Cidades

Margens da BR 470 revelam histórias de vendedores ambulantes

Trajeto com pouco mais de 50 km, de Blumenau a Navegantes, contabiliza 10 pontos de vendedores ambulantes. Entre os produtos comercializados estão redes, espelhos, frutas, hortaliças e mel.

Texto e edição: Daiane de Souza, Anna Paola Paraná e Duda Cagneti
Fotos: Daiane de Souza

Há uma feira sobre rodas próximo ao trevo do Badenfurt, no Km 57 da Rodovia BR 470, em Blumenau. Entre as mercadorias vendidas estão abacaxi, ovos, maçã, pinhão, laranja, aipim, cebola, alho, melancia, couve flor e até carvão. Tudo depende da época do ano e dos períodos de colheita. O dono desta quitanda móvel é Níbio Kamper, 59 anos, motorista de caminhão que há um ano se dedica a fazer comércio às margens de uma das rodovias mais movimentadas do Estado. A ideia surgiu em 2016, quando Níbio perdeu o emprego de caminhoneiro. Seu filho, de 34 anos, estava há 3 se dedicando à profissão de ambulante sobre rodas e inspirou o pai. Proprietário do caminhão de 15 metros e com vontade de trabalhar, Níbio não viu problemas em se aventurar no novo meio. “Aqui não tenho folga. Nem Natal, nem dia santo. Nada! Mas pelo menos ganho meu dinheiro”, explica.

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De segunda a segunda o comerciante prepara seu caminhão para mais um dia de trabalho. O estoque é abastecido a cada dois dias no Ceasa (Centro de Abastecimento de Santa Catarina) da cidade, ou conforme a necessidade.  Devidamente preparado, o comerciante estaciona no ponto que chama de seu. O ponto de Níbio fica quase em frente a um posto de gasolina e a 200 metros de uma lombada eletrônica, que costuma gerar filas.

A poucos metros de Níbio, no mesmo sentido da BR 470, está estacionada a carrocinha de Fábio Longen, 39 anos. O blumenauense trabalha há 13 anos como vendedor ambulante e comercializa pinhão cozido, mel e tangerina. Para escolher o ponto onde estacionar todas as manhãs seu trailer, fogareiro e botijão de gás, Fábio também apostou na proximidade da lombada eletrônica. O trânsito gerado neste trecho da rodovia permite a abordagem dos comerciantes ambulantes, que finalizam a venda em poucos minutos. “Aqui é só comprar e ir embora. Dois minutos e a pessoa já sai com o que precisa”, completa Níbio. Para Fábio, o maior benefício de ser vendedor ambulante é fazer seu próprio horário. “Eu trabalho de segunda a segunda, mas pelo menos não preciso ficar levando esporro de patrão. Trabalho a hora que quero, só que se eu não trabalhar o dinheiro não entra e o pinhão estraga em casa”. O comerciante, que percorre quase 200 km para buscar a mercadoria, de Blumenau a São Cristóvão do Sul, garante que consegue viver praticamente o ano todo com o dinheiro que junta na temporada de pinhão, vendendo o produto nas margens da BR.

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A paraibana Cleusa Ferreira de Almeida, de 68 anos, já é figura conhecida de quem transita pela BR 470 sentido Blumenau x Gaspar. Há vinte anos a senhora simpática de sorriso largo e conversa farta comercializa seus produtos nas encostas do Km 58 da rodovia. Quem passa pelo trecho e reduz a velocidade para passar pela lombada eletrônica ou entrar no posto de gasolina à direita, já deve ter reparado nas cores vivas dos produtos vindos de Pernambuco e Paraíba. Entre eles estão redes, puffs, sapateiras, espelhos e cortinas de madeira, que contrastam com o visual verde predominante no trajeto. Para ela, o segredo de se manter há tanto tempo no ramo está em seu jeito simpático e falante: “o vendedor ambulante tem que falar bastante, porque se não falar, não vende”.

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Ao contrário dos colegas de profissão, ainda nos anos 1990, Cleusa escolheu o ponto pela segurança – consequência das câmeras de vigilância e do intenso movimento no posto vizinho ao seu local de trabalho. Cleusa explica que foi o comandante da Polícia Rodoviária Federal, em meados de 1997, que a autorizou a expor seus produtos no local – inclusive, ideal para montar a rede nas árvores próximas e colocar a filha recém-nascida para dormir. Hoje dona Cleusa é Microempreendedora Individual e possui alvarás da Receita Federal e do Município de Blumenau para ser uma vendedora ambulante nas margens da BR 470.

Jefferson Voigtlaender, gerente de fiscalização de obras e posturas da cidade de Blumenau, explica que a prefeitura não tem autonomia para liberar ou não a atuação dos vendedores ambulantes no local. Isso porque, de acordo com ele, a área é de propriedade federal. “A BR 470, assim como todas as outras rodovias federais, é de jurisprudência federal e a prefeitura não tem o poder de fiscalizar, aprovar ou coibir essa prática”, completa. Pedro José Pereira Granada, Técnico de Suporte do Departamento Nacional de Infraestrutura e Transporte (DNIT) explica que a ocupação da faixa de domínio em rodovias federais, seja temporária ou não, é irregular e que a responsabilidade de fiscalizar tais práticas é da Polícia Rodoviária Federal. “Estes ambulantes estão ali, mas não sabem o perigo que correm com o tráfico intenso nestes locais”, afirma o técnico.

Este tipo de prática é comum também em avenidas e estradas municipais. Em Itajaí, de acordo com Loreno Machado, gerente de fiscalização da cidade, a presença de vendedores ambulantes em pontos ‘fixos’ se destaca nas margens da Avenida Osvaldo Reis e Adolf Konder. Ele explica que é necessário um alvará para trabalhar como ambulante no município e que, se tratando de produtor, basta uma autorização. Porém, Loreno confessa que é difícil manter um controle sobre estes comerciantes, uma vez que eles mudam de local com bastante frequência. “Para o ambulante não existe uma fiscalização, porque uma hora ele está aqui e outra hora ele está lá. O que existe para ambulante é vista grossa”, completa o ambulante Fábio.

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A presença de vendedores ambulantes é comum em toda a extensão da BR 470. No trecho entre Blumenau e Navegantes, de aproximadamente 50 km, no final da tarde nublada de domingo de Páscoa foi possível contabilizar dez pontos de comercialização de produtos diversos às margens da rodovia. Só de barracas e trailers vendendo pinhão cozido e mel, como a do Fábio, foram cinco. No trajeto foram contados ainda três caminhões quitanda, como o de Níbio, um ponto de venda de pelúcias e um ponto de venda de redes, espelhos, puffs e demais produtos de cores vivas. Neste ponto trabalha dona Cleusa, a senhora de conversa farta.

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