Comportamento

Entre cavernas e dragões: Mesmo após 40 anos, jogos de RPG ainda possuem adeptos

Os RPG se diferem de jogos de tabuleiros comuns por permitirem maior liberdade criativa e maior jogabilidade.

Texto: Kerolaine Rinaldi e Victória Severo

Eram duas da madrugada, esperávamos a chegada deles, me sentia nervoso e inquieto, era finalmente o momento que esperava desde muito tempo. Enfrentamos diversos sacrifícios para chegar até aqui. No início eu era somente mais um entre tantos outros. Agora, por conta dessas aventuras, obtive um grau de experiência suficiente para evoluir e nunca mais voltar a sucumbir diante das maldades desse mundo.

Ouvia os tambores soando, eles chegaram. Pude observar através dos olhos de uma ave o general deles. Imponente, batia com os punhos fechados no peito, granindo, intimidante. Seu nome era Urok, o cara torta. Era chamado assim pois seu rosto era deformado, parecendo um pano distorcido. Vinha acompanhado de centenas de orcs em direção à cidade. A primeira leva de flechas acertou os primeiros orcs e, após a segunda leva de flechas, os portões se abriram, era a hora de enfrentá-lo.

Tentei combatê-lo com minhas espadas, mas fui cercado por outros orcs que me impediam de chegar perto de Urok. Porém, meu amigo bárbaro, Theos, conseguiu se aproximar dele. O bárbaro deu uma pancada certeira em Urok, mas não foi suficiente para derrubá-lo. Em seguida, os outros orcs desferiram diversos ataques em mim, mais um pouco e eu estaria morto. Foi quando novamente o bárbaro Theos acertou Urok em cheio, o fatiando em dois. Visto isso, os outros orcs se apavoraram e partiram correndo.

No mesmo momento, o grupo de jovens que estava vivenciando essa cena através de papéis, canetas, livros e dados (além, claro, da imaginação) se levanta das cadeiras gritando: “É vinte, é crítico de novo!!”, ligando e desligando as luzes da casa.

Aventuras como essas, muito presentes em livros de fantasia como os de Tolkien, também são comuns em partidas de Role Playing Game (RPG). O estilo de jogo que surgiu nos anos 70 e fez muito sucesso nas décadas seguintes ainda hoje conquista jogadores. Com seres mitológicos, magia e batalhas épicas, os jogadores criam histórias para seus personagens, utilizando livros como manuais e dados para decidir o que acontecerá em seguida.

Em suas pesquisas sobre o assunto, a mestre em Educação Andréa Pavan explica que cada participante constrói seu personagem, com detalhes psicológicos, habilidades intelectuais e físicas, assim como suas deficiências. “Esses personagens devem adequar-se a um ambiente, proposto pelo livro do mestre, no qual a trama se desenrolará.”. Andréa também destaca que no jogo não há vencedores, o objetivo é desenvolver uma história construída em grupo.

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No sistema de jogo Dungeons and Dragons (D&D), durante as campanhas, há a figura do Mestre, pessoa que guia a história e é uma espécie de árbitro do jogo, um moderador. Geralmente, é escolhido como mestre quem possui mais conhecimento sobre os livros e mais disponibilidade de tempo para criar e narrar uma boa história, o que pode exigir muita disposição. Lincoln Barbosa, estudante de 24 anos, explica que o mestre não participa do jogo de forma direta, mas sim, de forma indireta, administrando o mundo, os personagens não jogáveis (também conhecidos como NPC) e os desafios do jogo. “Tudo o que ele faz é baseado nos livros, tudo o que aparece no mundo tem que ter um motivo para aparecer. Por isso que não pode simplesmente um dragão brotar no meio da cidade, ele tem que ter um motivo para estar ali”.

Para poder jogar, é preciso bastante leitura. O professor de Língua Portuguesa Bruno Farias, 26 anos, explica que para todos os jogadores do grupo é necessária a leitura do Livro do Jogador. Já para o mestre, há ainda mais leitura. É necessário que este leia também o Livro do Mestre, o Livro dos Monstros e, dependendo do cenário, livros complementares. Olavo Pelizzari, advogado de 27 anos, conta que durante as primeiras campanhas, ele e os amigos liam juntos os livros, mas que conforme a curiosidade e a necessidade de saber as regras do jogo foram aumentando, eles começaram a fazer a leitura individualmente na internet. Ele ainda reforça que comprar os livros físicos é geralmente muito caro.

Hoje os jogadores de RPG também contam com outras facilidades oferecidas pela tecnologia, como aplicativos para celular que facilitam a jogabilidade, para jogar os dados, que facilitam a organização do grupo e que calculam e explicam o uso as magias, por exemplo.

Influências na vida pessoal

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Em uma pesquisa realizada pela Agência Prefixo entre jogadores de D&D, na qual foram obtidas 943 respostas, 91% dos jogadores afirmam que as campanhas de RPG influenciaram de alguma maneira na formação de caráter e raciocínio lógico. O advogado e gnomo da floresta nas horas vagas, Franco Pelizzari, de 30 anos, conheceu o estilo de jogo na adolescência e diz perceber que o RPG ajuda no desenvolvimento da criatividade e também no senso de interpretação.

Uma das pessoas que respondeu o questionário, que era anônimo, destacou que “Os conceitos como bem e mal, caos e leis, fazer o bem ou não, consequências dos seus atos, sejam bons ou ruins, resolução de enigmas e mistérios, foram todos muito bem explorados nas aventuras e campanhas que joguei e isso me influenciou fortemente no desenvolvimento do caráter.”

Além da formação pessoal, a formação de laços de amizade também é destacada por Franco Pelizzari. “Além do fato de uma campanha poder durar anos, há uma ligação intensa entre os participantes, seja pessoalmente, bem como entre os personagens”, afirma o advogado. Na pesquisa realizada pela Prefixo, 91,4% responderam que presenciaram o estreitamento de amizades.

Quando questionados a respeito de alguma discriminação sofrida por se interessarem por algo considerado “coisa de nerd”,  ou preconceito por desinformação ou boatos que corriam sobre os jogos anos atrás, menos da metade dos que responderam à enquete (42,2%) disseram ter sofrido algo do gênero.

Confira outras respostas ao questionário online

 

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