Meio Ambiente

O processo de reciclagem: o que você não sabe sobre seu lixo

Parece mentira, mas não é: seu lixo pode se transformar em prata e ouro. E a reciclagem é que torna isso possível. Muitos objetos ganham vida a partir do lixo. 

Texto por: Dienifer Mânica, Karine Amorim, Thais Lamin, Thayná Barretto. 

O que você faria com seu teclado de computador, caso ele quebrasse? Certamente, se fosse um dano irreparável, você jogaria fora. O raciocínio é lógico: não funciona mais, logo não tem mais utilidade. Você coloca no lixo. No dia seguinte o caminhão passa na sua rua e recolhe seus resíduos. Lá se vai o seu antigo teclado. Será mesmo que ele não possui mais nenhuma serventia? Talvez, para você, não. Mas, em outro lugar, sua finalidade será redescoberta e um novo valor será encontrado para essa peça quebrada.

É na cooperativa de reciclagem que o seu antigo teclado ganha uma função diferente. Após ser recolhido pelo caminhão de lixo, ele vai para a coleta seletiva, e este é o trabalho que é realizado na Cooperativa de Trabalho dos Catadores de Material Reciclável da Foz do Rio Itajaí (Cooperfoz). Lá, tudo passa a ter um novo significado. Jacinto Neto, 51 anos, trabalha há oito anos na reciclagem e já se deparou com milhares de teclados para serem desmontados em sua mesa. Sua função, dentre tantas outras, é desmantelar os variados tipos de eletrônicos que são recolhidos.

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Processo de desmontagem. | Foto: Karine Amorim
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Uma velha panela de arroz passando pelas mãos de Neto. |Foto: Karine Amorim.

Em sua bancada, Neto tira todos os parafusos e separa o plástico, o metal, e outros materiais encontrados. Em sua volta há diversos tipos de cestos onde ele deposita cada um. Mas há uma peça em especial que é separada com exclusividade: a matriz do teclado. É uma folha leve, transparente. Aparentemente, sua textura se assemelha a textura do plástico e parece não ter proveito nenhum. Mas dela será extraída a prata. Ou seja, seu teclado velho, aquele que você jogou no lixo, poderá se transformar em um anel, um colar ou em qualquer outro objeto feito por este elemento químico cobiçado.

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A matriz do teclado, na qual é feita a extração da prata. | Foto: Karine Amorim.

O reciclador explica que este tipo de material é um dos mais caros: custa R$ 13 por quilo, perdendo apenas para o ouro, que custa R$ 15 por quilo. Porém, diferente da prata, o ouro geralmente é extraído da placa mãe dos computadores. Em contraponto, o alumínio custa apenas R$ 0,50 por quilo, mas isso não significa que este tipo de elemento tenha menos importância. Todos os materiais possuem sua relevância quando se trata de reciclagem. Para Neto, o mais legal da reciclagem é a capacidade de surgir riquezas das coisas mais inesperadas. Ele ainda complementa que “sem o reaproveitamento, não teríamos recursos suficientes para sustentar a necessidade de todos”.

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O ouro é diferente: é extraído da placa mãe dos computadores. | Foto: Karine Amorim.

Em uma mesa ao lado de Jacinto, trabalha Antônio Carlos Ribeiro, 61 anos. Assim como seu colega, sua experiência na cooperativa é vasta: também trabalha no local há oito anos. Suas principais funções se dividem entre motorista, operador de empilhadeira e seletor de recipientes de vidro. Ele explica como funciona a reciclagem deste material:

– “Vamos supor que você tenha uma conserva de palmito em sua casa. Quando acaba o conteúdo, o que você faz? Provavelmente joga o lixo fora, e então ele vem pra gente, aqui na cooperativa.” – Quase na mesma situação que aconteceu com seu antigo teclado, mas dessa vez o cenário passa a acontecer com os recipientes dos seus alimentos em conservas. E Seu Tonho continua explicando. – “Quando ele chega aqui, nós separamos o vidro e dividimos entre os tipos que têm. Os de conservas nós chamamos de granada. Então, quando separamos todos os vidros ‘granadas’, uma outra empresa de alimentos em conserva vem buscar. Geralmente eles pagam R$ 0,15 por cada, e uma caçamba leva todos embora. Lá, eles lavam muito bem, colocam o rótulo da empresa novamente e preenchem com o palmito de novo. E então esse vidro pode retornar para sua casa, e depois de novo chega até nós. E assim o ciclo continua”.

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Seu Tonho separando tipos de vidro em caixas. | Foto: Karine Amorim.

Antônio ainda esclarece que isso é muito comum de acontecer. Por exemplo, as empresas de bebida alcóolica Velho Barreiro e 51 também executam o mesmo processo. Na cooperativa, todas as garrafas dessas fabricantes são respectivamente separadas, guardadas e devolvidas para estas companhias, que por sua vez, reutilizarão estes recipientes da mesma forma que os vidros de conserva são reutilizados. Mas também, é claro, há outros tipos de vidros que são triturados e transformados em novos objetos.

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Ao fundo, as garrafas da bebida 51. Em primeiro plano, diversos recipientes misturados.|Foto: Karine Amorim.

Seu Neto e Seu Tonho são apenas dois trabalhadores dentro de uma cooperativa que traz sustento para cerca de 40 famílias diferentes. Indiretamente, a Cooperfoz atinge 120 pessoas que dependem do trabalho e da renda produzidos ali. É uma via de mão dupla: os recicladores contribuem para uma cidade mais limpa e sustentável, e a cooperativa gera faturamento na vida de grupos necessitados, e consequentemente proporcionando melhor qualidade de vida. Além disso, Itajaí é referência neste quesito, já que organização arrecada aproximadamente 400 toneladas de lixo por mês no município, segundo os dados contabilizados pela Fundação do Meio Ambiente (FAMAI).

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Muito lixo acumulado para o processo de triagem. |Foto: Karine Amorim.

Atuando há 16 anos na região, a cooperativa ganhará uma nova sede no bairro da Canhanduba. O diretor da Cooperfoz, Jonatas Souza, afirma que o local será maior e poderá receber mais material para reciclagem. “Teremos, ainda, duas esteiras para seleta de lixo, o que tornará possível atender uma demanda maior de lixos recicláveis. Além disso, mais famílias poderão ser beneficiadas, já que o número de coletores será dobrado”. A previsão da mudança é ainda para este ano.

Entenda um pouco mais sobre o assunto no vídeo abaixo:

 

Confira a galeria de fotos do local: 

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