Bem-Estar

Escola e família são aliados no combate à depressão entre os jovens

A depressão é uma doença que vem sendo tratada há muitos anos e, infelizmente, tem levado muitos jovens e adolescentes ao suicídio

Texto: Dieize Coimbra, Marília Cordeiro e Victória Severo

Olá, é o (a) ________. Acomode-se pois vou lhe contar uma história. Eu não sinto mais vontade de viver. Estou cansado (a), parece que nada está certo.

É assim que muitos jovens parecem se sentir, levando em consideração o aumento na adesão ao “desafio da Baleia Azul” e outras formas de suicídio. Quem decide jogar são pessoas mais vulneráveis e suscetíveis a atos como esses. “São pessoas com a autoestima baixa, não possuem um vínculo estabelecido, e ficam mais vulneráveis” explica a psicóloga Sunamita dos Santos.

Isso também foi observado pela orientadora pedagógica Suzete Schindwein. Na escola onde trabalha, um jovem do ensino médio chegou a começar o desafio, mas conseguiu sair a tempo. O rapaz era quieto, muito tímido e com dificuldades para se relacionar com os colegas. Não tinha ninguém para conversar.

“A depressão em si é uma preocupação de caráter mundial há um tempo e a Organização Mundial da Saúde (OMS) vem apontando que é predominante em mulheres e adolescentes”, comenta a psicóloga. Suzete conta que na maioria das vezes os pais nem percebem a mudança de comportamento dos filhos, que tomam isso como algo normal.

Mas entre todas as diferenças, a orientadora vê algo em comum entre esses alunos: não conseguem lidar com os problemas e sentem vergonha de falar com os pais e até mesmo com os amigos. “Na adolescência, os conflitos com a família, insatisfação com algo e a falta de diálogo com os pais, podem desencadear a doença”, explica Sunamita.

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Atualmente mais de 300 milhões de pessoas sofrem com depressão

“Tinha medo de sair sozinha, olhava as coisas bonitas, mas elas não estavam ali”, conta Ondina Luciano. Ela percebeu os primeiros sintomas aos 36 anos e logo em seguida procurou ajuda médica, mas até hoje permanecem os efeitos. Ela ainda precisa tomar a medicação e adquiriu hipertensão junto a outros problemas de saúde. Ondina ainda não sabe o que provocou a depressão. O motivo da doença é multifatorial, podendo ser biológico ou por eventos externos que causem traumas (perdas, mortes) ou de algo que não tenha uma explicação.

A depressão é um processo emocional em que a pessoa não tem mais o controle de suas próprias emoções, desenvolvendo perda de interesses por tarefas e atividades diárias. Assim, conforme a psicóloga Edileusa Pavesi, é comum nos relatos de pacientes com quadro depressivo um discurso de perda de interesse pela vida, nem sempre com motivos claros. “É importante dizer que o que nos mantêm saudáveis é estar em movimento, em busca de projetos que nos interessem e nos façam felizes.”

Sheila Lourenço não tinha mais vontade de viver. A jovem que sonhava em ter um filho não imaginava que a depressão acompanharia a realização do sonho. Ela também não sabe exatamente o que desencadeou a doença. Acredita que teve início ao descobrir que sua prima estava com câncer. Porém, os sintomas duraram sua gestação inteira. “Tinha medo de perder minha família… Via a morte em todos os lugares”.

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O número de pessoas com depressão, segundo a OMS, cresceu 18% entre 2005 e 2015
O refúgio na internet

Pessoas que criam vínculo com a internet possuem uma pré-disposição a serem depressivas. “A internet é uma fuga da realidade e pode afetar a socialização”, explica a psicóloga Sunamita. Na internet as pessoas conseguem ter tudo o que não tinham na realidade e, ao entrar nesse meio, acabam viciadas. Ao se depararem com o mundo real, acabam entrando em depressão.

Para Sunamita, a informação é um dos principais modos de trabalhar com uma pessoa depressiva. Acompanhe no áudio abaixo:

O psicólogo Clóvis Gartner diz que é muito comum que pessoas carentes e solitárias procurem na internet uma forma de terem companhia e se sentirem acolhidos, por isso a mídia pode acabar estimulando a decisão de acabar com a própria vida. Essa busca se reflete especialmente no desafio da Baleia Azul, pois nesses meios de fácil acesso, as pessoas neste estado psíquico se unem para compartilhar seus sofrimentos. “Esses rituais são criados muitas vezes para unirem e sentirem incluídos em um grupo.”

Para Edileusa o problema não é o jogo, mas sim a forma como as relações sociais são conduzidas. “O jogo não necessariamente é acessado por pessoas depressivas, mas por crianças, adolescentes e jovens desconectados com outras pessoas, com relações sociais de pouca qualidade ou mesmo isolados socialmente”. Ela explica que qualquer coisa pode nos influenciar ao suicídio, mas não necessariamente nos levar a ele e que essa é a importância de estarmos conectados a outras pessoas.

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A cada ano, 1 milhão de pessoas tira a própria vida.
A importância da escola

Na escola em que Suzete trabalha a primeira providência tomada em relação ao desafio da Baleia Azul foi conversar com os alunos e alertá-los para o perigo que esse jogo representa. Além disso os professores foram orientados a observarem mudanças na atitude dos jovens, como pequenas mutilações. Para Clóvis, a escola é de grande importância nesse processo. Os professores devem observar alterações no rendimento escolar e nos aspectos sociais do estudante e, com a família, encaminhar para a avaliação com profissionais especializados.

Quando é observada essa mudança no comportamento do jovem, os responsáveis são chamados para conversar. A orientadora conta que a maior dificuldade nesses casos é de que os pais aceitem e procurem ajuda para os filhos. Muitas vezes os pais são chamados mais de uma vez para que, através da persistência, o aluno receba a ajuda que precisa. Existem vários casos de depressão na escola. Nos casos mais graves em que o aluno não consegue ir para a aula, as avaliações são feitas em casa.

Para Edileusa, a escola deve acima de tudo oferecer um espaço saudável de convivência. Nem sempre são decisivos para o diagnóstico, mas para o tratamento e manejo das situações, com certeza.

Vanessa Bencz é palestrante, ativista social, escritora e quadrinista. Usa seu trabalho para alertar sobre bullying e depressão na adolescência. Confira o vídeo abaixo:

Preste atenção

A depressão apresenta sintomas como crises de choro, perda de interesse e prazer em atividades diárias, isolamento social, alterações de humor, perda ou ganho de peso irregular, insônia ou hipersonia, agitação, fadiga, sentimento de inutilidade, culpa, pensamentos de morte (medo de morrer ou de ação suicida).

“Esses sintomas causam sofrimento clinicamente significativos ou prejuízo social em outras áreas importantes da vida e quanto mais sintomas, maior a gravidade do problema”, descreve a psicóloga Sunamita. Edileuza lembra que a família e os amigos são de grande importância nas relações de qualquer pessoa e assim devem ficar atentos a qualquer mudança significativa na rotina que possa indicar um quadro depressivo, considerando sua trajetória de vida e estado de humor.

Ela lembra que essas pessoas devem ser encaminhadas para psicólogos ou psiquiatras que são treinados para esse tipo de situação. Tentar resgatar coisas com as quais o paciente se identifica e estar presente fisicamente também é de grande ajuda, afirma Clóvis.

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