Tecnologia

Tecnologia ajuda a democratizar a produção musical

Não é preciso equipamentos de ponta ou conhecimento musical avançado pra fazer um som, basta se aventurar pelas ferramentas digitais disponíveis no mercado

Texto: Rodrigo Rodrigues e Elyson Gums

Lucas Souza, o 808Luke, gravou um som de três minutos com vocais, vários instrumentos de sopro e diferentes instrumentos de percussão. Também foi ele quem mixou, masterizou e fez a divulgação. Isso significa que Lucas é multi-instrumentista e tem acesso a um estúdio com grande variedade de instrumentos musicais? Não necessariamente.

Isso porque Luke fez tudo de casa. Sentou em seu home studio, passou algumas horas em frente ao computador com o Fruity Loops aberto e deu início à sua carreira como produtor musical, paralelo à Engenharia Civil. Ele é o chamado beatmaker, termo sem tradução oficial para português, mas que em tradução livre significa “fazedor de batidas”. Produz instrumental de rap.

O caminho escolhido pelo paranaense Kellyton Blasio (Palo Alto Lost Boys) é semelhante. Todas as composições são feitas por instrumentos tocados virtualmente e por samples, trechos de outras músicas utilizadas para novas criações. Ele lançou uma mixtape sem conhecimento prévio sobre instrumentos “de verdade” ou sobre teoria musical.

Aos 17 anos ele descobriu que era possível fazer música só com um laptop e quis fazer também. Aprendeu tudo do zero – já que até os 13, nem ouvia música. Mas se virou. Luke já tinha noções básicas de música porque tocava guitarra antes de começar a trabalhar com rap – mas hoje em dia raramente usa o instrumento pra gravar.

“Isso te abre muito a criatividade”, opina Lucas, sobre o uso de softwares e de plug-ins que simulam instrumentos musicais. “Não seria possível ter uma banda tocando no teu quarto todo dia”.

Kellyton tem opinião semelhante e destaca a facilidade que a tecnologia proporciona para fazer música. “Acredito que a gente está no melhor momento desde que existe música. Está muito acessível, você não depende mais de ninguém”.

É realmente bastante simples: dá pra fazer música usando só o celular. Aplicativos como o Garage Band permitem que você grave no ônibus à caminho do trabalho. Dá pra ir além: Steve Lacy, do The Internet, produziu “PRIDE.”, de Kendrick Lamar no iPhone. O disco ganhou certificação de platina três semanas depois do lançamento.

Fruity Loops e home studios

Além das histórias parecidas, os dois tem em comum o Fruity Loops, também chamado de FL Studio. É um dos principais softwares para produção musical, capaz de atender as necessidades de produtores independentes e de músicos consagrados. Alguns exemplos são Avicii, Armin van Buuren e Soulja Boy.

“Ele é bem didático, bem tranquilo de usar quando se está começando”, comenta Luke, que tentou usar outros programas, mas não se adaptou bem. Cada faixa de áudio corresponde a um instrumento – as baterias, melodias, acordes, linhas de baixo e assim por diante e são montadas separadamente.

As notas podem ser customizadas individualmente, bastando cliques com o mouse ou o toque de teclados. Outra opção é samplear outras músicas. Isso significa usar trechos de outras músicas em uma nova composição, sem criar as coisas do 0. No exemplo abaixo, o produtor estadunidense Jonwayne usa o tema de abertura de Bob Esponja em uma música.

O que dita este momento de produção é o estilo de cada produtor – há quem use mouse e teclado, controladores midi, samplers e por aí vai. Os dois entrevistados usam apenas mouse e teclado. O equipamento utilizado por eles se resume basicamente a: computadores, placas de áudio, microfones, caixas de som e fones de ouvido. Todo o resto é feito com simulação de instrumentos.

Esses instrumentos são sons MIDI que podem ser acessados por produtores de todo o mundo. Alguém grava os sons com instrumentos de verdade e disponibiliza essa gravação em bibliotecas de áudio que podem ser baixadas. “Assim eu tenho milhões de opções de bumbo, milhões de opções de caixa… Se fosse tocar em um estúdio, estaria limitado à bateria que me dessem lá”, comenta Kellyton.

Midi é uma sigla em inglês para Interface Digital de Instrumentos Musicais e é uma espécie de linguagem de programação que padroniza e facilita a transmissão de dados de instrumentos musicais elétricos, computadores e outros dispositivos relacionados.

“Ao tocar uma nota num controlador, você não está produzindo som”, explica o professor André Vailati, responsável pelo Laboratório de Produção de Áudio da Univali. Ao invés disso, é criado um dado que é transmitido para computadores e a partir daí pode ser modificado. Por isso, é possível tocar as notas e depois escolher o instrumento que vai ser tocado.

O professor considera a economia de espaço e a grande variedade de opções de instrumentos como as principais vantagens, mas ressalta que tudo depende da vontade e do estilo de cada produção para fazer sentido. Teteu Caetano, da banda Herméticca, complementa a opinião do professor.

“O que não pode acontecer, e está acontecendo, é virar refém dessas novas tecnologias e esquecer o fator mais importante dentro de qualquer trabalho artístico /cultura: O fator humano”, analisa, destacando a importância de não abusar das ferramentas de correção de som, como o AutoTune.

O uso de equipamentos puramente analógicos é comum em estilos musicais que buscam evocar épocas mais antigas. É o caso da The Headcutters, grupo de blues de Itajaí. Todas as suas gravações são feitas com instrumentos analógicos para produzir um som mais rústico, semelhante ao dos bluesmen da Chicago dos anos 30.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s