Arte e Cultura

Opinião: Precisamos falar sobre apropriação cultural

Apropriação cultural existe e é preciso falar sobre ela. Nem sempre é negativa, mas  podem transformar elementos cheios de significados em meros bibelôs

Texto: Alexsandra Souza

Uma vez li uma reportagem em que uma moça branca com tranças afro havia sido considerada a musa do Lollapalooza 2016. Li uma também que falava de uma médica negra que sofreu racismo por usar dreadlocks. As duas estavam usando penteados de origem afro, mas só uma ouviu que seu cabelo fedia. Essas duas situações são exemplos de como símbolos da cultura negra caem muito bem em brancos e não em negros.

Quando retiramos elementos de uma cultura, esquecendo sua simbologia e o seu contexto, estamos nos apropriando da cultura de um certo grupo. Quando retiramos de uma minoria seus elementos, marginalizamos suas tradições e vendemos os seus símbolos em prateleiras como meros produtos sem história nenhuma. Estamos, novamente, nos apropriando da cultura.

Ediene do Amaral Ferreira, doutora e professora de Sociedade e Cultura, explica que apropriação cultural é quando adotamos elementos que caracterizam um certo grupo na nossa cultura. Para ela nem toda apropriação cultural é negativa. É possível apropriar-se culturalmente de algo que você se identifica e respeita. Respeito, para Ediene, é exatamente o ponto da apropriação cultural. Quando você não respeita e ofende o grupo ao qual pertence o elemento que está usando, acontece a apropriação cultural da maneira mais negativa possível. No áudio a seguir a professora Ediene explica o que é apropriação cultural.

Tornar uma cultura comercial e vazia de significados, esquecendo dos seus representantes, é subjugá-la. Vendê-la como bibelôs, enfeites de cabelo, usar pessoas sem nenhum tipo de ligação com a cultura para promover roupas e estampas típicas, ignorando que existem no mercado pessoas capazes de promover com qualidade e veracidade, é afirmar mais uma vez que existem culturas superiores e outras que não importam tanto.

O estudante de Moda Francisco Oliveira é um jovem negro de 23 anos, integrante da Frente Negra Univali. Ele acredita na importância de falar sobre apropriação cultural. Principalmente quando se é negro, em um país onde ser negro ainda é um problema e em que a maioria da população é considerada socialmente minoria. É nesse movimento que esse grupo têm seus traços, cantos, religiões e outras características marginalizadas e desvalorizadas por tanto tempo. Por conta disso, muitos negros tentam se encaixar em eternos padrões da branquitude.

Falar sobre apropriação cultural é devolver a determinado grupo elementos utilizados por seus antepassados que possuem histórias e significados. Para Francisco, ninguém deve ser proibido de usar algo que goste ou ache bonito, o problema aparece na forma que a pessoa é vista utilizando aquele elemento. Por exemplo, muitas mulheres negras utilizam as tranças como uma forma de melhorar a autoestima durante o período de transição (período de retorno à condição natural após algum procedimento estético), mas muitas pessoas vão apontar para essa mulher e chamá-la de porca e suja, julgá-la pelas tranças. Já na garota branca, as tranças são vistas como estilo, a garota rebelde.

É importante frisar que a discussão sobre apropriação cultural não precisa tratar de divisões de grupos e construções de muros em torno de culturas e seus elementos. A professora Ediene explica: “devemos pensar a apropriação cultural no sentido de denunciar aquilo que é desrespeitoso e descontextualizado e incluir aquilo que é respeitoso”. Para ela, uma pessoa pode não pertencer a uma única cultura. Ela pode ser o resultado de várias e incluir outras em sua vida ao longo do tempo.

O caso Mallu Magalhães

Assim que assisti a este clipe pela primeira vez, sabia que havia algo que me incomodava. Não sabia o que era, mas estava desconfortável com aquela mulher branca e bem arrumada, dançando toda desengonçada à frente de várias pessoas negras suadas e com o corpo à mostra. Fiquei incomodada com o fato de ela estar sempre à frente nos enquadramentos das cenas, com o fato de os negros estarem sempre em lugares que remetem à pobreza, como construções inacabadas e ela em alguma cobertura.

O maior problema do clipe é a confirmação dos esteriótipos, da sexualização dos negros. Da branca com privilégios continuar em sua patamar superior, enquanto nós estamos atrás, seminus e dançando para agradar.

* Colaboraram Kamila Dias e Suelen Oliveira

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