Bem-Estar

Garrafadas: sabedoria popular ou engodo?

Não é de agora que as plantas e produtos naturais fazem parte da manutenção da saúde do nosso corpo. Muito tempo atrás eram a única opção. Mas e hoje? Como saber se estamos recorrendo corretamente a esses recursos. De fato fazem bem?

Texto: Dieize Coimbra, Marília Cordeiro e Victória Severo

Mesmo que as famosas garrafadas tenham potencial terapêutico para o tratamento de uma determinada patologia, existem fatores que não são considerados, que comprometem sua eficácia e segurança. Como por exemplo, as plantas que as compõem: Quais os critérios para seleção? Quais estudos experimentais que comprovam a eficácia? Usou a planta correta? Existem efeitos tóxicos ou colaterais?

O doutor e mestre em química orgânica pela UFSC, professor Valdir Cechinel Filho, levantou essas perguntas. Segundo ele, muitas plantas são extremamente tóxicas e podem causar danos irreversíveis à saúde, até óbitos. “É preciso ter amplo conhecimento sobre a classificação e outros dados sobre o potencial terapêutico e tóxico das plantas utilizadas”.

Ele frisa que o veículo de preparação, muitas vezes bebidas alcoólicas, também pode prejudicar a saúde. Para o doutor, mesmo que a garrafada aja pelo princípio da sinergia, um dos pilares da fitoterapia, existem muito mais contras do que prós. “A famosa frase conhecida como ‘tudo que é natural só faz bem’ não procede”.

Valdir explica que uma preparação fitoterápica só pode ser utilizada se preparada por um profissional especialista. Usando critérios pré-estabelecidos em relação à qualidade, segurança e eficácia de fitoterápicos. “O que não parece ser o caso das garrafadas, devido à falta de critérios na preparação, como a seleção das plantas e o uso de bebidas alcoólicas”.

Dona Norma afirma que é difícil explicar o tipo de trabalho que faz. Ela dá as ervas necessárias para que a pessoa interessada possa preparar a garrafada em casa. Antes, lê a energia da pessoa para saber qual é a fonte do problema. Conheceu a técnica com uma senhora que aprendeu com um padre da Nicarágua, ele trouxe o método para a região.

Lucio Antônio Daspett Paez, popularmente chamado de “Xirú” no pequeno distrito rural X de Maio, localizado no interior de Toledo – PR, é descendente de índios. Foi deixado pelos pais ainda criança em uma aldeia no Paraguai. Foi lá onde aprendeu com o cacique quase tudo o que sabe sobre as propriedades das plantas, raízes e outros ingredientes que utiliza em suas garrafadas.

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Ele estuda regularmente em uma sala quase secreta onde guarda dezenas de livros que usa como referência para aprimorar seu conhecimento sobre a saúde do corpo. Xiru afirma convicto que “a única maneira de ‘limpar nosso sangue’ é tomando chá. Não existe outra alternativa”. Garante que se a pessoa “limpar o sangue” não tem como ficar doente.

Ele recebe pessoas de todas as idades com todo tipo de enfermidade. A garrafada é feita de acordo com a capacidade da pessoa. “Por isso precisa conversar com ela”. Dependendo do sintoma, ele faz uma espécie de diagnóstico e formula combinações do que será necessário para resolver o problema. A partir disso, explica que são escolhidas as ervas que “possuem toda vitamina, proteína, ácidos que regulam nosso organismo”.

Cristiane de Oliveira é massoterapeuta e defende a opção alternativa que foi a única encontrada quando já não sabia mais ao que recorrer. Quando seu filho Erick Eduardo tinha quatro anos, apresentou sintomas que nenhum medicamento conseguiu controlar ou curar. Ela também consumiu quando criança e conta sobre suas experiências:

É importante lembrar que a prática não pode ser comercializada sem autorização. E as pessoas que a fazem não podem se comportar como médicos, oferecendo diagnósticos e tratamentos. A garrafada pode ser sim um complemento, mas não pode substituir o tratamento tradicional.

Verônica Aline, gerente de uma loja que oferece produtos naturais para o tratamento alternativo de doenças, recebe um público que equilibra essa questão. Segundo ela, as pessoas procuram as ervas ou por encaminhamento nutricional ou para o emagrecimento.

As principais doenças que levam as pessoas a optarem pelo uso de ervas com fins terapêuticos são diabetes, colesterol e menopausa. Porém, Verônica salienta que as ervas são vendidas com fins fitoterápicos somente após conversar com o cliente para saber se tem alguma alergia e explicar os cuidados que se deve ter, como a quantidade a ser tomada e os horários. “Muitas pessoas vêm aqui e querem comprar tudo, mas não vendemos porque pode fazer bem para uma coisa e prejudicar outra”.

As recomendações feitas pelo professor Valdir é que sejam utilizadas preparações fitoterápicas (tinturas, pomadas, cremes, xaropes, etc.) a base de plantas “de reconhecida ação terapêutica, destituídas de efeitos tóxicos e preparadas por profissionais da área farmacêutica”.

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