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Cidades pequenas e torcedores de times grandes

Com poucas partidas disputas no ano, clubes de futebol de cidades pequenas perdem torcedores para grandes times de outros centros

Texto: Elyson Gums e Rodrigo Rodrigues

O calendário sofrível do futebol brasileiro tem as suas peculiaridades, ainda mais para os times de cidades pequenas, que disputam divisões inferiores do país. Em Itajaí, por exemplo, o Clube Náutico Marcílio Dias entrou em campo pela última vez em novembro de 2016, pela rodada final do Campeonato Catarinense da Série B. A próxima aparição do Marinheiro perante a torcida será no próximo sábado (1º de julho), também pela segundona estadual. Um hiato de sete meses entre as partidas. Intervalo longo de tempo que dificulta a fidelidade da torcida e, por consequência, a ascensão das próprias agremiações.

No caso dos pequenos, a identificação vem de maneiras diferentes e a comunidade de torcedores reage a ela de formas diversas. Daí surgem, por exemplo, os torcedores mistos: quem mora em uma cidade e torce pra um time de fora, seja do mesmo estado, ou o caso mais comum, algum time do eixo Rio-São Paulo.

O fenômeno é comum em todo o Brasil, obviamente em especial nas regiões Sul, Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Com exceção do Rio Grande do Sul, os times de maior torcida em todos os estados desta região são de São Paulo ou Rio de Janeiro. A postura de torcer para dois times é controversa e rende pesquisas científicas e discussões acaloradas em torcedores, já que isso desafia a lógica daquela velha máxima de que “a relação de um torcedor com seu time de futebol é quase como a de uma religião”.

Em alguns casos, os clubes conseguiram fortalecer suas identidades junto às suas cidades e às regiões em que estão situados. O caso mais emblemático é o da Chapecoense, que fez com que o sucesso dentro de campo se traduzisse também no apoio da cidade. A prefeitura de Chapecó apoiou a equipe (inclusive financeiramente), e fez com que sumissem as camisas de Grêmio e Inter na Arena Condá. O Rio Grande do Sul, inclusive, é outro que não sofre com as interferências de times de outros estados – apesar de torcedores do interior também apoiarem a dupla GreNal.

Em Santa Catarina, o Vale do Itajaí tem dois representantes de equipes que  se destacam pela identificação com suas cidades. Uma delas é o Brusque Futebol Clube, um dos únicos campeões catarinenses do interior e time que leva o nome de sua cidade. Além disso, dois outros símbolos regionais estão presentes na história da equipe: O Marreco, um dos símbolos da cidade, por muito tempo também foi o mascote do time, na forma do Marrecão Guerreiro; e a Havan, empresa famosa originada ali, sempre apoiou o time e estampou o manto.

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Brusque FC manda os jogos no estádio municipal Augusto Bauer (Foto: Divulgação)

Essa identificação com a cidade se intensificou com o sucesso recente da equipe, que disputa sua segunda Série D consecutiva e tornou-se notícia nacional ao jogar duro com o Corinthians na Copa do Brasil. Às vésperas da partida, o presidente da equipe destacou que não vendeu o mando de campo para “presentear a cidade com o jogo”. A imprensa local também destacou a importância daquele jogo para o município, ressaltando os laços entre clube e cidade.

“É sempre muito bem elogiado por jogadores que passam por ali e que gostam da cidade. Como o time leva o nome da cidade, a ligação entre instituição e município fica mais forte ainda”, explica André Felipe Schlindwein, torcedor do Bruscão desde jovem. Sua relação geográfica com o futebol é curiosa: ele nasceu em Guabiruba, cidade vizinha que não tem time de futebol profissional. E torce também para o Botafogo, do Rio de Janeiro.

Outro exemplo é o Marcílio Dias que, além do futebol, traz a ligação com a náutica, tradicional na cidade. “Meu amor pelo Cílio vai muito além do futebol. Itajaí não seria a mesma se não tivesse o Marcílio Dias. Digo Marcílio de forma dupla, porque o marinheiro que deu nome ao clube também marcou nosso município”, explica Bryam Dissenha, morador de Itajaí e torcedor do Marcílio Dias.

Futebol: um esporte para todos

O desenvolvimento das metrópoles foi importante para que o futebol se popularizasse, especialmente entre as classes mais pobres. O historiador Nicolau Sevcenko explica que pelos idos da Revolução Industrial, as pessoas se mudavam para trabalhar e perdiam suas identidades, já que trabalhavam por cerca de 16 horas apenas para a própria sobrevivência. Assim, encontraram o pertencimento nas arquibancadas de futebol.

Quando o futebol chegou ao Brasil, o contexto era um pouco diferente. No Rio de Janeiro, havia uma grande comunidade de negros ex-escravos pelas ruas. Depois da abolição da escravidão, não foi criada nenhuma política para dar assistência a essas pessoas. Por isso, quando libertas, não tinham dinheiro e nem perspectivas de futuro. Um clube de futebol em particular representou estas pessoas: o Vasco da Gama.

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O mulato Cândido José de Araújo, em 1904, foi o primeiro presidente não-branco de um clube de futebol no Brasil (Foto: Divulgação)

O esporte bretão era destinado às elites, já que foram os ricos que trouxeram as regras para o Brasil e organizaram as ligas. Negros eram proibidos de participar enquanto jogadores e não podiam nem assistir aos jogos. Quem quebrou esse paradigma foi o Vasco, primeiro clube a oficialmente empregar negros na equipe, embora o time conhecido por ser “do povo” seja o Flamengo, que também passou a contratar negros a partir dos anos 30.

“Primeiro time a lutar contra o racismo sendo campeão com um time formado por negros e mulatos. Acabou com a hegemonia da época de Botafogo, América, Flamengo e Fluminense”, analisa Willian Rocha, carioca torcedor do cruzmaltino. A opinião é a mesma de Eduardo Almeida, também morador da Cidade Maravilhosa e torcedor do Vasco desde criança.

“No âmbito histórico ele representa bem a cidade, mas no âmbito competitivo ele vem deixando muito a desejar de 2012 pra cá”, opina Almeida. Esta opinião é diferente de Willian, que acha que os títulos do passado do Vasco, como os do esquadrão de Juninho e Edmundo, ajudam a estabelecer a relação entre Vasco da Gama e Rio de Janeiro.

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