Política

Movimentos estudantis com pouca voz

Embora exista uma organização que representa os estudantes dentro da UNIVALI, há pouco engajamento e movimentação para mudanças na Universidade

Embora exista uma organização que representa os estudantes dentro da Univali, há pouco engajamento e movimentação para mudanças na Universidade

Texto: Helena Moreira e Kerolaine Rinaldi

Muitas vezes, quem pensa em movimentos estudantis imagina jovens revoltados, lutando por seus ideais e indo às ruas. Outros lembram de suas épocas de faculdade, quando batiam de frente com a instituição e tentavam garantir melhores condições.

Géssica Francine da Rosa, professora de História, explica que os movimentos estudantis no Brasil datam de quando os jovens da elite brasileira iam cursar faculdade no exterior e voltavam engajados em grupos de discussão influenciados pelo Iluminismo.  No entanto, ela ressalta que os movimentos só foram se legitimar com a ditadura do Estado Novo, quando surgiram entidades e os estudantes passaram a se organizar. “Foi nesse contexto que a União Nacional dos Estudantes (UNE) surgiu”, destaca Géssica.

Ela ainda explica que a UNE teve grande relevância durante a Ditadura Militar, quando operou clandestinamente e sofreu severos ataques. Já no ano de 1992, fez intensa pressão por meio do movimento dos ”caras pintadas”, reivindicando o impeachment do então presidente Fernando Collor.

Apenas alguns anos depois, o Bloco 12 da Univali entrava em ebulição. A Associação dos Jornalistas Acadêmicos (AJA) tinha protagonizado uma greve dos estudantes de Jornalismo. A manifestação repercutiu na imprensa estadual. As reivindicações eram por melhor qualidade no ambiente, que até então não tinha salas e estruturas adequadas, além de não ter o reconhecimento do Ministério da Educação.

Giselle Zambiazzi, que se formou em 2002, conta que, durante o curso de Jornalismo na Univali, participou da diretoria da extinta AJA. Com o surgimento dos cursos de Relações Públicas e Publicidade e Propaganda, a associação mudou de nome. Chegou a se chamar Organização dos Estudantes de Comunicação Social (Oecos), e hoje é chamada de Centro Acadêmico Integrado da Comunicação (CaiCom). Ela comenta que frequentemente eram realizadas assembleias para discutir o curso e também política. Além disso, os estudantes organizavam eventos, mostras de cinema na própria sede da AJA, distribuíam informativos, jornais e fanzines.

Para Giselle, o ambiente acadêmico era o lugar certo para as discussões que a AJA promovia. “Eu queria contextualizar o momento, entender, discutir história, política, economia, e ali era o lugar”, explica a egressa. Hoje os centros acadêmicos têm funções semelhantes.

O presidente do DCE da Univali, João Gabriel Bernardo Bueno, explica que o movimento estudantil tem uma hierarquia prevista em lei.  A base dos movimentos é a UNE, que é seguida pelas centrais estaduais, os Diretórios Centrais Estudantis (DCE) e por fim os centros acadêmicos.

De acordo com o presidente do Centro Acadêmico de Administração Professora Rosa Inoue (CAAPRI) e acadêmico de Administração, Guilherme Luchtenberg, a função dos centros acadêmicos é a de representar os interesses dos estudantes. Tanto em relação à universidade e à sociedade, como ações de integração entre o curso, a coordenação e a direção do Centro. De acordo com ele, workshops, palestras e cursos são oferecidos pelo Centro Acadêmico.

Quanto às discussões políticas, ele explica que o CAAPRI age de maneira democrática. Para Guilherme, como possuem o dever de defender todos os acadêmicos, não podem aderir a apenas uma ideologia. No entanto, ele admite que ter um posicionamento político partidário facilita as ações, pois quando o Centro adere a um partido, passa a receber financiamento. “Mas quando se opta por tal situação, perde-se a essência do movimento, a defesa do estudante, para a defesa de certas ideologias que muitas vezes não são compatíveis com o posicionamento dos acadêmicos”, observa Luchtenberg.

Já o DCE, segundo João Gabriel, tem papel de articulador que luta pelos estudantes dentro e fora da universidade. Para ele, isso só acontece se houver diálogo com os estudantes e com a instituição de ensino, o que o estudante de Psicologia diz ser complicado. “A Univali não abre para o DCE. Estamos no conselho superior e no núcleo gestor. Nessas reuniões de conselho o reitor dá as notícias sobre as decisões tomadas, apenas. Nunca vi uma votação que não tenha sido unânime”, declara o presidente.

Ele também diz que os acadêmicos perderam a fé no DCE. Dos 12 mil alunos do campus Itajaí, apenas 2 mil votaram nas últimas eleições. “Os caras querem saber do salgado mais barato, querem a carteirinha de estudante e ficam com raiva por pagar o estacionamento, mas não sabem como mudar isso e nem estão afim. Eles querem que alguém resolva”, revela João Gabriel.

A historiadora Géssica Francine não acredita que os estudantes da atualidade sejam menos críticos, mas que tenham outras formas de reivindicar seus direitos. Ela acredita que existam até mais movimentos agora do que no passado e que sejam mais fáceis de encontrar. “O fato é que a luta não se faz mais só na rua ou em salas fechadas de reuniões. As discussões acontecem principalmente pelo meio virtual, que é mais simples e rápido, apenas sendo ruim o fato de  que são extremamente superficiais”, opina.

Problemas no DCE

De acordo com João Gabriel, o DCE tem atualmente quatro processos judiciais. Consequentemente, tem o seu CNPJ e os seus bens bloqueados. Com isso, todo o dinheiro recebido pelo aluguel da lanchonete do Bloco C3 vai automaticamente para a Justiça.

Além disso, ele conta que a equipe foi dissolvida durante a gestão e que atualmente é o único membro ativo. O caixa do DCE está vazio. Para João, o fato de a gestão durar apenas um ano é negativo. “Temos que aprender a gerenciar. Aqui temos que lutar por bolsas, segurança e outras causas grandes”, conclui.

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