podendo regredir para um sono não restaurador, ou seja, a pessoa já acorda cansada. Além disso, o formigamento, a perda de força, dor na articulação ou dor em todo o segmento do membro superior e dor nas cervicais podem ser sinais de lesões.

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Imagem retirada da UNISINOS. Exemplos de má postura.

Leonardo explica que em pessoas muito suscetíveis é difícil evitar a lesão, mas na maioria da população o revezamento de postos de trabalho, com variação de função, a implementação de exercícios de alongamentos e fortalecimento muscular, além de descansos periódicos durante a jornada de trabalho, podem evitar o problema.

Segundo uma pesquisa realizada pela Universidade Regional de Blumenau (FURB) em 2016, em quem foram analisados 1.415 prontuários do ambulatório do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Fiação e Tecelagem (Sintrafite), a prevalência de doenças ocupacionais) é de 28%, dos quais 40% dos casos têm faixa etária de 20 a 35 anos. São 85% dos casos de doenças ocupacionais com diagnóstico de LER/DORT, lombalgias e dorsalgias. E a prevalência de LER/DORT na população estudada é de 12,5%. Lesões de ombro respondem por 58% dos casos de LER/DORT. Metade dos casos envolve trabalho com costura.

Segundo dados do INSS (2013 a 2015), a média de benefícios acidentários por doenças ocupacionais no Brasil é de 156 mil. Dentre esses casos, 16 mil foram em Santa Catarina. Resultando em 10,25%.

O vídeo abaixo, disponibilizado pela personal trainer Laila Dalri, exemplifica um tipo de exercício da Ginástica Laboral:

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