Cidades

Envelhecendo em meio ao trânsito

Trabalhadores e estudantes reclamam do tempo perdido no transporte público; além de horas desperdiçadas, usuários relatam más condições dos veículos

Texto: Elyson Gums e Rodrigo Rodrigues

É comum ouvir relatos que em grandes metrópoles os cidadãos demoram horas para chegarem ao trabalho, faculdade ou qualquer outro destino, por conta do precário serviço de transporte público e da distância entre a casa e o trabalho. Serviço limitado, somado ao trânsito caótico das avenidas brasileiras, inclusive, resultam em atrasos ou desperdício de tempo. Alguns trabalhadores, inclusive, saem antes do sol dar as caras, para chegarem em tempo de o patrão não cuspir fogo pelas ventanas por conta do atraso. No entanto, não são apenas nos grandes centros que a “muvuca” acontece.

Ironi Vieira mora em Balneário Camboriú e vende roupas em todo o Vale do Itajaí. Para desempenhar sua função, ela usa o transporte coletivo da região. Resultado: horas perdidas e prejuízo financeiro. Ela conta que o trânsito está muito caótico, às vezes ela chega já com as lojas fechando as portas e não consegue vender.

“Saio bem cedo de casa e nas primeiras horas da manhã consigo vender, mas já no final da tarde ninguém quer mais atender e me prejudica. Porém, não tenho outra opção”, lamenta. Ironi não sofre tanto porque ela não carrega as roupas, apenas vende com um catálogo e manda entregar após a venda.

Quando se falam em horas que os brasileiros perdem no trânsito não é mera força de expressão. Segundo levantamento da empresa TomTom, o Rio de Janeiro é a terceira cidade com mais congestionamento em todo o planeta. A lista ainda tem outras duas cidades brasileiras entre as 10 mais caóticas. Salvador, na quinta posição, e Recife, em sexto.

Uma pesquisa sobre Mobilidade Urbana sugeriu que em São Paulo as pessoas ficam presas no trânsito o equivalente a 45 dias por ano realizando atividades como se deslocar para o trabalho, buscar filhos na escola, etc.

Entretanto, para o paulistano Daniel Schiavoni, estagiário do departamento de comunicação do Semasa em Itajaí, a experiência no litoral catarinense é pior do que na metrópole. Ele faz o trajeto de Barra Velha a Itajaí todos os dias.

“Em São Paulo era bem mais fácil. Em Barra Velha, a locomoção é obrigatoriamente por carro ou a pé, já que não tem nenhum serviço de ônibus na cidade”, lamenta.

O turno de trabalho de Daniel é das 07h30 às 13h30. O primeiro ônibus sai às 7h10 e volta às 15h – e à tarde passa por Piçarras e Penha antes de ir para Itajaí. Além dos valores, é impossível chegar no horário. Por isso, o único jeito de chegar ao trabalho é por um serviço particular de vans da cidade. Sai de casa às 6h10 e chega às 20h40.

“Não existe serviço de transporte intermunicipal eficiente que me leve até Itajaí. A outra possibilidade é usar os ônibus de viações, que vão pela BR. Mas, além de serem muito caros, os horários são poucos”, lamenta, destacando que quem não tem carro sofre severas limitações em suas atividades.

Estudar também é uma aventura

Ir para a escola, faculdade ou qualquer centro de ensino por meio do transporte público é, também, um filme de terror. Os mais espertinhos usam do enorme tempo parado no trânsito para ler, estudar para a prova ou até mesmo ficar de papo no WhatsApp. Porém, muitos destes ganham falta porque costumeiramente chegam atrasados em sala de aula.

Cheila Lazzaretti mora em Itapema e estuda na Universidade do Vale do Itajaí (Univali). Neste itinerário, apenas uma linha da empresa Praiana que percorre. Ou seja, caso ela tenha chego ao ponto minutos depois que o coletivo passou, esperar horas é a única saída para voltar para casa.

“Só temos uma linha que vai até a minha cidade. Além de ter apenas uma opção, esta alternativa ainda é precária, porque demora horas entre um ônibus e outro”, lamenta a aspirante a designer.

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Poucos horários da Praiana atrapalham Cheila (Foto: Divulgação/Praiana)

Quem não suporta perder tempo dentro de ônibus tem que recorrer a meios de transportes alternativos, mas que custam muito mais caro no final do mês. Vans escolares buscam em casa, levam para o local de estudo e retornam com o aluno para as residências. Entretanto, em cidades próximas a estes lugares, carros como esse cobram cerca de R$ 300 para realizar o transporte.

E ainda assim, há falhas. Na volta, Daniel tem que ir cedo para o ponto de embarque com risco de não ter lugar para sentar. A van passa por Piçarras e então entra em Barra Velha. “Tenho sorte de descer logo nos primeiros pontos”, conta. A viagem, que normalmente dura pouco mais de trinta minutos, acaba levando mais de uma hora.

Em alguns casos, é mais prático mudar de cidade do que se sujeitar a essas rotinas. É o caso do publicitário Leonardo José, que hoje mora em Itajaí por causa do emprego. “É possível ir e vir todos os dias, mas os contras são muito maiores se pensar em qualidade de vida e tempo”, explica.

Quando era mais jovem, ia e voltava todos os dias. Para isso, precisava sair de casa três horas antes de começar a trabalhar, porque além de ônibus, tinha que usar o ferryboat. Na época ele estudava também em Itajaí, o que só aumentava os custos e o cansaço da rotina.

O mesmo é válido para as entrevistas de emprego. Assim como aconteceu com Schiavoni, Leonardo saiu de uma cidade menor e com pouco mercado de trabalho para sua área. Até as entrevistas de emprego antes de ser contratado eram uma penúria.

“Se a entrevista fosse Balneário Camboriú às 15h, tinha que sair ao meio-dia”, lembra. Por isso, em geral ele saía com antecedência para fazer outros compromissos no “tempo livre”. Mas ainda assim “era um processo desgastante e caro pra vir de Penha e ficar 20 minutos em uma entrevista”.

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