Comportamento

Adultização: o fim da infância antecipado

Os valores e comportamentos do mundo adulto estão se misturando com o mundo infantil e isso pode causar problemas sérios na saúde da criança.

Os valores e comportamentos do mundo adulto estão se misturando com o mundo infantil, o que pode causar problemas sérios na saúde da criança.

Texto: Aline Dall’ Igna, Geraldo Genovez e Pâmela Simas Fogaça

A agenda está cheia, não tem mais horário disponível. Aula de inglês. Natação. Música. Dança. Futebol. Culinária. Escola. Estamos falando da rotina de uma criança que tem, em média, seis anos.  Os pais deixam os pequenos atarefados desde muito cedo. Tudo isso, em função de um mundo que está cada vez mais competitivo e, para os pais, seus filhos têm de ser os melhores. É comum atualmente irmos a um restaurante e vermos também crianças em seus tablets ou smartphones. No momento presente é mais fácil dar o “brinquedo” para a criança se entreter do que propriamente entrar em contato com suas reais demandas.

Estamos falando sobre a adultização infantil. O fim da infância antecipado, crianças que se comportam como adultos e não vivem a totalidade da sua infância.  Os valores e comportamentos do mundo adulto estão se misturando com o mundo infantil e isso pode causar problemas sérios na saúde da criança como: ansiedade, pressão alta, depressão e tantas outras doenças consideradas apenas de adulto, conta o psicólogo Cleberson Fábio Taborda. Ele destaca a importância de dar tempo ao tempo. “Uma criança não deve ser criada como um miniadulto. Criança precisa ser criança e passar a fase da infância da melhor maneira possível”, recomenda.

A vida familiar exerce sobre a criança a influência da cultura e educação dos pais sobre os pequenos. Muitas vezes a adultização é compreendida como algo “normal” para a família. Por exemplo: Se a mãe usa shorts e top, ela repete na filha os mesmos trajes e completa com unhas pintadas, maquiagem e, às vezes, salto alto. O mesmo acontecerá com os meninos. “O caso mais complicado que vivenciei em sala de aula foi com dois meninos, um com quatro e outro com cinco anos. O pai ia com os filhos em churrascos e oferecia bebida alcoólica para os meninos. Até cachaça as crianças provavam”, conta Sandra Regina de Almeida Ferreira, que é pedagoga especializada em Educação Infantil e pós-graduada em Psicopedagogia com Orientação Educacional em séries iniciais.

Muitos casos de adultização infantil ocorrem por pais de primeira viagem, jovens entre 16 e 18 anos. De acordo com Sandra, grande parte dos pais, quando são chamados para uma conversa na escola, assume o erro e pede conselhos para orientar melhor os filhos. Mas não é em toda escola que isso acontece. Claudia Vidaletti Matos Neves, pós-graduada em Metodologia do Ensino e Educação Infantil em Séries Iniciais, conta que é necessária uma longa conversa para os pais serem convencidos de que haverá danos para todos: legais, emocionais, intelectuais.

Perceber que cada fase tem suas descobertas é essencial. As etapas de desenvolvimento são importantes para a criança, desde aprender a andar, falar e comer sozinho – no geral, o desenvolvimento emocional e social. “O impacto da adultização é negativo para a criança. Brincadeiras e construções só fazem sentido se em colaboração com seus pares. Isso é próprio de cada grupo, e não seria diferente com as crianças” completa Vidaletti.

Reverter esse quadro de banalização da adultização infantil é indispensável. Segundo Claudia, o meio para possibilitar isso é a informação, trazendo o conhecimento de que o assunto é sério e merece ser discutido. Correndo, brincando e estudando. Tendo convívio com os pais. É esta a agenda que uma criança deve ter, segundo profissionais do comportamento humano.

De todo modo, os especialistas enfatizam que é preciso colocar o pé no freio e deixar as crianças se comportarem como crianças. Já os pais, se dedicarem mais com a qualidade do tempo com o filho e, assim, o filho consequentemente aproveitará com mais qualidade esta etapa do seu desenvolvimento, que é a infância.

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um comentário

  1. É muito triste ver os pais querendo antecipar uma parta da vida da criança que deveria ser vivida de forma mais intensa. Eu tive uma infância maravilhosa e vejo que as crianças de hoje em dia tem uma educação bem diferente da minha. É uma pena, estão perdendo muita coisa.

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