Economia

Economia criativa na moda: geração de renda e consumo consciente

Envolvimento da produção fashion com a degradação ambiental torna a economia criativa na moda uma opção ainda mais viável para novos produtores, em contrapartida às grandes marcas.

Texto e Edição: Daiane de Souza, Anna Paola Paraná e Duda Cagneti

Explorar o potencial criativo de uma comunidade e preservar os recursos naturais. Movimentar a economia local e levar para casa produtos exclusivos, feitos com características do artesanato. Esses são os princípios da economia criativa, um dos setores em maior ascensão nos últimos anos no país. No período entre 2004 e 2013 o mercado de trabalho da indústria criativa cresceu 90%, enquanto o mercado de trabalho tradicional brasileiro avançou 56%, segundo pesquisa “Mapeamento da Indústria Criativa no Brasil”, realizada pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) em 2014.

O Observatório Brasileiro de Economia Criativa (OBEC), ligado ao Ministério da Cultura, define economia criativa como “um setor estratégico e dinâmico, tanto do ponto de vista econômico quanto social: suas atividades geram trabalho, emprego, renda e inclusão social”. Olinda Schauffert, docente dos cursos de design da Univali e especialista em economia criativa, explica que esse tipo de economia se baseia no princípio de que as pessoas podem ter lucro e, consequentemente, gerar emprego e renda sem explorar a natureza. Ao contrário disso, “a economia criativa vai explorar o potencial criativo daquela comunidade e é por isso que ela é tão ligada à cultura”, completa.

Letícia Michels, 23, é designer de moda e proprietária do ateliê que leva seu nome, na cidade de Joinville. A jovem é uma das 892,5 mil pessoas que trabalham na indústria criativa no país, de acordo com levantamento da Firjan, e baseia sua marca no conceito de slow fashion. A ideia de criar sua própria marca surgiu pelo descontentamento com o sistema de moda atual. “As grandes marcas só querem saber em vender cada vez mais, fazer mais rápido, mais quantidade, e isso acarreta grandes problemas sociais e também ambientais ,como mão de obra escrava, desperdícios de toneladas de materiais, poluição, baixa qualidade dos produtos etc.”, argumenta.

De acordo com a professora Olinda, “o slow fashion propõe o consumo reduzido e consciente da moda, geralmente ligado ao reaproveitamento de peças”. A especialista ressalta que o reaproveitamento é uma tendência mundial, e o segmento da moda tem investido muito nesta área. “Com sobras de fibras, restos de tecidos e linhas é possível criar uma moda não só renovável e sustentável, mas também com uma característica de artesanato, única e exclusiva”, observa. Juliene Darine, 35, recicla moda desde a adolescência e hoje é sócia do Vintage Car Bazar – projeto que garimpa peças de moda pelo mundo, recicla e customiza. A jovem acredita em um novo formato de consumo da moda, que seja colaborativo, diminuindo assim o impacto no meio ambiente. “Sei que meu produto não está criando mais lixo e sim modificando o que já existe”, defende.

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Diferenças entre o fast fashion e o slow fashion – categoria que propõe consumo consciente de moda e pertence a economia criativa

Graziela Morelli, docente do Curso de Design de Moda da Univali e pesquisadora na área de tendências de moda e linguagem, acredita que o cenário atual da moda está em processo de transformação, reflexo da crise econômica, ambiental e também da vontade crescente dos consumidores de expressar personalidade através do que se veste – cenário que se repete em todo o mundo. “O consumidor de hoje não está mais tão ligado às marcas. Ele procura por experiências, abrindo espaço para saber mais da origem do produto, buscando trabalhos artesanais e originais”, enfatiza.

A estudante de moda Mayra Gilson, 18 anos, teve contato com a economia criativa de moda há pouco mais de dois anos. Para ela, os pequenos produtores apresentam trabalhos mais conscientes, que transmitem mais segurança ao consumidor, uma vez que este conhece a origem e procedência da peça que está levando para casa. “Sem falar que a economia criativa abre mais espaço de criação para quem trabalha, ou pretende trabalhar nesta área”, explica.

A economia criativa demonstra que o mercado da moda está em constante renovação e que há espaço para todo tipo de produção. “Vivemos a era da criatividade, em que ideias bacanas têm e terão cada vez mais espaço”, alega a professora. Graziela defende que a mudança de comportamento do consumidor, somada às facilidades de comercialização e divulgação dos produtos – em feiras, bazares e na internet, com lojas virtuais – impulsionam o segmento.

Diferencial

Sabe-se que não é fácil para profissionais independentes, liberais ou microempresários da economia criativa se destacarem no mercado, ou até mesmo competirem com grandes lojas e magazines. Por isso, Letícia aposta na transparência e no preço justo. “Minha estratégia principal é ser sempre transparente em tudo o que faço, buscar matéria prima e mão de obra de qualidade e oferecer um preço justo”, afirma a designer de moda. Outro fator que soma pontos para a economia criativa, a partir de conceitos como o slow fashion em relação à indústria massiva, é o preço dos produtos. De acordo com Olinda, peças produzidas sob os princípios da economia criativa tendem a ser mais baratas. Para ela, os produtores independentes precisam apostar no preço e na qualidade para competir com lojas que oferecem facilidade de pagamento. “As pessoas compram em grandes magazines porque podem pagar no cartão de crédito e parcelar em várias vezes”, ao contrário dos produtores independentes, que não têm capital para concorrer com tais condições.

Em dois anos, desde o surgimento da marca, Letícia se tornou microempresária e conta com o auxílio de duas colaboradoras. Para o futuro, a designer se mostra otimista: “Essa tendência de consumo, das pessoas estarem cada vez mais conscientes e informadas, vai transformar completamente o sistema de moda. As grandes marcas vão ter que repensar suas ações e mais do que vender roupas, vão ter que vender a ideia de um mundo melhor”, prevê.

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Confira a entrevista completa com a professora e especialista em economia criativa Olinda Schauffert:

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