Bem-Estar

Indústrias têxteis: quando o trabalho prejudica a saúde

Movimentos repetitivos, barulho, pó, produtos químicos, odores... São muitos os problemas apontados por funcionários do setor têxtil. O bem estar nessas empresas é um grande desafio.

Texto: Dieize Coimbra, Marília Cordeiro e Victória Severo

Não são poucas as queixas feitas por trabalhadores de indústrias têxteis. Existem hoje muitos processos contra empresas desse segmento. A maioria porque teve sua saúde prejudicada por movimentos repetitivos – levando em quase todos os casos a L.E.R – ou após se exporem a determinadas substâncias químicas/tóxicas que potencialmente acarretam a problemas respiratórios e alergias e até complicações auditivas.

Claudia* trabalhou em diversas empresas desse segmento e já presenciou diversas vezes casos em que tanto a NR 15 quanto a NR 12, normas reguladoras, foram ignoradas na prática. “As lâmpadas ficam muito próximas das funcionárias. As revisoras são as mais prejudicadas porque ficam muito tempo paradas”. Essa exposição rendeu a ela manchas pelos braços e pescoço.

Essas empresas produzem, inevitavelmente, muito barulho. Principalmente por conta dos equipamentos de costura. Claudia, que já tem mais idade, explica que é complicado. “Já tem o barulho das máquinas e de tudo que é tipo de coisa. Na minha opinião, deveria ser um som ambiente ou cada um com o seu próprio rádio ou celular. Não é sempre que a gente tá bem pra trabalhar ouvindo música”.

Ela conta que existe uma fiscalização, mas que não resolve de fato. “Eles vão lá, medem… Mas na hora ninguém diz que erguem o rádio no último volume. Alguns querem, outros não. Um barulho infernal. Às vezes você não está bem, mas não tem como falar nada, um  ou outro não concorda e continua assim”.

Essa é também uma queixa da Bruna*, que trabalha em uma confecção de lençóis. Mas o que mais tem prejudicado seu desempenho são as dores musculares contínuas decorrentes do movimento repetitivo. “Sinto muita dor nos braços. É muito tempo fazendo a mesma coisa sem nenhum alongamento ou algo assim”. Ela conta ainda que ao final do dia precisam varrer toda a sala. “Isso sem máscara, sem nada. Chega a ser difícil respirar, depois do dia inteiro cortando e costurando milhares de peças… Junta muito pelo”.

Na última empresa em que trabalhou havia uma situação ainda mais complicada. Existia um processo de lavagem das peças com manchas de óleo, em que era utilizado um produto chamado Semorin. Usavam o equipamento adequado na realização do procedimento porém, não era o suficiente. “Ele era muito forte. Quando eu abria chegava arder os olhos e o nariz, mesmo com a máscara”.

Claudia* também já teve contato com esse produto durante dois anos e meio e confirma o desconforto que ele causa. O uso foi interrompido, pois causava mal estar não só a quem tinha contato mais direto, mas a todos que se encontravam no mesmo local em que era realizada a lavagem. “Todo mundo estava reclamando, o pessoal estava se sentindo mal… Eu fui (ficar nessa função) algumas vezes mas desisti porque não dava. Ficava sem fôlego, parece que trancava a respiração”.

Esse tipo de reclamação e reivindicação deve ser levada ao sindicato para ser analisada e repassada aos responsáveis pra que sejam tomadas as medidas cabíveis. É o que vem sendo discutido e realizado pela CIPA, por meio da Semana Interna de Prevenção a Acidentes de Trabalho (SIPAT). Na empresa onde a Bruna trabalha as atividades já começaram.

A assessoria de imprensa da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) informa que a entidade orienta e esclarece dúvidas das empresas sobre a NR12, leva demandas para o Ministério Público e mantém um Comitê de Química Têxtil que discute regras para segurança do consumidor. A equipe de colaboradores e consultores da empresa realizam atividades que visam apoiar o desenvolvimento sustentável das empresas do setor.

Equipamentos de Proteção Individual

Um dos principais pontos abordados quanto a essa questão é o uso dos EPIs – equipamentos de proteção individual, de acordo com a norma técnica NR6. O coordenador do comitê de química têxtil da Abit, Lourival Flor, frisa a necessidade do uso desse material e fala sobre a regulamentação desse setor no país, que inclusive segue um padrão mundial. “Penso que as leis do Brasil com respeito ao manuseio e utilização de produtos químicos está bem regulamentada, sendo sempre obrigatório o acompanhamento das Fichas de Segurança, onde todos o detalhes são encontrados”.

Tahuana Romero, fonoaudióloga ocupacional, explica que todas as empresas devem fornecer gratuitamente esses equipamentos aos seus funcionários. “Todas as atividades profissionais que possam imprimir algum tipo de risco físico para o trabalhador devem ser cumpridas com o auxílio de EPIs, que incluem óculos, protetores auriculares, máscaras, mangotes, capacetes, luvas, botas, cintos de segurança, protetor solar e outros itens de proteção”.

O problema relacionado as EPIs é que mesmo quando as empresas oferecem o equipamento, muitos funcionários não fazem uso alegando que são desconfortáveis. Mesmo assim, é obrigação da contratante assegurar o uso da proteção através de fiscalização dentro de cada setor. Caso um funcionário não o use, a empresa deve dar uma advertência. Se a situação se repetir, suspensão, e na terceira vez é demissão por justa causa.

O uso dos EPIs é essencial para garantir a saúde e proteção individual do trabalhador, evitando consequências em casos de acidentes de trabalho. “O uso também é importante para garantir que o profissional não será exposto a doenças ocupacionais, que podem comprometer a capacidade de trabalho e de vida dos profissionais”, explica Tahuana.

Os riscos ao trabalhador pelo não uso ou mal uso dos EPIs podem variar desde a uma perda auditiva induzida pelo alto nível de ruídos, problemas respiratórios, oculares e quedas mais graves que podem comprometer a qualidade de vida do trabalhador.

Como fonoaudióloga, Tahuana explica que o exame de audiometria ocupacional é um exame complementar que deverá ser solicitado pela empresa de acordo com a função a ser exercida pelo funcionário e também com os riscos ocupacionais (biológicos, físicos ou químicos) que o mesmo estará exposto.

Benefício

Trabalhadores do setor têxtil expostos a produtos químicos, dependendo do grau de exposição, devem receber um acréscimo salarial referente à insalubridade ou periculosidade. Isso é identificado e determinado pelos órgãos do Ministério do Trabalho.

 Preocupações e melhorias

A adesão as normas internacionais (ABIT junto com a ABNT e outros órgãos como Senai e Cetiq estão dando procedimento) tornaram esse setor mais propício para o trabalho. O uso dos químicos é inevitável. Lourival explica que eles são utilizados desde a limpeza, tintura e acabamento e alguns permanecem na peça, enquanto outros são eliminados. Os alertas são com relação aos que ficam. “Dois focos são vistos. O primeiro é o que essa roupa pode causar diretamente na pele do usuário e o segundo é quando essa roupa for descartada ou mesmo quando essa roupa é lavada, que produtos estão indo para o ambiente, com possíveis contaminações de solo e água”.

Com relação ao contato direto com a pele, existem precauções e poucas ocorrências têm sido observadas. Em outros países esse tipo de regulação é mais avançada. “No Brasil, num trabalho de 2 anos, já conseguimos elaborar 10 normas para regular a utilização desses produtos químicos, sempre em consonância com as normas já utilizadas em outros países”, afirma Lourival.

Para se ter uma ideia, o número total de produtos químicos controlados no mundo é inferior a 30. “Com relação aos dois focos que dirigem essas normativas , creio que o principal tem sido o cuidado com o produtos que eventualmente poderiam contaminar o solo e a água. Esse processo é de longo prazo e, às vezes, pouco perceptível da população”.

Por isso medidas estão sendo pensadas e tomadas para amenizar a incidência desses tipos de problemas, tanto com os funcionários quanto com o meio ambiente.

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