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Bissexualidade na adolescência: escolha ou modismo

Segundo pesquisa a taxa de adolescentes que não se consideram heterossexuais aumentou nos últimos anos. A reportagem buscou saber se o aumento da taxa de adolescentes bissexuais se dá por escolha ou pela busca de aceitação e inserção social. 

Texto: Maria Eduarda Cagneti Silveira, Daiane de Souza e Anna Paola Paraná.

Junho foi o mês dedicado à celebração do orgulho gay. E em meio a um mundo que tem aceitado cada vez mais a orientação sexual do outro e abraçado a igualdade nesse sentido, um assunto que está sendo muito discutido é a bissexualidade. Segundo uma pesquisa feita em 2015 pela J. Walter Thompson, a geração Z, de 15 a 22 anos hoje em dia, está se identificando cada vez menos como heterossexual. A diferença entre a geração Y, pessoas entre 23 e 32 anos, que se consideram heterossexuais e a geração Z é de 17%. Isso se deve a uma aceitação da sociedade para com essa orientação sexual nos dias de hoje – que leva à maior experimentação por parte dos adolescentes – ou é apenas uma “modinha” entre pessoas dessa faixa etária?

Luiz Henrique Martins é coordenador há 5 anos de uma escola de Ensino Médio em Balneário Camboriú (SC) e tem uma opinião bem formada sobre o assunto. Por lidar com adolescentes há um tempo, ele afirma que o comportamento padrão é de busca de afirmação própria. “De uma maneira geral, às vezes eles acreditam na própria história que constroem. Então a bissexualidade, às vezes a pessoa é realmente, e tem quem ache que é porque tem o amigo ou conhecido que se identifica dessa forma, e acaba assumindo isso, mas não é assim que funciona”, conta. Luiz explicou à reportagem que ele mesmo mantém uma conversa com os alunos e orienta sobre isso, e garante que essa é a diferença entre o ser bissexual e o modismo construído pela sociedade. “Aqui na escola temos casos de bissexuais e esses adolescentes são, e ponto, porque há muita conversa em relação à isso. Para mim o que interessa é o amor e eu tento passar isso pra eles”, afirma.

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A psicóloga Aline Cardoso compara a questão do modismo citada por Luiz ao uso do cigarro em gerações anteriores. Ambos os comportamentos são formas que os adolescentes encontraram de se sentirem inserido socialmente. “Já atendi pacientes que diziam ser bissexuais para os outros quando na verdade não eram. Mas existe sim os que se descobrem na pré-adolescência, normalmente pelos 12 anos de idade, e ficam confusos tentando se encaixar, pois a sociedade adulta exige que se escolha apenas um sexo”, explica a psicóloga. Zair Machado tem 25 anos e vive um relacionamento hétero afetivo há alguns anos, mas se considera bissexual. “Com 12 anos, ainda sem saber direito sobre as diferenças impostas pela sociedade, eu fiquei com uma amiga algumas vezes. Depois fui crescendo e, talvez por vergonha, esqueci dessa parte da minha vida e passei a ficar com meninos, porque era o ‘certo’”. A afirmação de Zair veio quando terminou com o namorado e sentiu-se apenas atraída por garotas. Hoje, de volta com o mesmo parceiro, ela diz sentir atração sexual tanto por ele quanto por mulheres, e ainda conta que ele sabe à respeito da escolha dela.

A história de Zair foi diferente. Ela se identificou como bissexual ainda na adolescência e hoje mantém consciência dessa escolha, mas nem sempre é assim. Por repressão da sociedade, muitas pessoas bissexuais não conseguem assumir, como é o caso das meninas com quem Zair se relacionou quando mais nova. “Talvez a vida não coloque mais essa sensação no caminho delas. Somos educados a viver somente um amor por vez. Meninas, mulheres acabam tendo um pouco de medo de largar algo certo com o seu parceiro, para viver o novo. Isso talvez se encaixe com essas meninas que já desejaram uma menina. Então acredito que a pessoa bissexual, que uma vez que fala e sente ser bi, ela sempre vai ter esse sentimento dentro dela, por mais que um dia diga que não”, conta.

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Aquele que se encontra como bissexual, segundo Zair, sempre vai ter essa escolha dentro de si. Em contraponto, a psicóloga Aline colocou que a adolescência é a fase em que a pessoa finaliza o desenvolvimento da sua personalidade, bem como a sua identidade sexual. Por isso, fazer essa escolha como um sentimento verdadeiro, ou para se inserir socialmente, é uma linha tênue.

De toda forma, por preconceitos impostos pela sociedade, principalmente por dizer que a pessoa que se atrai por ambos os sexos é indecisa ou promíscua, muitos ainda se sentem repreendidos a assumir sua real orientação. A adolescente G.M., de 16 anos, não levou em conta todos esses fatores e apenas confiou naquilo que sentia. G. se considera bissexual desde os 12 anos de idade, que foi a primeira vez em que sentiu atração por outra garota, e desde a primeira relação com uma amiga, se relaciona com ambos os sexos. “Quando me assumi bissexual para a minha família, disseram que era apenas uma fase, hoje eles entendem que essa sempre fui eu. Vou continuar sendo bissexual, pois não escolhi ser assim, na verdade sempre fui”, explica.

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