Comportamento

Ninfomania e satiríase: conheça a rotina de viciados em sexo

O não entendimento acerca do assunto e a falta de divulgação fazem com que muitos não compreendam o que têm e acabem não procurando por ajuda

O não entendimento acerca do assunto e a falta de divulgação fazem com que muitos não compreendam o que têm e acabem não procurando por ajuda

Texto: Aline Dall’ Igna, Geraldo Genovez e Pâmela Fogaça

Como de costume, o sol nem havia nascido e Beatriz já se contorcia em sua cama. Era segunda-feira e o relógio marcava 5h. Coração acelerado, nervosismo aparente e ansiedade a mil. Depois de finalmente se levantar, desceu até a cozinha para tomar café da manhã. Tentativa falha. Foi ao banheiro e por lá ficou tempo suficiente para perder o ônibus. Suspiros e calafrios, sintomas típicos de alguém doente. Ela sentia dor e, por impulso, se machucava ainda mais. A mãe não batia mais na porta, acostumou-se com a situação recorrente. Beatriz deixou o cômodo só duas horas depois. Às pressas, ela colocou os sapatos enquanto devorava o iogurte deixado na mesa.

No ponto de ônibus, somava o atraso no trabalho à necessidade de ir ao banheiro novamente. Suava frio e tremia. Optou por levantar calmamente ao avistar a condução se aproximando. Dois degraus e oito passos. Sentou no lado da janela, onde não ficava tão vulnerável ao olhar alheio. Casaco em cima do colo, mão envergonhada por baixo do pano. Se aliviar antes de trabalhar era uma ação mais do que bem-vinda, era obrigatória. Naquelas circunstâncias, Beatriz estava tonta e a fraqueza tomava conta de seu corpo.

Se pôs em pé e puxou a cordinha que solicitava a parada do ônibus. Pelo retrovisor, o motorista a encarava e Beatriz sabia o porquê. Ele já havia percebido o seu problema e pedido que parasse de se comportar de tal forma ali. A garota desceu rapidamente e, quando olhou o celular, eram 8h45. Isso significava mais uma bronca do chefe, que já a esperava na porta. Repreendida inúmeras vezes, Beatriz pediu desculpas e se trancou no banheiro. Lá, ela pôde chegar o mais próximo da calma. Como sempre, se aliviou, lavou o rosto e saiu. Desta vez, tomou os remédios indicados pela médica.

Para bem aproveitar o tempo perdido naquela manhã, Beatriz organizou a mesa e começou a trabalhar. Entre um relatório e outro, ela assistia vídeos que ninguém poderia descobrir. Se envergonhou do que estava fazendo, mas não parou. Trocou de ambiente. No fim do corredor à esquerda: banheiro. O sino da Igreja Matriz soou, eram 11h. Até então, Beatriz havia se descontrolado quatro vezes. Uma ao acordar; outra no ônibus; na chegada ao trabalho; e também antes do intervalo. Para ela, o dia seria longo e sem perspectivas de descanso.

Beatriz, de fato, possui problemas de saúde. Ela é ninfomaníaca. Quando o relógio marca 12h e todos saem para almoçar, aproveita o intervalo para saciar a fome de sexo no banheiro do escritório onde trabalha. Com uma rotina baseada em masturbação a todo o momento, a jovem de 24 anos não vive em função da compulsão sexual. O transtorno virou sua vida de cabeça para baixo e tornou simples ações como dormir, acordar, comer, trabalhar e estudar muito mais difíceis.

Na base de gemidos abafados, casaco em cima do colo e medicamentos, Beatriz Alves, natural de Timbó, sofre de um mal pouco conhecido e bastante delicado. No auge da sua juventude, tudo o que precisa é ficar sozinha para se masturbar. Ou melhor, encontrar parceiros para transar por tempo indeterminado e diversas vezes, o que, segundo ela, é bem difícil. Cansaço físico e emocional. Beatriz se diz “mentalmente perturbada” e afirma ter a missão de não deixar transparecer ao mundo o seu vício por sexo, masturbação e pornografia. Torturada pelas horríveis sensações, ela preferiu não se identificar à reportagem. “Sou refém de mim mesma”, explica.

 “Eu começo a trabalhar às 8h. Mas preciso me masturbar, tomar banho e tomar café da manhã antes. Ou seja, acordo às 5h. No serviço, me divido entre a organização da pornografia do meu celular e pelo o que sou paga para fazer: trabalhar. Bateu meio-dia é hora de me trancar no banheiro e me masturbar novamente. Eu como qualquer coisa pra sobrar mais tempo, às vezes consigo mais de uma. Depois eu fico me auto-provocando. Furei os bolsos de todas as minhas calças por dentro, facilita. Daí eu coloco a mão lá e tento, já consegui gozar desse jeito. Se até as 18h, quando acaba o expediente, eu não tomar meu remédio, tenho uma crise de ansiedade e chego até a desmaiar. Quando nada sai fora do planejado, pego um ônibus pra um bairro do lado do meu, porque quase ninguém usa a mesma linha, o que me dá a liberdade de abrir o zíper e me masturbar com o casaco no colo. Ninguém vê, nem ouve, a alegria de gozar. Tento não gemer”

Conforme relata Beatriz, ser viciada em sexo não é positivo e não dá margens para brincadeiras. “Os orgasmos nunca são suficientes. Na masturbação, os movimentos machucam a minha vagina, onde a pele é mais sensível e não suporta mais o toque. Já na transa… [por dentro] dói mais ainda, tenho lesões internas e nunca dá tempo de sarar por completo”, conta. Sobretudo, a dor vem também da alma. “É vergonhoso admitir isso e, ainda mais, pedir ajuda. Passei por isso calada durante dois anos, até que meus pais perceberam e me levaram no médico. Hoje [tomo] remédios e faço terapia”, explica a garota, que atualmente está em um período delicado do tratamento.

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O buraco é mais embaixo

No dicionário, a palavra ‘compulsão’ significa “tendência à repetição, impulso ou sensação de estar sendo levado, irresistivelmente, a executar alguma ação irracional”. Ou seja, trata-se da vontade incontrolável de praticar algo, podendo ser relacionada a diversas alterações de comportamento. A compulsão mais comum é a alimentar, proveniente da gula. Assim como esse e outros tipos de vício, a compulsão sexual também pode desencadear transtornos e doenças gravíssimas. Além disso, ela é designada como ninfomania, nas mulheres, e satiríase, nos homens. As características são as mesmas em ambos.

De acordo com a psicóloga e sexóloga Priscila Junqueira, gostar de transar e se masturbar não são problemas, desde que isso não interfira no andamento de todo o resto. “Para pensarmos no vício, temos que colocar como parâmetro o quanto isso está atrapalhando as outras atividades da rotina da pessoa. Pode ser que exista prazer, porque nada é à toa. Mas quando há mais sofrimento que prazer, existe uma compulsão”, explica. Para ela, detectar a compulsão é simples, se comparado com a dificuldade em aceitar a situação e enfrentar o tratamento.

A especialista esclarece que é possível se livrar da compulsão sexual, mas a tarefa é exaustiva e requer a ajuda de um profissional. “O tratamento é feito através da psicoterapia e de antidepressivos, na maioria das vezes. Mas é importante que a busca por ajuda seja feita de livre e espontânea vontade. Por isso, o apoio da família e amigos se faz essencial na hora de alertar sobre o comportamento e abraçar a causa sem julgamentos”. Priscila reitera que um dos problemas de quem possui o transtorno é justamente o preconceito. “As pessoas têm a tendência de rotular como safadeza e adjetivos pejorativos, mas não param para pensar que pode ser um trauma”.

A compulsão acontece de forma semelhante ao efeito dominó, uma coisa acaba levando a outra. “Pessoas com dificuldade de relacionamento às vezes potencializam e transformam um desejo numa obrigação, até perder o controle das suas vontades. É normalmente uma consequência de uma obsessão, sentimento ligado ao pensamento. A partir disso, os pensamentos ficam somente voltados para a atuação do vício, em alimentá-lo. Os compulsivos sofrem de ansiedade e demais prejuízos emocionais por conta do afastamento social. Geralmente são levados à depressão”, conclui a doutora.

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Dados indefinidos

O não entendimento acerca do assunto e a falta de divulgação fazem com que muitos não compreendam o que têm e acabem não procurando por ajuda. Por conta disso, não há dados concretos quanto ao número de pessoas compulsivas por sexo no Brasil.

Outro fator que compromete o resultado de pesquisas é a variação de vícios que contemplam a compulsão por sexo, como por exemplo, o acesso à pornografia na internet constantemente e a procura por sexo por telefone em momentos que não é possível transar.

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